DIÁLOGO COM TRIFÃO (EXCERTO)
São Justino Mártir (†165)
Fonte: https://www.newadvent.org/fathers/0128.htm
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Neste trecho do Diálogo com Trifão, São Justino Mártir (100–165) acusa os líderes judeus de adulterarem as Sagradas Escrituras, removendo passagens que profetizam explicitamente a divindade, o sofrimento e a crucificação de Jesus Cristo. Ele cita exemplos específicos em Esdras, Jeremias e no Salmo 96, alegando que termos como “desde o madeiro” foram suprimidos para ocultar a vitória de Jesus na cruz. São Justino defende a autoridade da tradução da Septuaginta contra as revisões rabínicas, utilizando os textos remanescentes para provar que o Messias deveria sofrer.
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CAPÍTULO 71: OS JUDEUS REJEITAM A INTERPRETAÇÃO DA SEPTUAGINTA, DA QUAL, ALÉM DISSO, RETIRARAM ALGUMAS PASSAGENS
Justino: Mas estou longe de depositar confiança em vossos mestres, que se recusam a admitir que a interpretação feita pelos setenta anciãos que estiveram com Ptolomeu, rei dos egípcios, seja correta; e tentam formular outra. E desejo que observeis que eles suprimiram completamente muitas passagens das Escrituras das traduções feitas por aqueles setenta anciãos que estiveram com Ptolomeu, e pelas quais este mesmo homem que foi crucificado é provado ter sido explicitamente apresentado como Deus, como homem, como crucificado e como morto. Mas, como sei que isto é negado por todos da vossa nação, não me detenho nesses pontos; antes, prossigo com minhas discussões por meio das passagens que ainda são admitidas por vós. Pois vós assentis àquelas que apresentei à vossa atenção, exceto que contradizeis a afirmação: “Eis que a virgem conceberá”, e dizeis que deve ser lido: “Eis que a jovem conceberá”. E prometi provar que a profecia não se referia, como fostes ensinados, a Ezequias, mas a este meu Cristo; e agora passarei à prova.
Trifão: Pedimos, antes de tudo, que nos indiques algumas das Escrituras que alegas terem sido completamente suprimidas.
CAPÍTULO 72: PASSAGENS FORAM REMOVIDAS PELOS JUDEUS DE ESDRAS E JEREMIAS
Justino: Farei como desejais. Das declarações feitas por Esdras a respeito da lei da páscoa, eles retiraram o seguinte: “E Esdras disse ao povo: Esta páscoa é o nosso Salvador e o nosso refúgio. E, se tiverdes compreendido e vosso coração tiver assimilado que haveremos de humilhá-lo sobre um madeiro, e depois esperaremos nele, então este lugar não será abandonado para sempre, diz o Deus dos exércitos. Mas, se não crerdes nele e não ouvirdes a sua declaração, sereis motivo de escárnio entre as nações”. E das palavras de Jeremias eles eliminaram o seguinte: “Eu era como um cordeiro levado ao matadouro; tramaram um plano contra mim, dizendo: Vinde, lancemos madeira sobre o seu pão e eliminemo-lo da terra dos viventes; e o seu nome não será mais lembrado” (Jr 11,19). E, visto que essa passagem das palavras de Jeremias ainda se encontra escrita em algumas cópias [das Escrituras] nas sinagogas dos judeus (pois foi há pouco tempo que a cortaram), e visto que por essas palavras se demonstra que os judeus deliberaram acerca do próprio Cristo para crucificá-lo e matá-lo, Ele mesmo é apresentado como sendo conduzido como uma ovelha ao matadouro, como fôra predito por Isaías, e aqui é representado como um cordeiro inocente; mas, encontrando-se em dificuldade quanto a essas passagens, eles se entregam à blasfêmia. E, novamente, das palavras do mesmo Jeremias foi suprimido o seguinte: “O Senhor Deus lembrou-se de seus mortos de Israel que jaziam nos sepulcros; e Ele desceu para anunciar-lhes a sua própria salvação”.
