HERMAN MELVILLE (1819–1891): O ÚLTIMO RAPSODO
Carlos Alberto Disandro (†1994)
Fonte: Ciudad de los Césares, nº 21, Santiago do Chile, novembro-dezembro de 1991.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O breve texto apresenta a obra do escritor norte-americano Herman Melville (1819–1891) sob uma perspectiva teológica, definindo Melville como o grande profeta do destino americano. Disandro sugere a densa teia de símbolos presente em obras como Moby Dick, Bartleby e Benito Cereno, interpretando-os como um reflexo do embate cósmico entre forças aquerônticas e a ordem apolínea. Disandro argumenta que a literatura de Melville antevê a decadência espiritual e a soberba geopolítica dos Estados Unidos. Por fim, associa essa ruína a uma profunda apostasia e à inversão semântica da sacralidade na cultura de massas contemporânea.
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Breve nota recordatória
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Não temos acesso à realidade complexa do acontecer em sua trama epifenomênica, que é a emersão de um iceberg no oceano das diacronias e sincronias unitivas, contrastantes, excludentes, reassuntivas, totalizantes. Somente o profeta, na dimensão escatológica, e somente o poeta-rapsodo, o grande construtor de relatos, isto é, de duplicações semânticas do déroulement físico-mítico-histórico, podem aceder e transvasar para parâmetros simbólicos a entranha desse acontecer. A história crítica acumula estratos, mas dificilmente induz a cadeia biológico-espiritual do homo vivens. Pensamos em Cervantes, Goethe, Balzac, Flaubert, etc., e destacamos que, na História Universal, o caso dos Estados Unidos é particularmente complexo em seu advento geo-histórico, em suas mudanças fundamentais desde o século XVIII, até este centenário de um romancista-rapsodo que desperta minha meditação: a morte de Herman Melville, que nasce, como sabemos, em 1819. Entretanto, a centúria de 1891–1991 está sobrecarregada de tensões insólitas, entrevistas precisamente na prosa do rapsodo aqui recordado.
Creio que Melville, desconhecido em grande parte da América Românica e em grande medida pela high society da suposta cultura moderna, pelas elites de fato confabuladas em desconhecer a excelência do espírito livre e visionário, merece uma respeitosa recordação, nem tímida nem descontrolada. Simplesmente objetiva e lúcida. Como tantos outros, Melville não é assimilável numa culturização de massas, pela novela indiferente, transformada em empresa alheia à ilustração profunda de um homem insatisfeito. Sua linguagem, densamente simbólica, e essa estranha aliança de antiquitas et modernitas, tornam-no obscuro e extremado para a sensibilidade atual. Pois nele se unem precisamente algo de profeta e muito, muitíssimo, de poeta físico-simbólico. Por isso o coloco na estirpe filogenética dos homéridas, e talvez pudesse considerá-lo o único homérida americano, não de transplante, mas de radicação biológica absoluta, criatura ínsita na terra americana do setentrião, para a vastidão desse âmbito geo-histórico. Consequentemente, resulta na melhor inteligência da América do Norte, no sentido da melhor luz semântica para concebê-la, recebê-la, entrever seu decurso, sua coroação e sua hybris, ao menos para o caso de um americano românico, criado na filologia latina, como define sua personalidade quem isto escreve, em memória do último rapsodo.
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Naturalmente seria necessário discriminar a língua — complexa e rica — de Melville. Para isso, confesso lisa e francamente não ter competência. Em todos os meus trabalhos há uma base de experiência pessoal linguística, seja no campo da Antiguidade clássica, na área românica, naturalmente, e na área germânica. Inclusive, alguns fundamentos da lírica inglesa não me são desconhecidos. Mas a “língua” da literatura norte-americana — se assim se pode falar — resulta para mim um continente ignoto e difícil. Meu interesse, neste momento e nestas breves páginas, consiste em resgatar do esquecimento a figura de Herman Melville, para que algum argentino ou chileno, perito em tais arredores do Norte, lhe consagre um estudo de interpretação mais profundo e restrito que o meu, simples ensaio de veneração por um artista inconfundível e valioso, hoje.
