ENTREVISTA À RÁDIO COURTOISIE (2006)
Padre Anthony Cekada (†2020), 26 de abril de 2006
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Nesta entrevista promovida por Serge de Beketch, da Radio Courtoisie, França, Padre Cekada expõe seu estudo sobre a invalidez das consagrações episcopais efetuadas no novo rito de 1968.
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Serge de Beketch: Boa noite, Padre.
Padre Cekada: Boa noite, França.
Serge de Beketch: O senhor está nos Estados Unidos. Eu o chamei porque descobri em seu site na internet, que se chama www.traditionalmass.org, uma exposição particularmente clara de algo de enorme gravidade. Trata-se de um estudo sobre a validade da consagração dos bispos conciliares desde 18 de junho de 1968. É um estudo que o senhor intitula “Absolutely nul and utterly void”, isto é, “absolutamente nulo e totalmente vão”. Ao fazer isso, o senhor retoma a conclusão antecipada da bula apostólica Apostolicae Curae de 1896, de Leão XIII, que havia sancionado definitivamente a invalidade das ordenações anglicanas. Vamos explicar por quê. Mas a primeira pergunta que vou lhe fazer é sobre a sua intenção ao publicar este estudo. Não foi por acaso. O senhor o publica no dia da Anunciação, pois está datado de 25 de março de 2006, que é também o dia do décimo quinto aniversário da morte de Dom Lefebvre.
Padre Cekada: Exatamente. Fui ordenado por Dom Lefebvre. Eu estava na cidade de Milwaukee, no estado de Wisconsin, no centro dos Estados Unidos, e era seminarista menor naquele local. Depois entrei na ordem dos cistercienses e fui enviado para a Suíça, para a abadia de Friburgo, no norte da Suíça. Li muito sobre a questão da missa tridentina e, naquele momento, havia um grande debate na imprensa. Isso foi por volta de 1975, sobre o caso de Dom Lefebvre. Fui atraído pelas posições de Dom Lefebvre e entrei no seminário de Écône naquele ano. Fui falar uma vez com Dom Lefebvre sobre a questão de meus antigos amigos no seminário modernista; se quisessem trabalhar com a Fraternidade São Pio X, ele me explicou sua posição sobre a questão das ordens conferidas no novo rito.
Serge de Beketch: Então, qual era essa posição de Dom Lefebvre?
Padre Cekada: Dom Lefebvre me disse que suprimiram algo no que diz respeito ao sacerdócio e que, portanto, é duvidoso; e me explicou que, quanto às consagrações episcopais, isso é totalmente inválido porque mudaram a forma sacramental. Fiquei chocado ao ouvir tal coisa.
Serge de Beketch: A posição de Dom Lefebvre sobre a validade dessas consagrações evoluiu depois? E em que sentido?
Padre Cekada: Após alguns anos, ele modificou, creio eu, sua posição. Nos anos 1980, acho que entrou em negociações com o Vaticano e mudou um pouco sua posição, dizendo que aparentemente isso vem dos ritos orientais e que são válidos.
Serge de Beketch: O argumento dos defensores da validade é dizer que o ritual conciliar retomou elementos de rituais muito mais antigos, que eram rituais orientais, e que isso confere a essa consagração a mesma validade. Essa é a posição atual dos conciliares.
Padre Cekada: Isso é completamente falso, porque fiz uma comparação entre a nova forma da consagração episcopal e os ritos orientais. Há algo em comum, mas não são a mesma coisa.
Serge de Beketch: O que eu gostaria de esclarecer primeiro, segundo a velha fórmula: de onde o senhor fala? É uma fórmula trotskista, se não me engano, meu caro Patrick Goffman.
Patrick Goffman: Integralmente marxista.
Serge de Beketch: O senhor fala como professor de teologia e de liturgia católica no seminário da Santíssima Trindade de Brooksville, na Flórida. O senhor é padre, teólogo e liturgista. Portanto, está fundamentado para ter um olhar e uma opinião profissional sobre essas questões. Pode recordar aos ouvintes o que faz um sacramento?
Padre Cekada: Para um sacramento, é necessário ter matéria e forma. A forma é a fórmula essencial. Para o sacramento da Ordem, Pio XII explicou que é necessário ter duas coisas na forma sacramental: a graça do Espírito Santo e a potestas Ordinis (isto é, o poder da Ordem conferida). Essas duas coisas são exigidas. Se retirarmos a potestas Ordinis, altera-se a substância da forma, e a forma já não diz a mesma coisa. A consequência é que a forma é inválida.
Serge de Beketch: Não se poderia pensar que, se a forma se torna inválida por negligência ou má vontade do celebrante ou da pessoa que ordena, a boa-fé daquele que recebe o sacramento não conduz ao princípio do Ecclesia supplet? O Espírito Santo não supre, de certo modo, a ausência do celebrante?
