CAPITALISMO E JUDAÍSMO SÃO SINÔNIMOS: BREVE COMENTÁRIO AO ESTUDO DE WERNER SOMBART QUE DESVENDOU A ORIGEM DO LIVRE MERCADO
Lúcio Guimarães, 7 de novembro de 2026

Algumas décadas atrás, não havia cena mais recorrente nas faculdades brasileiras do que alunos de Humanas andando para cima e para baixo com seus exemplares do célebre livro de Max Weber ao iniciarem seus estudos sobre o capitalismo. Hoje, porém, não estamos certos se assim se segue ou se aqueles que lêem Weber conseguem entender ao menos o prefácio da obra. Não começaremos novamente um discurso anatematizando a vacância do intelecto brasileiro; desta vez prosseguiremos com a exposição daquele estudo que deu continuidade ao de Weber e que propositadamente é renegado pela discussão acadêmica por ser considerado polêmico, demasiado polêmico.
Die protestantische ethik und der geist des kapitalismus, o clássico sociológico de Max Weber publicado em 1904 e traduzido no Brasil como A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, é um verdadeiro pilar nos estudos sobre as origens do sistema capitalista.

O que seria do capitalismo sem o protestantismo? É a grande questão levantada por Weber; e o que seria do capitalismo, pergunta Sombart, sem o judaísmo? E ele complementa afirmativamente: puritanismo é judaísmo.
Die Juden und das Wirtschaftsleben, traduzido em português como Os judeus e a vida econômica, é um estudo de 1911 do sociólogo alemão Werner Sombart, o qual desvendou que o verdadeiro pai do capitalismo é o judaísmo. Se o protestantismo, como crê Weber, gerou o capitalismo nascente, assim o fez porque é um crença judaizante, tal como demonstrou Sombart cem anos atrás. Transcorrido esse tempo desde o estudo inicial de Weber e da adição fundamental de Sombart à questão, a história do século XX e deste XXI que nossos olhos tão bem testemunham comprovam que eles estavam corretíssimos. Capitalismo é protestantismo, e ambos são judaicos.

Onde Weber parou, Sombart prosseguiu. Sucede-se agora o nosso dever de resumir brevemente as quinhentas páginas do estudo de Sombart para que mais facilmente sua tese, a qual queremos transmitir fielmente como ele a escreveu, se difunda entre os nossos contemporâneos que também se dedicam a esses estudos sobre as origens do capitalismo.
Sombart começa indagando se os judeus dominam o capitalismo em sua época. Quanto a isso, ele não deixa dúvidas: sim, eles dominam. Ora, assim é porque os judeus dominaram o capitalismo moderno ou desde o início foram seus principais agentes? Ele dedicará duzentas páginas para responder a essa pergunta. Depois de algumas centenas de provas de que o judaísmo foi a causa eficiente do capitalismo, sobretudo após a expulsão dos judeus da Espanha e de Portugal — que resultou na grande diáspora destes para os países ao norte e também às Américas —, Sombart conclui o seguinte:
“Chegamos, assim, ao final desta seção e voltamos nossos olhos por um momento para trás, para o caminho já percorrido. O que vimos claramente diante de nós foi o forte contraste entre a mentalidade econômica judaica e a não judaica durante toda a época pré-capitalista. Procurei captar em suas ideias fundamentais a mentalidade econômica predominante: tradicionalismo, ideal do ganha-pão, ideia da estruturação estamental e estabilidade são seus componentes mais importantes. Mas o que é o fundamentalmente novo no modo de ver as coisas de que tomamos conhecimento como o modo especificamente judeu? Podemos sintetizá-lo numa só palavra de peso: é o espírito ‘moderno’ que hoje domina inteiramente os sujeitos econômicos. Se passarmos os olhos pelo ‘registro dos pecados’ de que se acusou os judeus durante os séculos XVII e XVIII, logo perceberemos que (exceto as manipulações criminosas que fundamentalmente não entram em cogitação aqui) nada há nele que o moderno homem de negócios não consideraria obviamente correto, nada há nele que não constitui o pão de cada dia de toda a moderna gestão de negócios. O que o judeu defendeu em todos esses séculos diante das ideias dominantes foi a concepção fundamentalmente individualista da economia: que a esfera de atuação do sujeito econômico individual não estaria