Confesso que meu interesse se intensificou pelo acentuado e enigmático simbolismo de seu reino; e que, em particular, foi a releitura de algumas páginas de Moby Dick, consagradas por Melville ao símbolo da cor branca, com evidentes tendências herméticas, o que me reconduziu a leituras juvenis e às sonâncias e ressonâncias de harmônicas contrastantes desde a Antiguidade. E penso que essas páginas do romance insigne merecem — como digo — a perícia e a profundidade de um hermeneuta da linguagem. Desde logo, o inglês literário e coloquial ianque não é, repito, minha competência. Forse altro canterà con miglior pletro.[1] No entanto, creio distinguir no artista certos cortes fundamentais, algo que sugere sua própria vida, articulada por saídas e recuos, por ímpetos e por ócios, os quais parecem exemplificar um modelo considerado por Toynbee (cf. Um Estudo da História) como uma energia criadora ou, ao menos, suscitadora nos parâmetros da História Universal.
Penso que em Melville tudo isso está ligado à intuição ou à busca de um símbolo inclusivo, de seu próprio périplo estético e da res publica americana, isto é, a América do Norte. Mas terá nome essa res publica, ou se lhe atribui ou lhe atribuímos o nomen de um totum que não representa? E assim Melville, de grau em grau, mitifica para desvelar o “nome da América” e delimitar o “nome da res publica do Norte”.
A essa semântica totalizadora, no que concerne aos Estados Unidos como um todo inclusivo porém híbrido, correspondem escalas menores, geo-históricas, como o Oceano, os oceanos do Sul como o ignoto absoluto e cósmico; a nave do capitão Ahab, Moby Dick, os contramestres ou arpoadoras ianques, diante de uma humanidade totalizadora representada por homens de todas as raças e credos.
Todos esses planos se consomem, por sua vez, em certos personagens como B. Budd, o marinheiro, o apolíneo, frente à entidade maligna de seu contramestre, a quem mata com um soco. E creio que, descendo por esses níveis, recuperamos certos aspectos proféticos, em parte derivados da meditação bíblica e, em particular, do mysterium iniquitatis de São Paulo.

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Representaríamos essa simbologia como um enfrentamento cosmogônico-histórico entre forças aquerônticas e um destino hiperbóreo apolíneo. As primeiras têm sua sede no mar tempestuoso, em Moby Dick. O segundo aparece por um acaso heraclítico, que Melville registra com extraordinária profundidade e lucidez. Entretecendo todas as coordenadas, apresenta-se a figura e o destino da res publica americana do Norte. Pareceria que Melville a vê inclinar-se para as forças aquerônticas por um deslizamento silencioso e contínuo a esse abismo do mysterium iniquitatis, que significará, por outro lado, o governo de um poder incontrastável.
Creio que a meditação desse destino ocupou grande parte da atividade estética e simbólica do poeta e romancista. O homérida, rapsodo da América, registra uma espécie de katábasis[2] que implica uma reflexão poderosa sobre a História Universal, aparentemente também cíclica. Embora, nesse aspecto, seja possível postular maior influência bíblica do Antigo Testamento.
A intuição de Melville seria, portanto, em todo caso, uma representação de Untergang,[3] mas que passa pela república do Norte; essa intuição, refletida nos termos que digo, aparenta-o também com alguns símbolos de Balzac. Não sei em que medida o romance ou o conto de Melville tem estímulos na copiosa produção do artista francês. Mas há traços comuns que podem originar-se no período romântico e pós-romântico. De todo modo, não é necessário recorrer a Goethe, Balzac, Dostoiévski ou outros. Pois o romance norte-americano inteiro, como ciclo moderno acentuado, tem seus próprios parâmetros. No entanto, Melville oferece um ressaibo de erudição humanística que creio ser de referência européia, preferentemente inglesa, sem esquecer, por certo, o impacto de Shakespeare em um escritor tão rigoroso como o ianque.
Seria preciso reexaminar e ordenar a simbologia de Melville em suas novelas curtas ou contos. Ela parece, em alguns casos, preparatória do grande universo de A Baleia Branca; ou, inversamente, esta esclarece, por vieses contrapostos, a série diacrônica de símbolos apocalípticos em sua semântica desveladora especificamente grega. Sem pretender traçar com rigor hermenêutico uma diacronia provável, teríamos, em primeiro lugar, a cosmogonia implícita do poeta. Dela procedem os remanescentes geológicos e geoviventes: As Ilhas Encantadas; as montanhas misteriosas e selváticas de O Vendedor de Pára-raios, quase uma Anatólia ianque sob o fulgor dos raios olímpicos; ou as desgastadas e ruinosas de O Paraíso dos Solteiros; a presença dos oceanos do sul, etc. No extremo oposto, talvez o desenvolvimento geométrico de Bartleby, o homem na absoluta derrelição pós-paradisíaca, e a emersão monstruosa das “tartarugas” urbanas e suas potentes conformações, desoladas e malignas.
