SANTO HERMENEGILDO E COMUNHÃO COM HEREGES
Padre Alban Butler (†1773)
Fonte: Vidas dos Santos, p. 169–170. MBC, 2021.
Tradutor do texto: Emílio Costaguá.
Nota d’O Recolhedor: Em tempos de eclipse da doutrina da fé, convém rememorar este episódio exemplar da vida de Santo Hermenegildo, o qual, em fidelidade intransigente à ortodoxia, negou-se a receber o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo das mãos de um herege. Tal atitude não se reduz a um gesto isolado de devoção pessoal, mas exprime, antes, uma compreensão rigorosa da natureza da comunhão eclesial. Com efeito, o próprio termo comunhão (“comum união”) designa não apenas uma participação externa nos ritos, mas uma unidade substancial de fé, de culto e de vida. Ora, essa unidade implica necessariamente a communicatio in sacris, isto é, a participação nas realidades sagradas sob o vínculo da mesma profissão de fé. À luz desse princípio, torna-se evidente a incongruência de qualquer tentativa de dissociar o ato sacramental da integridade doutrinal, como se a validade objetiva do rito (ex opere operato) não viesse acompanhada da devida disposição subjetiva e da retidão da comunhão eclesial. A advertência paulina — “Que comunhão há entre a luz e as trevas?” (2 Cor 6,14) — ilumina, portanto, o problema em sua raiz: não pode haver verdadeira comunhão onde subsiste ruptura na fé. Por conseguinte, incorrem em grave delito contra a fé aqueles que, sob o mero pretexto de “papar hóstia” e amparados por uma aplicação reducionista da eficácia objetiva dos sacramentos (ex opere operato), participam de celebrações conduzidas por hereges públicos e notórios (comunistas, modernistas, etc.). Justificar tal prática é ignorar que a recepção da Eucaristia é um ato público de profissão de fé, e, já dizia o Papa Agatão, quem reza (isto é, ora ou vai à missa) com hereges é também herege.
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Santo Hermenegildo (564–585)
13 de abril
Leovigildo, Rei dos visigodos, tinha dois filhos, Hermenegildo e Recaredo, que reinavam em sua companhia. Os três eram arianos, mas Hermenegildo casou-se com uma zelosa católica, a filha de Sigeberto, Rei da França, e pelo seu santo exemplo converteu-se à fé.
Seu pai, ao ouvir a notícia, denunciou-o como traidor, e marchou com o intuito de capturá-lo em pessoa. Hermenegildo tentou reunir os católicos da Espanha em sua defesa, mas eles eram muito fracos para oferecer qualquer resistência, e, após uma luta infrutífera de dois anos, rendeu-se sob a garantia do indulto. Quando se encontrava em segurança no acampamento real, o rei mandou que lhe pusessem grilhões e o atirassem em uma masmorra imunda em Sevilha. Lançavam mão de torturas e propinas, uma atrás da outra, para abalar sua fé, mas Hermenegildo escreveu ao pai que a coroa não lhe valia de nada, e que preferia perder o cetro e a vida do que trair a verdade de Deus. Enfim, na noite de Páscoa, um bispo ariano adentrou sua cela e lhe prometeu o perdão do rei, caso recebesse a comunhão de suas mãos.[1] Indignado, Hermenegildo rejeitou a oferta e se ajoelhou com alegria para receber o golpe fatal. Na mesma noite, uma luz emanando de sua cela revelou aos cristãos ali próximos que o mártir conquistara sua coroa e agora celebrava a Páscoa na glória com os santos.
Leovigildo, em seu leito de morte, embora ainda ariano, ordenou que Recaredo buscasse a São Leandro, que ele próprio havia cruelmente perseguido, e, seguindo o exemplo de Hermenegildo, fosse por ele recebido na Igreja. Recaredo assim o fez, e após a morte do pai trabalhou tão intensamente para extirpar o arianismo, que trouxe de volta à Igreja toda a nação dos visigodos. “E não é de admirar”, diz São Gregório, “que ele se tenha assim tornado um pregador da verdadeira fé, visto ser irmão de um mártir, cujos méritos o auxiliaram a trazer tantos para o seio da Igreja de Deus”.[2]
[1] Isto é, das mãos do bispo ariano. (N.E.)
[2] Dialogorum, lib. III, c. 31 (PL 77, col. 292).
