ETSI JUDAEOS
Papa Inocêncio III (†1216)
Fonte: Patrologia latina, tomo CCXV, p. 694–695. Paris, 1855.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O Papa condena a insolência dos judeus na França. Para evitar a contaminação religiosa, ele proíbe estritamente que famílias judaicas empreguem criados ou amas de leite cristãs. Ele exorta o rei Filipe II e a nobreza a reforçarem o estatuto de submissão dos judeus, visando a conter sua influência social e econômica. Por fim, instrui os bispos a aplicarem a pena de excomunhão e o boicote comercial a qualquer cristão que desobedeça às determinações e continue a manter negócios ou serviços com a comunidade judaica.
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Ao Arcebispo de Sens e ao Bispo de Paris, para que reprimam a insolência dos judeus.
Embora os judeus, que por sua própria culpa foram submetidos à servidão perpétua quando crucificaram o Senhor, que seus próprios profetas haviam predito que viria na carne para a redenção de Israel, a piedade cristã os tenha acolhido e tolere a sua convivência, esses mesmos judeus, que até mesmo os sarracenos, perseguidores da fé católica e que não creem Naquele que por eles foi crucificado, não puderam tolerar devido à sua perfídia, mas antes os expulsaram de suas terras, clamando mais veementemente contra nós pelo fato de serem por nós tolerados, que confessamos verdadeiramente o nosso Redentor condenado por eles ao patíbulo da cruz —, contudo não deveriam mostrar-se ingratos para conosco, retribuindo aos cristãos a injúria em troca do favor e o desprezo em troca da convivência, eles que, admitidos como que por misericórdia à nossa familiaridade, nos prestam aquela retribuição que, segundo o provérbio comum, o rato na bolsa, a serpente no colo e o fogo no peito costumam oferecer a seus hospedeiros.
Recebemos, porém, a notícia de que os judeus, a quem a benevolência dos príncipes admitiu em suas terras, tornaram-se de tal modo insolentes que cometem em desprezo da fé cristã excessos tais que não só é nefasto dizer, mas até mesmo pensar. Com efeito, eles fazem com que amas cristãs de seus filhos, quando no dia da Ressurreição do Senhor recebem o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, vertam o leite na latrina durante três dias antes de amamentá-los. Além disso, cometem outras coisas detestáveis e inauditas contra a fé católica, pelas quais os fiéis devem temer incorrer na indignação divina, quando permitem que permaneçam impunes atos que induzem à confusão da nossa fé.
Por isso, rogamos ao nosso caríssimo filho em Cristo, Filipe, ilustre rei dos franceses; mandamos também aos nobres varões (…) duque da Borgonha e (…) condessa de Troyes, que reprimam de tal modo os excessos dos judeus, para que não ousem erguer a cerviz submetida ao jugo da servidão perpétua, contra a reverência da fé cristã, proibindo mais estritamente que, de agora em diante, tenham amas ou servos cristãos, para que os filhos da mulher livre não sirvam aos filhos da escrava, mas, como servos reprovados pelo Senhor, contra cuja morte perversamente conspiraram, reconheçam-se ao menos, pelo efeito das obras, servos daqueles que a morte de Cristo tornou livres e a eles escravos; pois, uma vez que já começaram a roer como ratos e a ferir como serpentes, é de temer que o fogo acolhido no peito consuma aquilo que corrói.
Por isso, ordenamos à vossa fraternidade por meio deste escrito apostólico que procureis advertir diligentemente e induzir eficazmente, da nossa parte, o referido rei e os outros, a fim de que os pérfidos judeus de modo algum se tornem insolentes daqui em diante, mas, sob temor servil, demonstrem sempre a vergonha de sua culpa e reverenciem a honra da fé cristã. Se, porém, os judeus não dispensarem as amas e servos cristãos, vós, amparados por nossa autoridade, proibireis estritamente, sob pena de excomunhão, a todos os cristãos que ousem manter com eles qualquer tipo de comércio.
Dado nos idos de julho [15 de julho de 1205].
