AS TESES DE KAROL WOJTYŁA E SUA RUPTURA COM A SACRA TRADIÇÃO
Carlos Alberto Disandro (†1994)
Fonte: Las tesis de Karol Wojtyła. Córdoba: Instituto de Cultura Clásica “San Atanasio”, 1981.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Este manifesto teológico do Instituto San Atanasio, então dirigido por Carlos Alberto Disandro (1919–1994), denuncia a Igreja Conciliar como uma instituição apóstata liderada por falsos papas. Através de 15 teses, Disandro expõe o que chama de “dogma vaticanista-wojtyliano”, acusando a nova hierarquia de substituir o teocentrismo por um culto antropocêntrico baseado na imanência humana. Esse projeto resultaria na criação de uma “Terceira Igreja” transdogmática que diluiu as fronteiras doutrinárias e sacramentais tradicionais em prol de um ecumenismo radical e sincretista. Politicamente, o texto vincula essa transformação religiosa à construção de uma nova ordem mundial sinárquica. Por fim, Disandro convoca os fiéis ao combate espiritual e à resistência contra essa redefinição modernista, rotulada de herética e satânica.
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ADVERTÊNCIA
Ouvimos sem cessar a voz do dragão que, no entanto, ostenta atributos do Cordeiro. Sem cessar, do mesmo modo, a efígie com a voz sonante e poderosa desconcerta a terra inteira, comove-a com suas promessas taumatúrgicas, submete-a ao desígnio da besta, que espera, confiante, assumir o domínio planetário e ratificar a abolição physica da Igreja, como sinal de mutações irreversíveis para o homem.
Não nos dobramos à voz do dragão, nem nos dobraremos. Não aceitamos — e, portanto, não obedecemos nem por um ápice — aos nefastos Joões e Paulos, nem ao sinistro concílio, que entregou a Igreja ao adultério, à falsificação, ao desenfreio doutrinal e à ruína. Não reconhecemos a autoridade canônica de nenhum bispo, deposto cada um ipso facto, conforme consta na Bula de Paulo IV, cujo texto latino publicamos e traduzimos pela primeira vez para o castelhano, e comentamos com singular repercussão na América e na Europa.
A aparição de Karol Wojtyła, contudo, coliga dois séculos de modernismo e lhe confere um selo surpreendente de autoridade e prestígio, de “ortodoxia” e de plenitude pedagógica, dificilmente equiparáveis nos tempos pós-tridentinos. Propõe Karol Wojtyła uma mistificada unidade religiosa, um sofisticado culto do homem, uma anthroposophia delirante e confusa, à qual todos assentem com euforia, contagiados pelo milagre do dragão, autor de uma civilização da paz que será provavelmente o túmulo dos homens livres.
Parece, pois, conveniente uma recapitulação definitiva, que esclareça a montanha de discursos, epístolas, alocuções, encíclicas, rememorações, documentos pastorais etc., que emanam de uma Roma apóstata, predita com prodigiosa nitidez por tantas profecias veneráveis, antigas e modernas. Percorri praticamente todos os textos de Karol Wojtyła e ordenei a substância conceitual metafísico-teológica e histórico-pastoral desse descomunal palavrório pseudo-místico e pseudo-teológico, formulando estas XV teses, que o leitor pode estudar e depois verificar, seja no que já foi publicado, dito ou acontecido, seja no que haverá de acontecer ou de ser proclamado a partir da Sé Romana Vacante.
O leitor deve interpretar a sequência figurativa deste epítome. Caso surja alguma dúvida — o que, de todo modo, é impensável pelo próprio caráter da composição compreensiva — convém precisar:
- A dedicatória inicial à “mônada” resumiria o ponto de vista desses modernistas, gnósticos, antroposofistas, marxistas, evolucionistas, que se apoderaram da condução romana com um falso papa à frente, cuja labilidade semântica conduz eficientissimamente a guerra profunda contra a Sagrada Tradição.
- Após a viagem à Alemanha e o discurso de Karol Wojtyła ao Conselho de Igrejas Evangélicas, compreende-se a dedicatória a Martinho Lutero; ela expressaria o ponto de vista dos heresiarcas Montini e Wojtyła, a recuperação de uma “santidade” que se torna o ponto de partida para a “nova igreja” do terceiro milênio.
- A sequência das XV teses não pretende ser um reconhecimento exaustivo dos complexos substratos doutrinais do heresiarca romano; porém, estão delineados ou sugeridos os horizontes doutrinários realmente decisivos, suas surpreendentes mutações semânticas, suas devastadoras energias de ruína e desolação.
