HOMILIA VIII SOBRE 1 TESSALONICENSES 4,15–18 (EXCERTO)
São João Crisóstomo (†407)
Fonte: Patrologia graeca, vol. 62, p. 441–442. Paris, 1862.
Tradutor do texto grego: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Crisóstomo utiliza sua gloriosa retórica (conhecida como “boca de ouro”) para contrastar a misericórdia de Deus com a realidade da justiça divina, combatendo a idéia de que o Inferno seria apenas uma “ameaça simbólica”. Destaca-se a menção ao Monte Ararate, na Armênia, lugar onde encalhou a Arca de Noé, fato crido por todos os fiéis.
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2. Quando, pois, essas coisas acontecerem, soará então a bela voz do arcanjo ordenando e clamando aos anjos, e as trombetas — ou melhor, o som das trombetas. Que tremor, então, haverá? Que medo se apoderará daqueles que restarem sobre a terra? Pois uma será arrebatada, e outra será deixada; um será tomado, e outro será abandonado. Qual será o estado de alma daqueles que virem uns sendo elevados e a si mesmos deixados para trás? Não será que essas coisas abalarão suas mentes de modo mais terrível do que qualquer outra circunstância? Suponhamos, por meio do discurso, que isso já esteja presente. Pois se uma morte repentina, ou terremotos em cidades, ou ameaças semelhantes assim perturbam as nossas almas, o que será de nós quando virmos a terra transbordar e ficar cheia de todas essas calamidades; quando ouvirmos as trombetas; quando ouvirmos a voz do arcanjo, sendo ela mais resplandecente que qualquer trombeta; quando virmos o céu se dobrar, e o próprio Rei de todos, o Deus, se fazer presente?
Estremeçamos, peço-vos, e temamos como se essas coisas já estivessem ocorrendo. Não nos consolemos com a demora, pois, quando algo deve necessariamente acontecer, em nada aproveita o adiamento. Quão grande será o tremor! Quão grande o medo então! Já vistes alguma vez aqueles que são conduzidos à morte? Como pensais que é a alma deles enquanto caminham no trajeto até o portão? Não é pior do que muitas mortes? O que eles não aceitariam fazer ou sofrer para se livrarem daquela névoa sombria? Ouvi muitos contarem que aqueles que foram chamados de volta por clemência régia após serem conduzidos [ao suplício] nem sequer viam os homens como homens, de tão perturbada, atônita e fora de si que estava a alma. Se, portanto, a morte corporal assim nos apavora, o que sofreremos quando a morte eterna se apresentar? E o que digo dos que são conduzidos à morte? Uma multidão os rodeia, a maioria sem sequer conhecê-los. Se alguém examinasse as almas daqueles [espectadores], ninguém seria tão cruel, ninguém tão audaz, ninguém de tal natureza endurecida que não tivesse a alma abatida e prostrada pelo medo e pelo desânimo. Ora, se diante da morte de outros — morte que em nada difere de um sono — aqueles que não têm parte nela ficam assim dispostos, quando nós mesmos estivermos envoltos nas coisas vindouras, qual será o nosso estado? Não é possível, não é possível — acreditai — descrever por palavras esse sofrimento.
“Sim”, diz alguém, “mas Deus é amigo dos homens (philanthropos), e nada disso acontecerá”. Então foi escrito em vão essas coisas? “Não”, diz ele, “mas apenas como ameaça, para que sejamos sensatos”. Se, portanto, não formos sensatos e permanecermos maus, Ele não aplicará o castigo? Dize-me: então Ele também não dará as recompensas aos bons? “Sim”, diz ele, “pois isso é próprio d’Ele: beneficiar além do mérito”. Quer dizer, então, que as recompensas são verdadeiras e absolutamente certas, mas os castigos não, sendo apenas para fins de ameaça e medo? Não sei por onde vos convencer. Se eu disser que “o seu verme não morrerá e o seu fogo não se apagará”; se eu disser que “irão para o fogo eterno”; se eu apresentar o rico já sendo castigado — direis que tudo isso é apenas ameaça. Por onde, então, vos convencerei? Pois esse raciocínio é satânico: concede uma falsa misericórdia e torna as pessoas negligentes.[1]
Como, então, o extirparemos? Tudo o que dissermos a partir das Escrituras, direis que é apenas por ameaça. Mas, se alguém pode dizer isso sobre as coisas futuras, sobre as que já sucederam e chegaram ao fim, não mais. Ouvistes todos sobre o Dilúvio; por acaso aquilo foi dito apenas como ameaça? Não aconteceu de fato? Aqueles homens também diziam muitas coisas semelhantes; e durante cem anos, enquanto a arca era construída, as madeiras eram talhadas e o justo clamava, ninguém acreditava. Mas, porque não creram na ameaça das palavras, sofreram o castigo dos fatos. Isso também sofreremos nós, se não crermos. Por essa razão, Ele compara a Sua vinda aos dias de Noé: pois tal como naquela época alguns descreram do Dilúvio, assim também descrerão do “dilúvio” do mundo. Seriam aquelas coisas apenas ameaças? Não se tornaram realidade? Então, Aquele que trouxe o castigo de forma tão súbita naquela época, não o trará muito mais agora? Pois o que acontece agora não é menor do que o que acontecia então. Como? “Naquele tempo”, diz-se, “os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens”, e as misturas já eram o sinal; agora, porém, não há espécie alguma de maldade que não seja ousada. Credes, pois, que o Dilúvio ocorreu, ou vos parece fábula? E, todavia, qualquer um pode ver onde a arca se assentou — ali ela dá seu testemunho: refiro-me às montanhas da Armênia.[2]
[1] São João Crisóstomo é muito contundente ao dizer que a idéia de que “Deus é bom demais para punir” é uma armadilha que leva à preguiça espiritual (rathymia). (N.T.)
[2] No final, ele apela para a evidência física e histórica para provar que os juízos de Deus não são apenas alegorias, mas fatos que deixam marcas no mundo. (N.T.)