Entre esses dois extremos — As Ilhas Encantadas e Bartleby — o vasto discrime de Moby Dick e o desafio de um homem cínico que amaldiçoa a natureza inóspita e incompreensível; as florestas imutáveis de O Vendedor de Pára-raios como símbolo de uma ilusão, carente dos deuses olímpicos. E, finalmente, o orbe empedócleo de neikos e philotes, que parece estar na base de todas as coordenadas possíveis.[4]
Não esqueço, evidentemente, o “navio fantasma” de Benito Cereno, cuja simbologia — eu diria barroca e complexa — não é inferior em nenhum sentido à de A Baleia Branca. A visão retrospectiva de Melville da Espanha imperial e navegante conta-se entre as prosas mais densas do rapsodo anglo-americano. E disse “navio fantasma” como alusão consciente à saga e ao drama wagneriano. Não excluo a possibilidade de atribuir a Melville uma intenção de que a saga do Mar do Norte se veja transformada em saga sinistra dos mares do sul e no choque entre raças inconciliáveis, trabalhadas umas pela perícia e tenacidade do poder, e outras por um rancor secular (neikos), causa de inevitáveis catástrofes para a res publica que exerça esse poder. E esse contexto se torna, para Melville, indubitavelmente, um prenúncio profético dos tempos do Anticristo. A dimensão teológica do romance e das “novelas exemplares” de Melville mereceria um reexame mais completo, precisamente neste fim de milênio, em que os Estados Unidos e seu poder mundial denotam caracteres malignos, sob capa de cristianismo ético, e também de justiça mundial. Mas esta seria outra questão realmente decisiva: se a causa da corrupção do mundo e do poder que o envolve como uma luva não é, em última instância, uma pavorosa corrupção teológica, que na Escritura leva o nome de “apostasia”. Herman Melville, creio, não está longe dessa conclusão, quando a palavra “apostasia” está quase apagada do vocabulário teológico.

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Por certo, podem-se traçar outras latitudes do símbolo operativo, sobretudo se levarmos em conta a hermenêutica rigorosa de Melville com o texto bíblico. Aqui, naturalmente, convivem a vivência da tradição quacre e também uma indubitável erudição do romanismo pré-luterano, ou da leitura dos Padres latinos, em particular Santo Agostinho. E, ainda que sem muitos fundamentos, ousaria dizer que a sombra de Santo Agostinho e sua Cidade de Deus domina os horizontes enigmáticos, escatológicos e apocalípticos do romancista. Acrescento, por fim, the last but not least, a surpreendente inclinação de Melville pelo Mistério celebrado na Igreja romana, isto é, pelo complexo universo simbólico da liturgia latina. Em que medida chegaram a Melville ecos da indiscutível renovação desses parâmetros no século XIX é algo que desconheço absolutamente. Mas tal renovação se define imbricada com o romantismo gótico, com o simbolismo gaulês, com a música gregoriana, com o estudo das fontes medievais, entre 1820 e 1870, isto é, precisamente o período que abrange a atividade rapsódica de Melville.
A decadência religiosa, teológica e cultual deste fim de milênio parece ser entrevista por Melville em vários signos. Inclusive a curiosa insistência em ressonâncias islâmicas ou corânicas resulta surpreendente. Do mesmo modo, o interesse que teve por figuras como Bolívar deixa-nos um tanto perplexos; talvez lhe tenha chamado a atenção a vastidão de suas campanhas militares. Seu conhecimento do Peru e do Chile, do sul patagônico, do estreito de Magalhães, dos mares antárticos é algo mais do que memória de um aventureiro. Algum amigo e colega da Ciudad de los Césares, seguramente munido de erudição histórico-hermenêutica, poderia revisar esse tema com proveito indubitável para quem isto escreve e para todos os leitores desta dedicada revista. Limito-me apenas a esboçar traços surpreendentes de Melville e a solicitar ao nosso amável Diretor que publique, como homenagem, as páginas que Melville dedica, em Moby Dick, à cor branca como cor hermética.