- O colofão, por sua vez, exprime o ponto de vista do redator e do Instituto San Atanasio, que publica este caderno; seu contexto inscreve-se no “combate da Fé”, no sentido tantas vezes explicado em nossos cursos.
A precariedade pessoal não determina o conteúdo semântico da Fé. É este que triunfa contra essa precariedade inevitável e misteriosa em sua frágil conjuntura humana. Sei disso perfeitamente. O conteúdo da Fé não depende de uma obediência desprovida de luz intelectual. Pelo contrário, a obediência à disciplina montiniano-wojtyliana é a destruição da Fé. O conteúdo da Fé não se funda nos emocionalismos marianos, ecumênicos, lacrimosos, nem na “festa do homem”. Pelo contrário, tudo isso funciona como uma nefasta névoa que impede a vigência do Mistério Cristão e, portanto, prepara e consolida eficazmente “o reino do Anticristo”. Nenhuma virtude é mais excelsa do que combater contra a tirania religiosa e ecumênica desse reino; nenhuma obra vale tanto quanto a que o enfrenta sem ambiguidade e o configura em seus nítidos traços satânicos. Mas isso não é obra nossa, isso é precisamente obra da Fé.
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EXULTAÇÃO
Louvada seja a Mônada Inefável,
cujo Sujeito é Deitas
e cujo Predicado é Humanitas.
DEDICATÓRIA
A São Martinho Lutero,
cuja comoção profética bíblica,
paulina, abraâmica
preparou os novos
tempos messiânicos,
tempos de união e concórdia
entre a Katholiké e a Diáspora,
tempos em que
a Diáspora da Katholiké
reunificou a Diáspora
dos Fariseus e Saduceus
e produziu
com seu Vigário
Karol Wojtyła
A TERCEIRA IGREJA,
que esmagará a cabeça de Cristo,
ESSE QUE DEVE DESAPARECER.
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AS TESES DE KAROL WOJTYŁA
Tese I. A Igreja é a perikhóresis do homem com o homem, na qual se realiza a perikhóresis extradivina que unifica a Deidade. Há um só dogma vaticanista-wojtyliano: Cristo é o signo perfeito dessa perikhóresis antrópica e, por isso, podemos chamá-lo de Filho do Homem = Filho de Deus. Tudo o mais resulta de aproximação variável, conjuntural, kairológica. O centro semântico da Ecclesia é este significado imanente do Homem.
Tese II. A Igreja, enquanto conteúdo semântico, está subordinada ao espírito profético do Evangelho, expressão daquela perikhóresis do homem, kerygma do homem-deus, a festa do homem no sentido da celebração androteísta recapitulatória, proposta pela civilização do amor do novo Batista (Montini) e do novo João (Wojtyła): à consciência renovada da Igreja corresponderá o Neo-Novo Testamento, com as encíclicas e neo-epístolas de Roma. Esse será a Terceira Escritura.
Tese III. A Igreja, como expressão histórica, reclama agora: a) abolição das fronteiras doutrinárias; b) reunião, na perikhóresis do homem, de todos os fragmentos ocorridos por circunstâncias já canceladas.
Tese IV. A reunião supracitada prepara a construção de uma humanidade bíblica, bendita em Abraão. Essa construção é a edificação da Terceira Igreja, superior à Primeira (a do Judaísmo Messiânico), superior à Segunda (a da Katholiké Dogmática).
Tese V. A humanidade bíblica abraâmica não é um retrocesso, tampouco um racconto comemorativo. É o absoluto termo médio profético para realizar a humanidade paradisíaca intramundana, que recolherá todo fragmento, sem excluir a religião do ateísmo.
Tese VI. Pelo Concílio Vaticano II, a Igreja Romana aprofundou sua autoconsciência e desvelou, para os novos tempos messiânicos, as Teses I e II. É, portanto, a Mediadora e Promotora, cuja autoridade radica agora nesta metánoia, dialeticamente superior a todas as controvérsias, a todas as definições, a todos os ritos, a todos os dogmas da antiguidade e da modernidade. Essa metánoia funda o ecumenismo wojtyliano, que é a máxima ruptura com a tradição e um ostensivo progresso em relação ao ecumenismo montiniano.
Tese VII. Convém agora a realização da reunião cristã transdogmática, para prever e preparar a reunião abraâmica e paradisíaca intramundana. Aqui acontece o novo advento e o novo Pentecostes. No novo advento, a expectativa de um pléroma intrahistórico que não depende de Cristo; no novo Pentecostes, a efusão do pneuma, consequência e não causa da perikhóresis de homine ad hominem. Isso é, simultaneamente, a mais perfeita revelação da deidade, na medida em que se atualiza o seu predicado humanitas.