limitada por qualquer norma objetiva nem para cima nem para baixo, nem quanto ao volume de vendas, nem quanto à estruturação das profissões; que cada sujeito econômico a todo tempo precisaria reconquistar sua posição e teria de defendê-la contra ataques; mas que ele também teria o direito de, às custas de outros, conquistar um espaço de manobra tão grande quanto suas forças possibilitarem; que as armas para isso residiriam essencialmente na esfera intelectual: manha, esperteza, astúcia; que, na luta da concorrência econômica, nada haveria a levar em consideração além do código penal; que todos os processos econômicos devem ser organizados pelo indivíduo à sua maneira do modo mais funcional possível. O que se impôs vitoriosamente por esse meio nada mais é que as ideias do ‘livre comércio’, da ‘livre concorrência’, é o racionalismo econômico, é o puro espírito capitalista, é justamente a mentalidade econômica moderna, em cuja formação definitiva os judeus desempenharam, portanto, um papel importante, se não o papel decisivo. Com efeito, foram eles que trouxeram essas concepções de fora para dentro de um âmbito de ideias de natureza bem diferente.” (Sombart, 2014, p. 232–233)
A primeira questão está resolvida: não somente eles dominam o capitalismo atual (e há de se lembrar que Sombart escreveu isso em 1911), mas também foram os grandes arquitetos do capitalismo desde sua concepção. Com a demonstração histórica e sociológica desta dominação do mercado pelo espírito judaico, termina-se uma dúvida apenas para que outra nasça: como, portanto, os judeus dominaram as finanças modernas?
Sombart cita quatro circunstâncias: I. sua difusão no espaço; II. sua condição de estrangeiros; III. sua subcidadania; IV. sua riqueza. Sua difusão no espaço é evidente, pois estão em todos os lugares; que são estrangeiros e que andam de país em país também é algo indubitável; da mesma forma, não foram tratados como cidadãos ao longo da história; e que são ricos não há quem duvide. Essa dispersão de estrangeiros subcidadãos cheios de riqueza foi essencial para o capitalismo internacional. Uma rede comercial interligada pelos mares que sobrevive graças aos rápidos empréstimos, juros crescentes e usuras por todos aos lados graças ao novo sistema bancário moderno, e esse sistema todo em comunhão com a grande comunidade judaica realizadora de enormes empresas no novo e velho mundo: tudo isso já ocorria em larguíssima escala no século XVII, e nos parece que ninguém descreveu melhor esse processo do que o grande poeta e escritor espanhol Francisco de Quevedo em sua A Ilha dos Monopantos.
Já sabemos que Sombart considerava que os judeus dominam a vida econômica no capitalismo; conhecemos agora como eles dominaram a vida econômica, visto que estão em todas as partes, são estrangeiros, subcidadãos e ricos. Conhecer o como, ou seja, o modo pelo qual o ato ocorreu, não é necessariamente conhecer o porquê de o ato ter se dado. Sombart logicamente segue ao próximo problema: por que os judeus dominaram a vida econômica no capitalismo? É uma questão religiosa segundo ele. O capitalismo é a expressão econômica da religião judaica e do modo de ser judaico na vida comercial. É aqui que o sociólogo alemão mostra seu brilhantismo: sua visão para além do visível economicismo o eleva para aquilo que é mais profundo neste sistema. Ousamos dizer que Sombart conseguiu adentrar nos mistérios do “capitalismo esotérico”, sua real essência, seu espírito que não é outra coisa senão o milenar judaísmo. A razão de eles terem dominado a vida econômica no capitalismo não é outra senão uma decorrência lógica de sua religião. Sobre isso Sombart escreveu longamente e citamos o essencial:
“Vou direto ao ponto: encontro na religião judaica as mesmas ideias norteadoras que caracterizam o capitalismo; vejo-a imbuída do mesmo espírito que move este último.” (Sombart, 2014, p. 307)
(…)
“Racionalismo — esta é a palavra com que sintetizamos todas essas especificidades — é o traço básico tanto do judaísmo quanto do capitalismo. Racionalismo ou intelectualismo: tendências essenciais contrapostas tanto ao misterioso irracional quanto ao criativo-artístico-sensível.
