SOBRE O CANTO GREGORIANO
Carlos Alberto Disandro (†1994)
Fonte: El son que funda, p. 341–346. La Plata, Decus, 1996.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto defende o canto gregoriano como o ápice estético e espiritual da liturgia católica, ligando sua unicidade à transfiguração e à verdadeira identidade comunitária. Disandro critica duramente o abandono dessa tradição musical após as reformas do Concílio Vaticano II, rotulando o aggiornamento litúrgico como uma profanação imposta por falsas inovações modernas. Apoiando-se nos testemunhos de intelectuais e músicos da época, ele denuncia a introdução de melodias vulgares e ritmos populares que destróem a interioridade e a nobreza do culto. Por fim, caracteriza essa transição como um golpe orquestrado contra a Tradição e a herança dos grandes pontífices, convocando à resistência e à restauração do canto sacro.
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O CORO GREGORIANO (II)
O abandono do canto gregoriano pela comunidade cristã assinala, de certo modo, a ruptura dos valores estéticos mais autênticos e eficazes do culto católico. Do ponto de vista religioso, por outro lado, esse abandono implica a alteração dos vínculos normais com a “fonte primeira e indispensável do verdadeiro espírito cristão” e, portanto, o desaparecimento do vínculo entre o culto e a cultura cristã. Nesta ocasião, contudo, queremos referir-nos apenas àqueles valores estéticos do coro gregoriano e à sua significação fundamental na história da expressão cantada.
Falando do canto alemão — popular e artístico — afirmamos que, no canto, as coisas vivem a antecipação de sua vida transfigurada. O canto coroa a realidade e a interioriza, trasladando-a a um âmbito próprio. Esse princípio se cumpre e, sobretudo, se manifesta com uma plenitude particular no domínio uníssono do coro gregoriano. Do ponto de vista estético, encontramos: primeiro, a mais íntima união entre palavra e melodia; segundo, a mais perfeita significação da palavra como dimensão da comunidade, que vive o ato de sua própria transfiguração e promove, em consequência, a transfiguração de todo o cosmos no universo simbólico da liturgia; terceiro, o ato mais perfeito de inspiração, que não está submetido ao mundo mutável da emoção humana, mas que, de certo modo, transmite a direção e o sentido da bem-aventurança divina: todos em um e um em todos. Daí nasce a objetividade do canto gregoriano, sua limpidez expressiva e o caráter humano-divino, por assim dizer, com que sua melodia resgata as coisas e o homem da precariedade cotidiana que as quebra e desgasta, para lhes conferir o movimento da glória. A glorificação, pois, cumpre-se na dinâmica do coro gregoriano, que é, sob esse ponto de vista, a instância pedagógica mais perfeita e aquela que constrói a interioridade religiosa à margem do individualismo, inoperante e estéril.
Muitos católicos, lamentavelmente, esqueceram o estudo dos grandes documentos pontifícios de Pio X, Pio XI e Pio XII sobre a importância primordial dessa pedagogia na formação do povo cristão. Em numerosas cerimônias — capitais na medida em que o povo cristão ali comparece não como massa nem como multidão, mas como comunidade — costumamos ouvir melodias de péssimo gosto, que nada têm a ver nem com a beleza, nem com a santificação, nem com a interioridade religiosa. A comunidade carece de seu modo expressivo e de sua fonte educativa. O canto gregoriano permanece como coisa de arqueólogos, como um arcaísmo que se respeita, mas que se evita cuidadosamente para não parecer antigo em um mundo que envelhece tão rapidamente à força de modernidade. Não será esta uma das causas mais importantes da decadência do verdadeiro espírito cristão e da difusão do mau gosto, sobretudo no que diz respeito à música? Não terá chegado a hora de confiar menos nos tecnicismos ilusórios, para retornar ao canto e à sua vigência estético-religiosa?
Artigo publicado em La Hostería Volante, n.º 3, La Plata (República Argentina), outubro de 1959, p. 22, assinado com o pseudônimo Germanicus.
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A QUESTÃO DO CANTO GREGORIANO
Alguns debates conciliares, mas sobretudo a ação pós-conciliar, demonstraram a falácia desse aggiornamento litúrgico no que diz respeito à música litúrgica e, em especial, à questão do canto gregoriano. No processo de judaização da Igreja e de seu culto, a eliminação do canto gregoriano cumpre uma etapa decisiva na modernização e profanação da ação cultual. Logicamente, isso se cumpriu com delicado farisaísmo, pois, enquanto a Constituição Litúrgica, sancionada pelo Concílio, estabelece enfaticamente a superioridade e a necessidade do canto gregoriano (ao qual parece continuar reconhecendo como modelo da música e do canto sacros), o aggiornamento, o “espírito” do Concílio, varreu impudicamente qualquer rastro de nobreza estética e religiosa no canto. Vemos, assim, multiplicarem-se os adefesios, copiados (ou imitados) de outros adefesios, como os do Padre Gelineau, S.J., os quais, segundo uma norma inexistente e segundo uma autoridade ainda mais precária, pretendem ser impostos à sensibilidade do povo cristão. Citamos como exemplo o salmo Deus é meu pastor, que ouvimos em diversas ocasiões e que, sem dúvida, demonstra nitidamente o que é um canto sem caráter musical, sem caráter coral e desprovido de significado estético-religioso. É infinitamente mais difícil aprender esse adefesio desse salmo, musicado à maneira de Gelineau, do que entoar algum Kyrie gregoriano ou alguma antífona da Virgem, mantendo-se, naturalmente, a língua latina.