Tese VIII. Nessa realização, tudo é conveniente, desde que se incardine, aceite, consinta, afirme ou proclame a tese generalíssima da perikhóresis do Homem. Ao operar a semântica dessa tese, desmoronam-se sumariamente todas as muralhas dogmáticas, conciliares, teológicas e canônicas já estabelecidas.
Tese IX. Caducaram, pois, todos os concílios e cânones, que representam apenas conjunturas biológicas na construção da Humanitas. Ao advir a consciência da perikhóresis do Homem, esta assume o caráter de princípio histórico construtivo, superior a toda conjuntura biológica. Deve distinguir-se o período de emersão e o período de expansão profética da Igreja. No primeiro, as disjunções, separações etc. correspondem à multiplicação biológica do gênero na espécie; o segundo, ao contrário, pela efusão do pneuma, corresponde à reassunção do Gattungswesen (“ser genérico”) em um estágio mais denso e significativo em relação a todo o passado pré-conciliar.
Tese X. Caducaram todos os sacramentos, isto é, todos os ritos, transformados em matéria elementar, juntamente com as diversas línguas e culturas para a nova anthropourgia, que suprime o abismo entre Humanitas e Deitas, na medida em que cada uma pode ser predicado da outra. Mas essa caducidade e essa anthropourgia requerem, todavia, a “inculturação” como princípio biológico pericorético que unifique a tendência geral na revelação da Humanitas.
Tese XI. O signo sacramental da Theofagia, que corresponde ao impulso arcaico de divinização (o que se exprime no antigo teandrismo mítico-pagão), deve ser substituído pela Cosmofagia, no pão que se reparte como signo sacramental da justiça socialista, cujo anúncio corresponde às revoluções modernas. O pão dos anjos comporta o mito teândrico (Nicéia e Calcedônia); o pão deste mundo edifica a Humanitas e é, portanto, passagem à Deidade.
Tese XII. A antítese Tridentinismo–Luteranismo representou uma dialética que permitirá passar da Theofagia à Cosmofagia. O princípio luterano da letra bíblica, por ser semanticamente superior ao princípio romano de autoridade, proporcionará o caminho da reunificação pericorética do Homem. Mas o princípio romano, historificado de outro modo pelo Vaticano II, é indispensável para a consecução de tudo o que transcende a antítese já caduca. Sem o princípio luterano, manter-se-iam fechadas as fronteiras doutrinais; mas, sem o princípio romano, vegetariam os fragmentos ocorridos e não poderia advir a Terceira Igreja.
Tese XIII. Deve construir-se um regime político mundialista, sinárquico, que corresponda ao modelo evangélico, pericorético, do reino do Homem. Diante desse regime em vias de construção, são indiferentes todas as tradições constitucionais, as formas de governo, as ideologias, os regimes políticos. Mas, entre a injustiça do capitalismo e a possível justiça distributiva do comunismo, a sociedade religiosa da Terceira Igreja escolhe a construção social planetária segundo o modelo marxista-leninista-soviético. Assim deve interpretar-se o texto do Magnificat: Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles (“Depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”).
Tese XIV. As correspondências entre a Terceira Igreja pericorética do Homem e a ordem planetária de uma sociedade sem classes, sem pátrias nem nações (segundo o que foi herança do passado romano-germânico) implicam forçosamente uma autoridade mundial dirimente, que será androcrática, como metánoia evangélica da antiga Teocracia.
Tese XV. Na correspondência entre o regime marxista (que é disciplina da justiça) e o regime ecumênico wojtyliano (que é disciplina da caridade), poderá instaurar-se a terceira e última manifestação do Homem. A primeira define o homem adâmico (aquele que perdeu o “paraíso”); a segunda, o homem crístico (aquele que o reconquista nos signos sacramentais); a terceira é a do “theántropos”, aquele que atualiza na história a essência da Deidade. Por isso, “o culto do homem” é o culto perfeito, na medida em que abre a todos os homens, como multiplicação do gênero na espécie, o acesso à Deidade.


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Terminou-se de imprimir para
o Instituto SAN ATANASIO
─ Córdoba, Argentina ─
no dia 1º de fevereiro de 1981,
festa de
SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA,
aquele que terá o privilégio
de julgar
RONCALLI, MONTINI, WOJTYLA
porque impiamente infringiram
a MAGNA SENTENÇA:
Non Christianismus
credidit in iudaismum,
sed iudaismus
in christianismum.
Contra a apostasia de Roma
desentranham-se estas XV teses,
derrotadas já pelo fulgor
do ARCANJO
QUE PIEDOSAMENTE CELEBRAMOS.
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LAUS SACRATISSIMAE TRINITATI