A religião judaica não sabe o que é mistério! Decerto é a única no globo terrestre que o ignora. Não sabe o que é o estado de êxtase, no qual o crente se une com a divindade: ou seja, o estado que todas as demais religiões enaltecem como o estado supremo e mais sagrado.” (Sombart, 2014, p. 308)
(…)
“Todavia, o que ademais confere à religião judaica muita afinidade com o capitalismo é a regulação contratual — eu até diria regulação negocial, se essa expressão não tivesse uma conotação tão desagradável — de todas as relações entre Javé e Israel. O sistema religioso inteiro, no fundo, nada mais é que um contrato entre Javé e o povo eleito por ele: um contrato com todas as consequências obrigatórias decorrentes de uma relação contratual. Deus promete algo e dá algo e os justos devem dar-lhe algo como contrapartida.
Não há nenhum tipo de comunhão entre Deus e o ser humano que não seja efetivada da seguinte forma: o ser humano realiza algo em conformidade com a Torá e em troca recebe algo correspondente de Deus. Por essa razão, ninguém pode acercar-se de Deus em oração sem ter algo seu ou de seus pais em mãos como contrapartida por aquilo que ele pede: Sifre 12 b, Vaiikra Rabba cap. 3.” (Sombart, 2014, p. 310)
(…)
“Durante o período bíblico — no qual todos os atos bons e maus recebiam a devida retribuição já na vida terrena — isso ainda era viável. Mais tarde, porém, quando recompensa e castigo passaram a ser em parte seculares, em parte eternos, a contabilidade se tornou extraordinariamente complexa e foi incrementada na teologia midráxico-talmúdica na forma de um sistema contábil sofisticado. De acordo com este, diferencia-se entre o capital ou o principal do ganho e os frutos ou juros do capital. Aquele é guardado para o mundo futuro, deste já se usufrui aqui. Para que a recompensa reservada no céu para o justo permaneça intacta para a vida futura, Deus não a considera como contrapartida das bondades habituais que ele proporciona aos justos; só quando lhes faz bondades extraordinárias, isto é, milagrosas, a recompensa celestial é diminuída em troca. Além disso, para não sofrer prejuízo no céu, o justo recebe já na vida terrena a punição pelas obras más feitas em quantidade menor do que as obras boas, assim como o ímpio já recebe na vida terrena a recompensa pelas poucas coisas boas que fez, para que lá ele sofra a punição completa estipulada para ele.
“Porém, no modo como a teologia judaica imagina essa contracorrente com Deus aparece mais uma concepção que possui uma curiosa afinidade com outra ideia fundamental do capitalismo: a ideia da aquisição. Refiro-me, se for para sintetizar a ideia numa só expressão, à concepção inorgânica da essência do pecado (e do ato bom). Segundo a teologia rabínica, cada pecado é considerado para si — individualmente — como ato enumerável e ponderável. ‘A punição é estimada segundo o objeto, não segundo o sujeito da ofensa’. O valor moral do ser humano e sua falta são medidos pelo número e pela propriedade das transgressões. Cada ‘rubrica de culpa’ aparece numa determinação puramente quantitativa: ela é dissociada da personalidade, que pode ser apreendida unicamente em termos qualitativos, dissociada do conjunto das condições morais do agente: assim como um valor em dinheiro é dissociado de toda conexão com fins pessoais e da qualidade objetiva dos bens, apropriado para ser somado num total com outro valor em dinheiro, igualmente abstrato. A aspiração do justo pelo bem-estar aqui e no além necessariamente passará a se externar na infinidável aspiração por multiplicar a recompensa, como algo que aumenta os seus ativos. Visto que ele jamais conseguirá, em determinado estado de sua consciência, obter a certeza de ser participante das benesses de Deus e visto que ele nunca saberá se o estado de seus créditos ou dívidas mostra um saldo ativo ou passivo, ele tem de acumular recompensa após recompensa mediante a realização de um ato bom após o outro, incansavelmente, até o fim de sua vida. A finitude limitada de toda avaliação pessoal foi banida do âmbito de sua representação religiosa, sendo substituída pelo caráter ilimitado da análise puramente quantificadora.