CAPÍTULO 73: [AS PALAVRAS] “DESDE O MADEIRO” FORAM RETIRADAS DO SALMO 96
Justino: E do Salmo noventa e cinco (noventa e seis) retiraram esta breve expressão das palavras de Davi: “Desde o madeiro”. Pois quando a passagem dizia: “Anunciai entre as nações: o Senhor reinou desde o madeiro”, deixaram apenas: “Anunciai entre as nações: o Senhor reinou”. Ora, nunca se disse que ninguém do vosso povo reinou como Deus e Senhor entre as nações, exceto aquele que foi crucificado, do qual também o Espírito Santo afirma no mesmo Salmo que ressuscitou e foi libertado [da sepultura], declarando que não há ninguém semelhante a Ele entre os deuses das nações, pois estes são ídolos de demônios. Mas repetirei todo o Salmo para vós, para que possais perceber o que foi dito. Assim está: “Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, toda a terra. Cantai ao Senhor e bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação dia após dia. Declarai a sua glória entre as nações, as suas maravilhas entre todos os povos. Porque o Senhor é grande e digno de grande louvor; deve ser temido acima de todos os deuses. Porque todos os deuses das nações são demônios, mas o Senhor fez os céus. Confissão e beleza estão diante dele; santidade e magnificência estão no seu santuário. Tributai ao Senhor, ó povos das nações, tributai ao Senhor glória e honra; tributai ao Senhor glória ao seu nome. Trazei sacrifícios e entrai nos seus átrios; adorai o Senhor no seu santo templo. Trema toda a terra diante dele: anunciai entre as nações: o Senhor reinou. Pois ele firmou o mundo, que não será abalado; julgará as nações com equidade. Alegrem-se os céus e regozije-se a terra; brame o mar e a sua plenitude. Exultem os campos e tudo o que neles há. Alegrem-se todas as árvores do bosque diante do Senhor, pois ele vem, pois vem julgar a terra. Julgará o mundo com justiça e os povos com a sua verdade”.
Trifão: Se os governantes do povo suprimiram alguma parte das Escrituras, como afirmas, Deus o sabe; mas isso parece inacreditável.
Justino: Certamente parece inacreditável. Pois é mais horrível do que o bezerro que fizeram quando estavam saciados de maná na terra; ou do que o sacrifício de crianças aos demônios; ou do que a matança dos profetas. Mas parece-me que não ouvistes as Escrituras que eu disse que eles haviam roubado. Pois as que foram citadas são mais do que suficientes para provar os pontos em disputa, além daquelas que conservamos e que ainda serão apresentadas.
CAPÍTULO 74: O INÍCIO DO SALMO 96 É ATRIBUÍDO AO PAI [POR TRIFÃO], MAS [REFERE-SE] A CRISTO NESTAS PALAVRAS: “ANUNCIAI ENTRE AS NAÇÕES QUE O SENHOR”, ETC.
Trifão: Sabemos que citaste essas passagens porque te pedimos. Mas não me parece que este Salmo que citaste por último, das palavras de Davi, se refira a outro senão ao Pai e Criador dos céus e da terra. Tu, porém, afirmaste que se refere àquele que sofreu, a quem também te esforças por provar ser o Cristo.
Justino: Ouve-me, peço-te, enquanto falo da declaração que o Espírito Santo proferiu neste Salmo; e saberás que não falo de modo ímpio, nem estamos verdadeiramente enfeitiçados; pois assim sereis capazes de compreender por vós mesmos muitas outras declarações feitas pelo Espírito Santo. “Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, toda a terra; cantai ao Senhor e bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação de dia em dia, as suas maravilhas entre todos os povos”. Ele ordena aos habitantes de toda a terra, que conheceram o mistério desta salvação — isto é, o sofrimento de Cristo, pelo qual Ele os salvou — que cantem e deem louvores a Deus, o Pai de todas as coisas, e reconheçam que Ele deve ser louvado e temido, e que é o Criador do céu e da terra, que realizou esta salvação em favor do gênero humano, e que também foi crucificado e morreu, e que foi considerado digno por Ele (Deus) de reinar sobre toda a terra. Como também se vê claramente pela terra para a qual Ele disse que conduziria [vossos pais]; pois assim fala (Dt 31,16–18): “Este povo se prostituirá após outros deuses, e me abandonará, e quebrará a minha aliança que fiz com eles naquele dia; e eu os abandonarei, e esconderei deles o meu rosto; e serão devorados, e muitos males e aflições os alcançarão; e dirão naquele dia: Não é porque o Senhor meu Deus não está entre nós que nos sobrevieram estes males? E certamente esconderei deles o meu rosto naquele dia, por causa de todos os males que cometeram, por se terem voltado para outros deuses”.