Padre Cekada: A Igreja não pode suprir a falta de algo essencial na forma. Porque isso é requerido. Por exemplo, no batismo, há coisas que são necessárias. Se omitirmos, por exemplo, a palavra “batizo” na forma, de nada adianta a intenção do celebrante.
Serge de Beketch: Podemos dizer que é da mesma ordem que a invalidez de certas missas quando, por vezes na África, quis-se fazer inculturação, e celebravam-se certas missas com vinho de palmeira e fruto da árvore-do-pão. Sempre aprendi que essas não são missas. É da mesma ordem?
Padre Cekada: É mais ou menos da mesma ordem. Mas aí se mudou a matéria. E aqui, na consagração episcopal, mudou-se a forma.
Serge de Beketch: Quais são as consequências dessa alteração de forma? Naturalmente, é a invalidade sacramental. Quais são as consequências da invalidez sacramental na consagração de um bispo?
Padre Cekada: Todos os sacramentos que dependem do caráter sacerdotal tornam-se então inválidos: a missa, as absolvições, a extrema-unção, etc. Porque esses sacramentos dependem da validade da ordenação sacerdotal, que provém de um bispo, de um verdadeiro bispo.
Serge de Beketch: Isso quer dizer que, se o bispo é inválido, todos os atos que ele realiza em seu ministério tornam-se inválidos.
Padre Cekada: Sim, em seu ministério sacerdotal, sacramental.
Serge de Beketch: Se ele confere a Ordem a alguém, a pessoa em questão não é sacerdote.
Padre Cekada: Sim, infelizmente, infelizmente. Essas são as consequências.
Serge de Beketch: Essa modificação data de quando exatamente?
Padre Cekada: De 1968. Paulo VI mudou o Pontifical Romano e modificou a fórmula para a ordenação sacerdotal com a supressão de uma palavra e, para a consagração episcopal ele mudou completamente a forma essencial.
Serge de Beketch: O senhor pode nos dizer qual palavra foi alterada? Em que a modificação se torna manifesta para alguém que assiste a uma ordenação ou a uma consagração episcopal?
Padre Cekada: A antiga forma exprimia duas coisas muito claramente: a graça do Espírito Santo e a plenitude do sacerdócio. A nova forma exprime, de certo modo, a graça do Espírito Santo, mas não exprime o poder do bispo, a potestas Ordinis. Utilizou-se outra expressão em latim, “Spiritus principalis”, que é a palavra essencial na forma. Fiz um pequeno estudo sobre o significado dessa expressão “Spiritus principalis”. Descobri que há uma boa dúzia de significados. Entre esses significados, não se pode encontrar a idéia da potestas Ordinis de um bispo. Portanto, na nova forma, retirou-se completamente o conceito da plenitude do sacerdócio. Isso desapareceu.
Serge de Beketch: Isso pode ser explicado por um erro de tradução ou é algo que decorre de uma intenção clara de modificar a forma do sacramento?
Padre Cekada: A meu ver, é o segundo caso, porque os homens que trabalharam no novo rito de consagração episcopal eram verdadeiros modernistas. Dom Bernard Botte e o Padre Joseph Lécuyer tinham uma teologia totalmente modernista. Creio que foi feito de propósito.
Serge de Beketch: O senhor fala do Padre Botte, que foi quem argumentou com base no precedente das liturgias orientais, coptas, sírias ocidentais, etc. Mas ele diz que o novo ritual não é um ritual novo, mas um empréstimo de um ritual muito mais antigo, que é o ritual oriental. O senhor nos diz que isso não é verdade. A posição de Dom Botte foi defendida recentemente em um artigo publicado na revista Le Sel de la Terre pelo Irmão Pierre-Marie, O.P., que tem exatamente a mesma posição que Dom Botte. O senhor diz que o ritual moderno não é conforme ao ritual oriental.
Padre Cekada: Não, porque o próprio Dom Botte fez um estudo dos ritos orientais e identificou uma forma totalmente diferente no rito sírio e no rito maronita para a consagração episcopal, uma fórmula completamente diferente. Dom Botte tomou como nova forma para a consagração episcopal a sua própria reconstrução de uma obra de Hipólito. É uma reconstituição, é inteiramente uma reconstituição; não é um rito real em uso na Igreja Católica e aprovado pelos Papas. É uma criação erudita de Dom Botte.
Serge de Beketch: O seu estudo é algo enormemente assustador. O que o senhor afirma é que, no estado atual das coisas, todos os bispos que foram consagrados segundo o ritual novo, o ritual conciliar, a partir de 18 de junho de 1968, não são bispos.
Padre Cekada: Sim, infelizmente, infelizmente.