Paralelamente a essa decomposição da relação pessoal de dívida numa soma de atos individuais, ao modo como foi empreendida pela teologia, e à introdução condicionada por ela de uma busca infinita de ativos mais elevados, similar à busca aquisitiva, anda, na teologia moral judaica, uma sobrevalorização bem peculiar justamente da aquisição de dinheiro como busca da multiplicação do valor destituído de qualidade, dissociado de todas as finalidades naturais dos bens, determinado em termos puramente quantitativos e, por isso, utilizável como ‘meio absoluto’.” (Sombart, 2014, p. 312–313)
(…)
“Mas estranhamos também as falas de tantos rabinos que, por vezes, como astutos comerciantes, discutem sobre os problemas econômicos mais complexos e que com bastante frequência estabelecem princípios que só podem ser compreendidos como incentivo para uma vida aquisitiva diligente. Seria estimulante compilar do Talmude só as passagens nas quais os modernos princípios aquisitivos são defendidos por este ou aquele rabino (que, de fato, com bastante frequência eram grandes comerciantes). Tenho em mente, por exemplo, as seguintes explanações: Baba metzia 42a: Rabi Yitzhak ainda comentou isto: ‘A pessoa deve ter o seu dinheiro sempre em uso’. Além disso, Rabi Yitzhak deu um bom conselho: a pessoa sempre deve dividir seus recursos em três partes, um terço (deve ser aplicado) em terras, um terço em mercadorias e um terço deve manter disponível. Então Rabi Yitzhak acrescentou mais isto: a bênção só reina onde os objetos são subtraídos à vista, pois consta que: ‘O Eterno mandará a bênção para os teus depósitos’ (trad. Sammter).
“Pesahim 113a: Rabh falou para o seu filho Aiba: ‘Vem, quero te ensinar agora as coisas do mundo: vende a tua mercadoria enquanto o pó ainda estiver nos teus pés [ou seja: prega-se a venda rápida!] […] Primeiro abre a bolsa de dinheiro, depois desamarra o saco de cereal. […] Melhor uma kab tirada da terra do que um kor do telhado. Se tens tâmaras na caixa, corre até o cervejeiro.’ (trad. L. Goldschmidt)
“O que significa esse notório paralelismo nas ideias básicas da religião judaica e do capitalismo? É acaso, ironia do destino? Uma coisa é causada pela outra? Ambos remontam à mesma causa? Essas são as perguntas que surgem e que tentarei responder na continuação desta exposição. Neste ponto, contentamo-nos em ter demonstrado dita afinidade, para daqui por diante resolver uma questão bem mais simples: demonstrar como instituições, concepções, dogmas, preceitos, regras individuais do sistema religioso passaram a exercer influência sobre o comportamento econômico dos judeus, se e por que razão especialmente eles fomentaram a carreira capitalista do judaísmo.” (Sombart, 2014, p. 315–316)
(…)
“Sempre me perguntei mais ou menos nestes termos: pensemos em como, na sexta-feira à noite, depois de ter acabado de ‘ganhar por merecimento’ um milhão na bolsa de valores, o velho Amschel Rothschild toma a sua Escritura sagrada e busca edificação nela; o que ele poderá extrair dela? Que significado tem a lembrança do milhão recém-adquirido para a depuração interior que o velho judeu piedoso gostaria de realizar na véspera do shabbat? O dinheiro adquirido arderá como brasa na sua alma? Ou ele dirá antes para si mesmo (poderá dizer com a consciência limpa): ‘Também nesta semana a bênção de Deus repousou sobre mim; dou graças a Ti, Senhor, por teres agraciado mais uma vez o Teu servo com a Tua luz? (Certamente tirarei da aquisição desse milhão as consequências que serão do Teu agrado: darei esmolas generosamente e cumprirei os Teus mandamentos com rigor ainda maior do que fiz até agora)’. É assim que ele falará, caso conheça bem a sua Bíblia (e ele de fato a conhece bem!).” (Sombart, 2014, p. 319)
(…)
“E agora pensemos bem: como a situação do judeu piedoso era diferente da do cristão piedoso naqueles tempos em que o empréstimo de dinheiro se alastrou pela Europa e lentamente fez nascer o capitalismo. Enquanto o cristão piedoso que havia ‘praticado a usura’ se revolvia no seu leito de morte atormentado pelo arrependimento e, antes do fim, ainda se mostrava disposto a rapidamente se desfazer dos seus haveres porque estes, sendo bens injustamente adquiridos, queimavam-lhe a alma, o judeu piedoso, no ocaso de sua vida, inspecionava sorridente os baús e cofres abarrotados, nos quais se acumulavam os cequins que durante sua longa vida havia extorquido do miserável povo cristão (ou maometano): uma visão com que seu coração piedoso podia deleitar-se, pois cada vintém de juros que ali estava era quase como uma oferta que ele havia trazido ao seu Deus.” (Sombart, 2014, p. 357)
