O IMPÉRIO, O BELO MONTE E A MONARQUIA CELESTE
Padre Luan Guidoni

A renovação do Império é o espírito da supra-história da cristandade. Esse Spiritus Romanus manifesta-se encarnando-se e tornando-se redivivo nos corpos e almas dos nobres no campo de batalha, e permanece neles para sempre. Do coração do guerreiro rumo à mente dos sábios da nação, o espírito inspira-os à poesia para eternizar os atos de glória na memória do povo. Os homens escutam as histórias e continuam a tradição de geração em geração para que o espírito retorne e desça novamente sobre o novo homem que restaurará todas as coisas ao áureo Estado de outrora. Excalibur aguarda o retorno do adormecido Artur; é dito que o Imperador Frederico Barbarossa também permanece em dormição; mais ao norte está também Holger dormindo profundamente; e não sabemos se “Le Grand Monarque” está dormindo ou se foi para outro país para além da França. A Restauração virá quando vir nova progenies caelo demittitur alto para criar caelum novum et terram novam. Em Portugal, desceu sobre Dom Sebastião quando ouviu estes versos de Os Lusíadas:
“Via estar todo o Ceo determinado
De fazer de Lisboa nova Roma”
O Rei não estava louco: louco estava quem não compreendeu o amor por Roma eterna. A tragédia invocou outra tragédia, e seu nome é Brasil. Com que autoridade apartou-se Pedro do Império Português? Com a autoridade do Diabo e de suas lojas. É Miguel, e não Pedro, legítimo Rei do mundo lusitano, e a perfídia foi-lhe contestar o título como Caim voltando-se contra Abel. Uma inversão histórica, como é recorrente em toda a modernidade, foi o que se deu em Portugal quando o novo Remo tupiniquim venceu, não por sua própria força, o justo Rômulo. Dom Miguel tomou sua cruz e dirigiu-se para Roma quando Portugal abandonou a romanidade, e em Roma foi louvado como verdadeiro monarca e pai dos lusos, ou nas palavras da Migueleida:
“Em Roma, onde Miguel foi sempre amado,
Onde o povo o saudou por muitos annos
Como sublime rei dos lusitanos.”
Não discutirei se Santo Antônio era de Lisboa ou de Pádua, porque muitas vezes os peixes das águas escutam o sermão com mais atenção que lisboetas e paduanos. Se os santos elevam a voz para repreender e converter o povo, é porque ainda há esperança de conversão, e nosso sonho é que Lisboa e Pádua brilhem como antes do liberalismo. E quanto ao Brasil dos brasileiros? Aqui não se deve falar em reconversão: nunca houve conversão. Eu mesmo deveria seguir o exemplo de Santo Antônio e começar a escrever epístolas ao mar. Tomarei uma garrafa e porei dentro dela os meus textos e as arremessarei no oceano com a esperança de que algum cidadão de Atlântida entenda o que está escrito. Quando veio a Independência, o povo não entendeu o que era toda aquela confusão, e quando veio a confusão da República, o povo sequer sabia o que era uma república. Se a plebe que lá estava nada entendeu, como poderemos ensinar aos atuais brasileiros que já superaram em degeneração seus antepassados? É melhor pregar aos peixes e escrever livros à prova d’água. Quem quiser civilizar e catequisar essa selva deve trazer na sinistra a cruz e na destra o porrete.
Mas o espírito sopra onde quer e entra em quem desejar. Desafiando o tempo revolucionário em que vivia, Antônio Conselheiro fundou a cidadela do Belo Monte e criou um reino contra o reino do anticristo. Um povoado que rezava, lutava e não pecava: um verdadeiro e legítimo romantismo católico. Rezei uma missa perto de uma trincheira em Canudos por aquelas almas esquecidas no fundo das águas e que tiveram suas gargantas cortadas covardemente pela República brasileira. A gravata vermelha, como eles chamavam a marca do corte na jugular, banhou aquela terra com sangue, e o azul das águas que lá estão são cúmplices no encobrimento da verdade. Como o Conselheiro reuniu tantos homens para lutar? Ele pregava e instruía melhor que muitos padres, e imagino que ele recitava esses humildes versos da Missão Abreviada ao povo que o ouvia pela primeira vez:
“Eu conheço a tua culpa,
Peccador obstinado;
Se desprezas as instrucções,
Morrerás no teu peccado.”
Outro homem com bons conselhos levantou-se no sul do país. O Monge José Maria pregava contra a República e organizou um movimento em torno das lendas sobre o Imperador Carlos Magno. Fui até seu túmulo na floresta de Irani e celebrei uma missa sobre uma das pedras que circulam a cruz que fica ao centro daquele santuário natural. Morto que foi José Maria pela República, seus seguidores foram inspirados pela memória dos Doze Pares de França e declararam uma cruzada em nome da Monarquia Celeste. Como o povo simples do norte e do sul, os de Canudos e os do Contestado, em uma palavra, a escória da sociedade que não tem nada de azul no sangue, conseguiu lutar contra o Exército? Quem não souber responder essa pergunta deve voltar ao primeiro parágrafo deste texto. Se consultarmos as várias versões da lendária História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, veremos que a guerra santa é o ideal supremo do cavaleiro de Cristo, e se o Monge José Maria contou a seguinte história ou alguma outra semelhante, como cremos que assim o fez, desvendaremos o porquê de os cavaleiros da Monarquia Celeste andarem com espadas de madeira:
“Sahindo o exercito do monte se avistou o exercito dos turcos, que constava de cem mil homens postos em tres linhas; e assim mandou Carlos Magno pôr o exercito em boa fórma e ordenança para entrarem á batalha, a qual foi tão disputada, cruel e rigorosa, que pondo Deus os olhos da sua divina Mizericordia nos catholicos, os alentou de sorte, que fizeram fugir os turcos até Jerusalem, onde determinavam resistir e fazer-se fortes: porém os christãos os seguiram de sorte e com um valor tão grande, que entraram na cidade juntamente com elles e passaram á espada todos quantos turcos lá se acharam. E d’esta sorte ganharam os Lugares Santos que estavam perdidos dos catholicos e em poder dos turcos: e ahi descançou Carlos Magno alguns dias com a sua gente, dando graças ao Omnipotente Deus de o haver ajudado em tão grande conflito.”
Que vergonha sentimos quando olhamos para o europeu do século XXI — e não nos referimos aqui aos jovens que são exceção à degenerescência —, que não está disposto a morrer por Carlos Magno e Dom Sebastião, enquanto a plebe brasileira do último século derramou o próprio sangue em nome do ideal do conselheirismo. Os modernos aceitam a república maçônica liberal, o corpo místico do anticristo sobre a terra, mas não foi sempre assim: vendeanos, miguelistas, carlistas, sanfedistas, jacobitas, cristeros e todos os outros que lutaram pela renovação do império dos romanos dão testemunho contra os ímpios desta geração. O grande sonho da casa de Hohenstaufen, que honro com o símbolo do leão negro em meu brasão presbiteral, segue renascendo, revivendo e restaurando.
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Padre Luan Guidoni
21 de Março de 2026