Serge de Beketch: Portanto, todos os padres que eles ordenaram não são padres.
Padre Cekada: Sim, infelizmente. Essa é a consequência, se aplicarmos os princípios teológicos muito, muito claros que Pio XII enunciou em sua encíclica Sacramentum Ordinis. É muito claro.
Serge de Beketch: Na sua opinião, segundo a sua análise, se aceitarmos o seu exame da questão, quantos bispos validamente consagrados ainda restam no mundo hoje? Pois 1968 já faz quase 40 anos, e ninguém é sagrado bispo antes dos 40 anos; seriam bispos de 80 anos.
Padre Cekada: Não sei o número exato. Mas a consagração não mudou muito nos ritos orientais. O que digo aplica-se apenas ao rito romano.
Serge de Beketch: Isso quer dizer também que os bispos da Fraternidade São Pio X, Dom Bernard Fellay, Dom Richard Williamson, Dom Alfonso de Galarreta e Dom Tissier de Mallerais são validamente consagrados.
Padre Cekada: Sim, sem dúvida.
Serge de Beketch: Portanto, os padres que eles ordenaram são validamente ordenados.
Padre Cekada: Sim, são ordenações realmente válidas, e foi Dom Lefebvre quem realmente salvou o sacerdócio nesse sentido.
Serge de Beketch: Se aceitarmos sua posição, isso é providencial, é mais do que providencial a intervenção de Dom Lefebvre. O que é surpreendente é que sua posição não parece convencer os padres e os bispos da Fraternidade. O senhor tem uma explicação para essa reserva?
Padre Cekada: É bem possível que não haja muitos padres da Fraternidade que tenham visto meu pequeno estudo. Ele foi publicado recentemente.
Serge de Beketch: Ele está publicado em inglês em seu site na internet: www.traditionalmass.org. Também está publicado em francês; há uma tradução que foi feita que é excelente, aliás, eu assinalo, no site: www.rore-sanctifica.org, onde há o texto em francês, e convido os ouvintes que se interessam por isso — e como não se interessariam? — a consultar esse site rore-sanctifica.org, onde terão uma excelente tradução do seu trabalho de forma muito acessível. Mais uma pergunta, Padre Cekada. Quais são os sacramentos que “passam ilesos”, por assim dizer, e que permanecem válidos? Há o batismo e o matrimônio?
Padre Cekada: O batismo e o matrimônio.
Serge de Beketch: No caso do sacramento da penitência, da confissão, sempre ouvi dizer que, se alguém se confessa com uma pessoa que não é validamente sacerdote, mas o faz com sinceridade de coração, é absolvido.
Padre Cekada: A teologia da Igreja exige que haja um sacerdote validamente ordenado para dar lhe a absolvição.
Serge de Beketch: É bastante assustador o que o senhor nos explica. Só nos resta nos abrigar atrás da frase da Escritura que diz: “as portas do inferno não prevalecerão”, mas como poderiam não prevalecer numa situação como essa? Vamos nos ver em uma situação em que não haverá mais padres nem bispos.
Padre Cekada: Diz-se com bastante frequência, de fato, que a Igreja está um pouco eclipsada. Tudo isso são as consequências horríveis do Concílio Vaticano II, as consequências terríveis que se seguiram ao segundo concílio do Vaticano. É realmente horrível viver neste tempo.
Serge de Beketch: O senhor fez propostas ou recebeu propostas de padres — penso no Irmão Pierre-Marie ou nos dominicanos de Avrillé — propostas de disputatio, ou de outros, sobre essa questão?
Padre Cekada: Não, ainda não.
Serge de Beketch: Mas o senhor estaria disposto, claro, a debater essa questão?
Padre Cekada: Sim, creio que estou sempre disponível. Prefiro escrever artigos, porque as questões dos ritos orientais são realmente muito complicadas.
Serge de Beketch: Padre, vamos fazer uma coisa, se o senhor concordar: temos perguntas, mas não poderemos respondê-las esta noite, pois, como o senhor disse, são questões complexas. Proponho aos nossos ouvintes interessados que me enviem suas perguntas, que eu lhe encaminharei aos Estados Unidos. Depois o convidarei novamente para esta rádio, para que o senhor possa responder e aprofundar essa questão.
Padre Cekada: Sim, de acordo.
Serge de Beketch: Muito obrigado, Padre, e lembre-se de nós em suas orações.
Padre Cekada: Obrigado pela sua paciência com o meu francês.
Serge de Beketch: Seu francês é perfeito, e o senhor sabe, em tempos de guerra não nos preocupamos muito com o sotaque das pessoas que lutam no bom combate.
Patrick Gofmann: O latim com sotaque americano mais um toque de sotaque suíço é delicioso.
Serge de Beketch: Obrigado, Padre, até breve.