No entanto, permanece enigmática a fonte lírica desse expressivo contexto simbólico-teológico. A interpretação referida aos remanescentes bíblicos e cristãos numa sociedade profundamente descentralizada do universo medieval românico e anglo-aristocrático não é suficiente. Adviria antes, no espírito de Melville, uma corrente oculta da modernidade, sentida como itinerário inelutável para a catástrofe e produzida por uma confusão maligna no conhecimento. Isto é, o que desperta e provoca o ágil desdobramento do símbolo existencial e/ou escatológico é a rara advertência de um equívoco, induzido por aquilo que a Tradição teológica chama de “tentação”.
O mundo de Melville é um mundo de tentações aceitas e consumadas com alegre desprezo pela sabedoria secular dos antigos. Há, nesse sentido, personagens-chave, segundo os perfis concebidos pelo artista; expressões enigmáticas; relevos intencionados; deliberadas reiterações; sugestivos cortes, que valem como um silêncio místico. Pretendo sugerir que nesse positivista, nesse physico, que reexamina como um novo Leonardo a corporeidade humana inscrita no mundo, nesse poeta, pois, a esplendência ôntica do mysterium produz como que uma abertura da linguagem ao símbolo, sem que medie qualquer prefiguração inquisitiva. Dito de outro modo, o símbolo holístico e totalizante é, em Herman Melville, segundo creio, a verdadeira physis, à qual só tem acesso o relato do rapsodo. Mas o ouvinte desse rapsodein já não ostenta parâmetros semânticos, nem míticos, nem místicos, nem estéticos, nem teológicos, nem políticos para interiorizá-lo. A explosão desse remanescente gravitacional seria a res publica americana e, em particular, o sutil mundanismo religioso com que ela dessacraliza o mundo por sua confusão com Deus, e destrona Deus porque o vive como epifenômeno de sua consciência de instalação profana, na qual culminam a criação, o homem, a cultura, etc. Que soberba! Der Mensch in der Sacralität (o homem na sacralidade) é agora o ianque, der Mensch in der Profanität (o homem na profanidade). É a máxima reversão semântica!
É possível suspeitar — e assim o testemunho por veracidade inescusável — que minha hermenêutica promova uma desmesurada imaginação. Convém advertir, pois, minha própria perplexidade. Mas, de todo modo, a significativa densidade desse rapsodein americano obriga a confrontar detalhes profundos, francamente coincidentes com a trama de uma situação histórica entenebrecida, precisamente ao completar-se um século da morte de Herman Melville. Na revista Ciudad de los Césares cabe esta recordação e esta advertência, pela qualidade superior com que se cumpre, na revista chilena, a missão da inteligência americana, hoje.
Carlos A. Disandro
Alta Gracia, 18 de agosto de 1991.
[1] “Talvez eu cante outra coisa com melhor plectro”, famoso verso de Orlando Furioso (1516), de Ludovico Ariosto. (N.T.)
[2] Katábasis (ou catábase) é um termo do grego antigo que significa literalmente “descida” ou “caminho para baixo”. Na mitologia e na literatura clássica, refere-se à jornada de um herói vivo ao submundo (o mundo dos mortos) para cumprir uma missão, como obter conhecimento ou resgatar alguém. Exemplos clássicos incluem as descidas de Odisseu e Orfeu. (N.T.)
[3] Declínio, queda, ocaso. (N.T.)
[4] Neikos (ou Neikea, no plural) é um termo de origem grega (do grego antigo neîkos) que significa briga, contenda ou conflito. O conceito é amplamente utilizado na mitologia e na filosofia da Antiguidade. Na mitologia, os Neíkea eram daimones (espíritos personificados) que representavam as disputas, as pelejas, as ofensas e as rixas. Eles faziam parte da grande legião de espíritos malévolos gerados por Éris, a deusa da Discórdia. Por sua própria natureza, atuavam como os grandes opostos de Philotes, a personificação da amizade, do afeto e do carinho. Na filosofia pré-socrática, o pensador Empédocles de Agrigento utilizou Neikos (associado ao ódio ou à discórdia) para explicar a criação e a transformação de todas as coisas. Segundo sua teoria, o Cosmos é regido por duas forças fundamentais e opostas: Philia (o amor e a força de atração) e Neikos (o ódio e a força de repulsão/separação). O ciclo do universo funcionaria pela alternância de poder entre essas duas forças: ora o amor une os elementos formando o mundo, ora o ódio os separa novamente. (N.T.)
