É IMPOSSÍVEL A SALVAÇÃO FORA DA IGREJA
Cardeal Juan de Torquemada, O.P. (†1468)
Fonte: Summa de Ecclesia, lib. I, cap. XXI, p. 23–25. Michaelem Tramezinum, 1561. Link: https://www.zelanti.net/pt/articles/refuta-se-o-erro-dos-que-dizem-que-fora-da-unidade-desta-santa-catolica-e-apostolica-igreja-pode-haver-salvacao-para-os-homens#footnote_0_igvujt5tqx.
Descrição: O texto defende a doutrina de que a salvação eterna é exclusiva aos que permanecem na unidade da Igreja Católica, classificando como herética a idéia de que seguidores de outras crenças ou seitas possam ser salvos. Fundamentando-se em passagens bíblicas e autoridades como Santo Agostinho e São Jerônimo, o autor argumenta que a fé em Cristo é o único alicerce indispensável para a justiça e a vida espiritual. Sustenta-se que, fora do corpo da Igreja, as obras e virtudes perdem seu valor meritório, comparando os que estão fora dessa unidade a membros decepados ou aos que pereceram fora da Arca de Noé. Por fim, o texto reforça que a fé católica é a única porta de acesso a Deus, sendo a exclusão dessa unidade um caminho direto para a condenação.
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Agora que a fé sobre a unidade e a santidade da Igreja Católica e Apostólica já foi estabelecida, antes que abordemos os assuntos posteriores, pareceu-nos muito útil reprovar, em primeiro lugar, o pernicioso erro daqueles que, com um sentimento ímpio contra a dignidade da Igreja santa, católica e apostólica, e contra o Sacramento de sua inseparável unidade, presumiram afirmar que fora da unidade desta santa igreja qualquer pessoa poderia ser salva em sua própria seita — judeu, muçulmano, pagão ou também qualquer herético ou cismático —, e essa afirmação extremamente perniciosa, embora pudéssemos demonstrar de muitas maneiras que não é apenas falsa ou errônea, mas sim herética, decidamos, contudo, por ora, estabelecer os fundamentos da presente discussão a partir daquelas coisas que, pela virtude da fé, são atribuídas na Sagrada Escritura, da qual, como também da própria unidade da fé, surge primordialmente a unidade da Igreja santa, católica e apostólica, como demonstramos anteriormente.
Argumenta-se, porém, primeiramente da seguinte forma: a fé de Cristo [ou a fé cristã] é o princípio e o primeiro fundamento da beatitude celestial, conforme diz o Apóstolo em 1 Coríntios 3: “Ninguém pode pôr outro fundamento além daquele que já foi posto, que é Cristo Jesus”; glosa 1: “A fé em Cristo que opera pelo amor, por meio da qual Jesus habita nos corações”. “Nenhuma outra [além da fé em Cristo] é o fundamento” (ibidem). A partir disso, São Paulo assim define a fé em Hebreus 11: “A fé é a substância das coisas que se esperam, a prova das coisas que não se veem”; glosa 1: “O fundamento de todos os bens, que ninguém pode mudar, e sem o qual não existe boa edificação, sendo ela mesma o fundamento da religião Cristã, conforme testemunha São Crisógono”. E, como diz Santo Agostinho no livro Sobre a Predestinação dos Santos, é a virtude pela qual se crê reta e firmemente naquelas coisas que pertencem ao fundamento da religião. Logo, é impossível que aqueles que estão separados e alienados da unidade da fé — que é o primeiro fundamento do edifício espiritual e da qual, como de uma raiz, procede tudo o que de beatitude é esperado pelos fiéis — alcancem a beatitude eclesiástica. Daí, no capítulo quicunque, 24, quest. 1, o venerável Beda diz o seguinte: “Quaisquer pessoas que, de qualquer modo, separem-se da unidade da fé ou da sociedade do Apóstolo Pedro, tais pessoas não podem ser absolvidas dos vínculos dos seus pecados, nem podem entrar pela porta do reino celeste”.