(…)

(…)
“Por fim, eu ainda gostaria de chamar a atenção para um livrinho burlesco que veio a público no ano de 1608 e cujo conteúdo deixa transparecer, talvez de um modo sintomaticamente valioso, o estreito vínculo espiritual estabelecido naquela época entre puritanismo (ou calvinismo) e judaísmo na visão dominante. Ele é intitulado Der calvinische Judenspiegel [O espelho judeu dos calvinistas] e, na página 33, diverte-se com a relação entre as duas comunidades religiosas da seguinte maneira:
Se eu tiver que dizer sob juramento a razão e o verdadeiro motivo de ter me tornado calvinista, devo confessar que o que me levou a isso não foi nada além de uma coisa, a saber, que entre todas não se achou nenhuma [confissão] que concordasse tanto com o judaísmo, e que desse as mesmas respostas sobre fé e vida: [as razões alegadas são em parte sérias, em parte satíricas ...]. 8. Os judeus odeiam o nome de Maria e só a toleram quando é feita de ouro e prata ou gravada em dinheiro; assim também nós não lhe damos mais nenhum valor etc., mas gostamos de vinténs marianos e escudos do rei sol, nos quais foram cunhadas efígies de Maria, e lhes fazemos as honras, assim como as que foram cunhadas em ouro e prata servem em nosso comércio. 9. Os judeus se metem a enganar o povo em todos os países; nós também: é por isso que deixamos a nossa pátria e vamos para outro país, onde não somos conhecidos nem indignos, para seduzir, enganar e atrair para nós os simplórios com a ajuda da nossa falsidade e astúcia, a exemplo do que fazem os agitadores farsantes [...].
Pois então!” (Sombart, 2014, p. 365)
(…)
Nós também dizemos: pois então. É evidente que dominam a vida econômica, e dominaram através daquelas quatro circunstâncias (difusão no espaço; condição de estrangeiros; subcidadania; riqueza), e o porquê disto tudo está na própria religiosidade destes. Resta, portanto, um último ponto a ser esclarecido, e este é o da essência mesma do povo judeu, visto que existem aqueles judeus que não são religiosos de modo algum e que são estranhos ao próprio judaísmo, mas que, ainda assim, se comportam tal como judeus religiosos quando chega a hora de negociar. Pergunta-se Sombart, por fim, duas questões espinhosas: se há alguma peculiariedade judaica, e em caso afirmativo, se tais peculiariedades são raciais. Ele começa a tratar desse problema com um pouco de humor:
“Porém, também nos pontos em que consideramos apropriado explicar as influências dos judeus sobre o curso da vida económica a partir de circunstâncias ‘objetivas’, essas explicações não permaneceram totalmente lacunosas sem a suposição de uma peculiaridade judaica bem determinada? O que quero dizer é que já um exame superficial dos resultados das nossas investigações deve levar a, sem hesitação, responder afirmativamente a essa pergunta. Não seria um absurdo supor que, para o curso da história económica, teria sido indiferente se, em vez dos judeus, tivessem imigrado esquimós ou — por que não? — gorilas para os países europeus ocidentais?!” (Sombart, 2014, p. 369)
Esquimós capitalistas? Parece-nos improvável e, quanto aos gorilas, impossível. Logo, haveria algo no povo judeu que o predispôs ao capitalismo? Sombart claramente não é um entusiasta de questões raciais, prevalecendo a timidez ao dar palpites nessa área. Ele prefere continuar no campo sociológico e não se aventurar na biologia. Ainda assim, defende que aquilo que chamou de “essência do judaísmo” constitui um padrão que pode ser observado nos judeus onde quer que estejam, sendo esta essência a astúcia, o individualismo e sua adaptabilidade, mas, acima de tudo, o grande orgulho em serem o “povo escolhido”. Ora, se são o povo eleito, só podem ter relações entre si e hão de rejeitar, por consequência, misturar-se com outros povos; sendo assim, o capitalismo de inspiração judaica não seria outra coisa senão a antiquíssima tática judaica de sobrevivência financeira enquanto peregrinos entre povos estranhos, e para sobreviver, nada melhor do que o desenvolvimento da astúcia, do individualismo e da adaptabilidade. Sombart escreve, por exemplo, que os judeus são excelentes atores graças a essa essência judaica; e quanto à questão financeira em sua constituição enquanto povo, aspecto que mais nos interessa aqui, assim escreveu:
(…)
“Em sua essência mais íntima, o judeu é avesso a todo cavalheirismo, a toda sentimentalidade, a toda cavalaria, a todo feudalismo, a todo patriarcalismo. Ele tampouco entende uma comunidade construída com base em tais relações. Ele é contrário a todo estamento, a toda corporação. Politicamente ele é individualista. O que corresponde ao seu modo de pensar é o ‘Estado constitucional’, no qual todas as relações são remontadas a relações jurídicas claramente circunscritas. Ele é o representante nato de uma visão de mundo ‘liberal’, em cujo âmbito não existem seres humanos de carne e sangue vivos e individualmente diferenciados, mas apenas cidadãos abstratos com direitos e deveres, que propriamente já nem se diferenciam mais de povo para povo, mas que perfazem a humanidade maior, que em si nada representa além de uma soma de unidades sem qualidades. Assim como tantos judeus não veem a si próprios — quando negam essa sua peculiaridade tão evidente e afirmam que entre eles e um alemão ou um inglês etc. não haveria qualquer diferença —, assim eles também não veem os demais seres humanos como seres vivos, mas apenas como sujeitos de direitos, como cidadãos de um Estado ou de qualquer outro modo abstrato. Eles de fato conhecem o mundo com o intelecto e não com o sangue e, por essa razão, facilmente chegam a pensar que tudo o que se pode ordenar no papel com o auxílio do intelecto também se deve poder ordenar na vida. Pois ainda há judeus que encaram a ‘questão dos judeus’ como um problema de constituição política e realmente estão convictos de que um regime ‘liberal’ poderia eliminar do mundo a diferença entre judeus e povos hospedeiros.” (Sombart, 2014, p. 390)
(…)
“O grande destino que coube aos judeus foi o dinheiro: o fato de terem sido guardiães do tesouro por milênios imprimiu marcas profundas na sua essência e intensificou a peculiaridade dessa essência. Com efeito, no dinheiro se uniram, por assim dizer, os dois fatores que compõem a essência judaica, a saber: deserto e migração, saarismo e nomadismo. O dinheiro está despido de concretude, a exemplo da terra da qual vieram os judeus; ele é só massa, só quantidade, como o rebanho; ele é fugidio como a vida nômade; ele jamais lança raízes no solo fértil, como a planta ou a árvore. A contínua ocupação com o dinheiro afastou os judeus cada vez mais de uma visão qualitativa natural do mundo e direcionou seus sentidos para as concepções e estimativas quantitativas abstratas. Em contrapartida, porém, eles desvendaram todos os segredos que estavam ocultos no dinheiro; eles identificaram todas as forças milagrosas que estão contidas nele. Eles se tornaram senhores do dinheiro e, por meio do dinheiro que sujeitaram a si mesmos, os donos do mundo — como descrevi detalhadamente nos primeiros capítulos deste livro.” (Sombart, 2014, p. 506)
De fato, ele descreveu detalhadamente ao longo de quinhentas páginas tudo o que relatamos aqui de forma brevíssima. Se resumirmos sua tese, ela seria algo nos seguintes termos: é próprio da essência judaica considerar-se eleita e apartada de outros povos, e como a religião judaica ensina que o povo abençoado será próspero, tal prosperidade deve ser estendida a toda a completude do povo judaico por onde quer que ele esteja, para que essa benção terrena caia sobre os filhos de Abraão e sua posteridade. Todo o resto é consequência desse pensamento.
O capitalismo moderno, segundo Sombart, é apenas a expressão econômica da essência judaica, conclusão a que chega o leitor ao fim de quinhentas páginas de análise sociológica. Parece-nos que o estudo da obra de Weber ficará incompleto sem o acréscimo de Sombart: são dois autores que devem ser lidos lado a lado nesta matéria.
Passados cem anos desde a publicação desses estudos, perguntamo-nos o que Weber e Sombart diriam de nosso mundo, este insano século XXI. Não faremos como Saul, que foi consultar os mortos, e não nos parece necessário bater à porta do caixão de Sombart para consultá-lo sobre os nossos dias. Basta-nos meditar sobre aquilo que ele mesmo escreveu em 1911, em particular a expressão “donos do mundo”.