Parece-nos oportuno reproduzir aqui uma citação do prof. Duruflé (do Conservatório de Paris), um dos organistas mais competentes da França (Ilustración del Clero, Madrid, janeiro de 1966): “O canto gregoriano encontra-se, sem dúvida, muito ameaçado, apesar do art. 116 da Constituição Litúrgica, que prescreve a conservação do gregoriano, o qual ‘deve ocupar o primeiro lugar na liturgia romana’. Apesar disso, assiste-se atualmente ao mais completo desordenamento no que se refere à música litúrgica, que vai muito além das diretrizes conciliares. Sob o pretexto de que a língua vulgar está ‘autorizada’ (não prescrita) em certas partes da Missa, o canto gregoriano, indissoluvelmente unido ao latim, foi eliminado da Igreja ou apenas mantido ‘provisoriamente’. Baseando-se nessa ‘autorização’, uma parte importante do clero persegue com fúria terrível de destruição tudo o que pertence ao passado, com a desculpa de ‘renovação musical litúrgica’. Mas que renovação! Até agora só vemos amontoarem-se ruínas sobre ruínas, e, dentre essas ruínas, surgem miseráveis melodias com letra francesa, que pretendem substituir esse monumento insubstituível que é o canto gregoriano. O que significa essa anarquia musical de hoje? Enquanto isso, os protestantes, que invejam nosso patrimônio musical incomparável, conservam cuidadosamente seus cantos tradicionais. Eles sabem que uma música de qualidade pode ajudar a vida interior. Cuidam ao máximo da execução de seus corais e da participação dos fiéis. Entre nós, ao contrário, a assembléia dos fiéis é considerada atualmente como uma assembléia de retardados ou ‘subdesenvolvidos’, aos quais se deve fazer cantar, de bom grado ou à força, uma série de vulgaridades musicais. Os fiéis recusam-se ou vão embora. Então acusa-se o povo de ser ‘rotineiro’, de ter ‘preconceitos’, de estar ‘cheio de coisas primitivas e infantis’. Tais palavras ‘encantadoras’ foram escritas pelo R. P. Riquet, S.J., no jornal Le Figaro, precisamente contra aqueles que se obstinam em cantar o Credo em latim”.
Poderíamos citar também o caso do organista Evencio Castellanos, diretor do coro da Catedral de Caracas, que renunciou ao seu cargo diante dessa verdadeira degeneração musical que parece ter se apoderado da Igreja Católica (no mundo inteiro, mas particularmente na América hispânica). “Os textos sagrados do Cristianismo” — disse Castellanos (La Nación, 4 de setembro de 1966) — “não podem ser interpretados com ritmos de pachanga, cumbia ou merecumbé. Não quero tornar-me solidário de uma degeneração musical que só contribui para tornar ainda mais notória a nossa ignorância”.
Os exemplos poderiam multiplicar-se: as cantorias ao som de violão nos templos (como as dirigidas pelas incríveis pupilas do clérigo Juan Pearson, uma das cabeças do judeo-cristianismo em suas formas mais contrárias à Fé tradicional, aqui em La Plata e na Argentina), as vulgares inovações nos gestos e cerimônias, a pobreza dos textos, com melodias horripilantes, sem graça e sem fervor. A conclusão dessas citações seria uma só: houve um fabuloso engano, dentro e fora do Concílio, que teve por único objetivo liquidar a herança de São Pio X e esmagar a continuidade de uma verdadeira instauração litúrgica e gregorianista, cujos frutos poderiam ter-se concretizado em tempos não muito distantes. A judaização da Igreja logrou ferir profundamente a estrutura sacro-musical do culto, sua dignidade estética e as virtudes formativas do coro religioso da Tradição. Trata-se, pois, de um severo golpe contra a própria Tradição.
O coro gregoriano está intimamente integrado com a experiência do mysterium cristão, na “ação sacra”; é um modo perfeito de participação, como queriam Pio X e Pio XI. Sua substituição engendrará penosas involuções religiosas, devolver-nos-á à barbárie desse aggiornamento sem sentido, sem nimbo, sem qualificação espiritual. Entregar-nos-á, em suma, aos falsos “messias” da sociologia, da psicologia de massas e das ciências da planificação. Restaurar o canto gregoriano, praticá-lo, venerá-lo, transmiti-lo é uma exigência imperiosa deste duro combate contra as forças coligadas da “revolução mundial”, que agora atuam dentro da Igreja, protegidas pelos mais altos níveis da hierarquia. O canto gregoriano não perecerá, pois já se entrevê no horizonte a derrota irremediável desses “conciliaristas” que consideram de fé todos os mais ignóbeis recursos da modernidade e heréticos todos os autênticos tesouros dos grandes séculos de piedade, doutrina e contemplação.
Artigo publicado em La Hostería Volante, n.º 19, La Plata (República Argentina), setembro de 1966, p. 16–17.