Em segundo lugar, argumenta-se a partir daquela passagem do Apóstolo aos Hebreus 11, que diz: “É impossível agradar a Deus sem fé, sobre a qual a glosa comenta: a fé é tão necessária que, sem ela, ninguém agrada a Deus. Portanto, como ninguém pode ser salvo a não ser que, pela fé, agrade a Deus, é manifesto que aqueles que estão fora da unidade da fé, na qual a igreja universal crê e prega, não podem ser salvos”. Por isso, em Extra de Summa Trinitate et fide catholica, c. 1, é dito: “Uma é a igreja dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém se salva”.
Em terceiro lugar, para confirmar o raciocínio feito, argumenta-se assim: a salvação eterna, como seu efeito próprio, é atribuída à fé que a santa Igreja universal tem em Cristo. Por isso, em Mateus 9, Marcos 5 e Lucas 8, Cristo diz à mulher que sofria de um fluxo de sangue e que havia tocado na borda de sua veste: “Filha, a tua fé te salvou”; e coisas semelhantes em outros lugares. E em Marcos 10, diz ao cego: “A tua fé te salvou”, etc. E a respeito disso, de fato, o Apóstolo oferece um egrégio testemunho em Gálatas 2, dizendo: “O homem não é justificado por nenhuma das obras da lei, a não ser pela fé”, e em Efésios 2: “Pela graça sois salvos, por meio da fé”. Logo, quem está segregado da unidade da fé da Igreja universal, está excluído de toda esperança de salvação e, por consequência, toda pessoa nessas condições será eternamente condenada, o que também se torna aparente por outros claríssimos testemunhos da Sagrada Escritura e dos Santos. Pois o Nosso Salvador diz, no final de Marcos: “Quem crer e for batizado será salvo. Aquele, porém, que não crer, será condenado”; e em João 3: “O Pai ama o Filho e tudo entregou em sua mão; quem crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que é incrédulo ao Filho não verá a vida eterna, mas a ira de Deus permanece sobre ele”. Daí Santo Atanásio exclama no Símbolo: “Esta é a fé católica; se alguém não crer nela fiel e firmemente, não poderá ser salvo”. Além disso, Santo Agostinho, em uma certa carta, que se encontra no capítulo si quis, 23, quest. 4, diz o seguinte: “Se alguém estiver separado da Igreja Católica, por mais louvável que considere ser a sua vida, somente por este crime, o de estar desunido da Cristandade, não terá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”.
Em quarto lugar, argumenta-se assim: a vida espiritual da alma é especialmente atribuída à fé formada pela caridade, da qual surge a própria unidade eclesiástica perfeita, segundo aquilo que está em Romanos 1: “O justo vive pela fé”, e em Gálatas 2: “Vivo pela fé no Filho de Deus”. Logo, aquele que está fora da unidade desta fé, pela qual a própria Igreja universal vive, não deve ser contado no número dos que vivem espiritualmente, aos quais a vida eterna foi prometida, mas sim no número dos mortos e, por consequência, dos condenados. Por isso, Santo Agostinho, na carta a Vicente, que se encontra no cap. quemadmodum, 23, q. 7, diz o seguinte: “Assim como um membro, se for cortado do corpo de um homem vivo, não pode reter o espírito da vida, assim também o homem que é separado do justo Corpo de Cristo, de modo algum pode reter o espírito da justiça”.
Em quinto lugar, argumenta-se assim: à virtude da fé é atribuída a filiação divina, segundo aquilo em João 1: “Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”, e aquilo em Gálatas 3: “Todos vós sois filhos de Deus por meio da fé”, e 1 João 5: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus”. Logo, quem se aliena e se segrega da unidade da fé que a santa e universal igreja professa não pode ser contado no número dos filhos de Deus e, por consequência, nem no número dos co-herdeiros de Cristo no reino dos céus. Por isso, São Cipriano, conforme se encontra no c. alienus, 24, q. 1, diz: “É um alheio, um profano, um inimigo; não pode ter Deus como pai aquele que não mantém a unidade da igreja universal”.
