A SANTA REGRA E A MONITA SECRETA
Padre Luan Guidoni

Hoje nos propomos a escrever novamente sobre os templários e os jesuítas, os zelosos defensores do pontífice romano que foram escamoteados pelo bispo da cidade de Roma, isto é, da verdadeira Terra Santa. Quanto ao caso moral, vanitas vanitatum; quanto ao caso histórico, comoedia comoediarum. Parece-nos certo que a List der Vernunft tem por inimiga a fortuna caesaris. Mas não nos compete hoje ironizar os infortúnios eclesiásticos, e sim lançar uma nova luz sobre a ominosa questão templária e jesuítica. Propomo-nos três movimentos: primeiro, uma consideração acerca da regra primitiva da Ordem do Templo; em seguida, uma análise da chamada Monita Secreta; e, por fim, um bom conselho para ti, quicumquees, o Christi miles.
Volvamos nossa atenção, antes de tudo, à regra primitiva redigida por São Bernardo de Claraval. Em La Règle du Temple, Henri de Curzon compilou os principais preceitos que regiam a Ordem do Templo. O sublime capítulo sobre o leão sempre foi o meu favorito desde antes da minha vida clerical. O Espírito Santo guiou a mão de São Bernardo enquanto escrevia a Regra, e não há como negar essa verdade. Há, entretanto, um capítulo que foi usado caluniosamente contra os templários e que até hoje é a gênese de mil lendas. No capítulo sobre o concílio secreto, São Bernardo escreveu que non semper omnes fratres ad consilium convocare jubemus. Nada há de repreensível nesta lei da Ordem, e todo religioso a compreende perfeitamente. Ainda assim, intérpretes maliciosos, notadamente os franceses, como lhes é habitual, distorceram essa passagem e tantas outras para acusarem a Ordem de heresia, e por isso ela foi suprimida. O Padre Jean Guillaume Gyr, em seu livro La Franc-Maçonnerie en elle-même et dans ses rapports avec les autres sociétés secrètes de l’Europe, notamment avec la Carbonarie italienne, o qual tratei de popularizar em nossas terras quando ainda estava no seminário, não perdoou os templários, acusando-os de possuírem uma segunda regra secreta contrária à regra original.
Pois o mesmo se deu com a Companhia de Jesus. Quando apareceu o misterioso texto da Monita Secreta, um suposto manual de dominação global atribuído ao superior-geral dos jesuítas, o “papa negro”, todas as forças anti-romanas uniram-se una voce clamando pelo fim da Ordem de Loyola. O texto era uma fraude para perseguir os jesuítas e derrubar mais um vetor de influência romana sobre o mundo. Lemos no início da Monita Secreta a seguinte instrução:
“Estas Instrucções Secretas, guardarão com zelo e cuidado os Superiores da Ordem, tendo-as sempre com sigo, e unicamente communicando-as aos Professos instruidos, para que conheção quanto fructo resulta á Companhia do seu uso; porém só as hão de communicar debaixo de sigillo, como escriptas e tiradas da propria, e particular experiencia, que havemos adquirido; e porque alguns de nós-outros já são sabedores de muitos destes segredos, teve cuidado logo no seu principio a Companhia, que nenhum delles podesse passar para outra Religião que não fosse a dos cartuxos, pela sua abstracção de vida, e perpetuo silencio, que guardão na observância da sua regra, confirmada pela Sé Apostolica.”
Ora, um jesuíta, especialmente um bom jesuíta, não deixa traços de suas operações, muito menos um manual completo de diretrizes. Ainda assim, por mais que nos inclinemos, em certa media, à interpretação histórica de Jacques Crétineau-Joly em relação aos jesuítas, não podemos deixar de concordar com as certíssimas ponderações críticas de Carlos Alberto Disandro sobre esse tema, expressas nos livros La Compañía de Jesús Contra la Iglesia y el Estado e Clemente XIV: El Breve que Abolió a la Compañía de Jesús. Conheci a obra do Dr. Disandro por intermédio de um padre argentino ainda no meu primeiro semestre de formação seminarística, mas somente no último ano comecei a divulgar sua obra entre meus colegas mais radicais, e desde então a obra do Dr. Disandro ganhou vida para além da hispanidade.
Os dois casos de supressão ocorreram pela decadência interna de ambas as ordens, o que propiciou a investida de seus inimigos contra elas até a vitória daqueles que se opõem tanto a uma milícia de teólogos quanto a uma milícia de cruzados.
Então, o que fazer em face de todas essas coisas? Siga o que diz Escritura: omnia autem probate quod bonum est tenete. Tanto a Regra da Ordem do Templo como a Monita Secreta devem ser estudadas profundamente. Aos surdos que não compreendem o porquê dessa recomendação, exclamo: ἐφφαθά. Questões menores sobre a autoria de documentos ou pormenores em teologia devem ser ignorados nestes pontos específicos da história, pois aqui a pergunta essencial não é quem escreveu, ou se este ou aquele documento é real ou falso, ou ainda se houve ou não alguma infiltração (e como sabemos, houve), mas se o método realmente funciona. E, como ficou provado, tanto a metodologia templária quanto a jesuítica revelam-se operantes, quer para o bem, quer para o mal. Quem quiser seguir por esse caminho deve planejar diligentemente antes de dar qualquer passo, especialmente nestes tempos modernos.
Como adaptar a estratégia dos antigos aos nossos tempos? É a pergunta que paira sobre nós. Para respondê-la, necessitamos subir o Monte Parnaso e devotá-la à Clio.
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Padre Luan Guidoni
20 de Abril de 2026