Em sexto lugar, argumenta-se assim: lemos que é um atributo certo da fé ser ela a raiz de todos os bens, de tal modo que, onde não há a fé de Cristo, nenhum bem meritório pode existir. Daí também Santo Agostinho, conforme se encontra no c. ubi, 24, q. 1: “Onde não há fé, não pode haver justiça, porque o justo vive da fé”. A partir disso, o Santo Apóstolo diz em Romanos 14: “Tudo o que não provém da fé é pecado”; glosa de Santo Agostinho, que também é posta no c. omnis, 28, q. 3: “A vida de todos os infiéis é pecado, porque todo aquele que vive ou age sem fé peca gravemente, e nada é bom sem o sumo bem; onde falta o conhecimento da eterna e imutável verdade, a virtude é falsa, mesmo nos melhores costumes”. E São Gregório: “Assim como os ramos secam sem a força da raiz, assim também quaisquer obras, ainda que pareçam boas, nada são se estão apartadas da fortaleza da fé”. Portanto, é manifesto que aquele que está separado e fora da unidade da igreja universal, que foi estabelecida sobre a comunhão de uma única fé, está privado de toda esperança de salvação e é um filho da perdição, a não ser que retorne ao seio da igreja. Por isso São Agostinho, em extra de haeredibus, c. firmissime, diz: “Crê firmissimamente e de modo algum duvides de que todo herege e cismático participará do incêndio do fogo eterno com Satanás e seus anjos, a não ser que, antes do fim da vida, tenha sido incorporado ou reintegrado à Igreja Católica”; e pouco depois: “Para todo homem que não mantém a unidade da Igreja Católica, nem o Batismo, nem a esmola, por mais abundante que seja, nem a morte sofrida pelo Nome de Cristo poderão servir para a salvação”. E São Jerônimo, no c. quoniam, 24, q. 1, falando da casa da santa Igreja, a qual ele diz ter sido fundada sobre a Pedra, isto é, sobre a confissão da fé de Pedro, assim confirma nosso propósito, dizendo: “Quem quer que coma o cordeiro fora desta casa é profano. Se alguém não estiver na arca de Noé, perecerá quando o dilúvio reinar”.
Em sétimo lugar, o referido erro condenável se revela clarissimamente pelo fato de que à virtude da fé se atribui isto: que ela é a única porta da salvação eterna. Por isso, em João 10: “Amém, vos digo: aquele que não entra pela porta, a saber, crendo em Cristo, mas tenta subir por outro lugar, isto é, por quaisquer outras seitas, esse é ladrão e salteador”. Que a fé em Cristo seja chamada de porta, testemunham os apóstolos Paulo e Barnabé em Atos 14, dizendo: “Que o Senhor havia aberto aos gentios a porta da fé”. Portanto, somente se alcança o porto da salvação quem ingressa na Igreja católica pela porta de Cristo. Por isso, em João 10, Cristo diz: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo”. Certamente, com o testemunho do Apóstolo São Pedro em Atos 4: “Não há salvação em nenhum outro, pois não há outro nome debaixo do céu, dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”. Por isso, Cristo diz aos judeus em João 8: “Se não crerdes que Eu Sou, morrereis no vosso pecado”; o que, muito antes, o Santo Moisés, profeta claríssimo, profetizando sobre Cristo, predisse, dizendo em Deuteronômio 18: “O Senhor teu Deus te suscitará um profeta da tua nação e dentre teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás”; e mais abaixo: “Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos”; glosa 1: Cristo, da descendência de Davi.
É falso, portanto, e manifestamente herético, que os que estão segregados da unidade da fé da santa Igreja Católica tenham alguma esperança de salvação eterna. Como um testemunho irrefutável disso, o Apóstolo, em Romanos 1, escreve que os filósofos foram condenados, pois não cultuaram a Deus com fé, dizendo assim: “De modo que são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus”; glosa: vivendo bem e cultuando-o; “nem lhe renderam graças, mas se desvaneceram em seus pensamentos, e seu coração insensato se obscureceu”, etc. E que apenas isto seja dito por nós para a refutação do referido erro.
