Miniatura que mostra São João escrevendo as palavras iniciais de seu Evangelho (em latim, “In principio”) em um pergaminho, enquanto um anjo aponta para a figura celestial da Virgem com o Menino. Este manuscrito dos Evangelhos de São Lucas e São João, bem como das Epístolas, foi produzido pelo escriba de um olho só Pieter Meghen em 1509; o iluminador é desconhecido (Biblioteca Britânica, Londres, MS Royal 1 E. V, volume 1, f.171).
Esta imagem ilustra o diagrama central que Disandro constrói ao longo de todo o texto: a curva mística, teológica e semântica do Prólogo de São João. O gráfico sintetiza a dinâmica espiritual do texto bíblico em dois grandes movimentos dispostos em uma parábola: a katábasis (movimento descendente) e a anábasis (movimento ascendente). No topo e na base do gráfico estão marcados os três termos gregos que Disandro chama no texto de três imponentes acantilados (penhascos) que definem a estrutura do Prólogo: 1) Arkhé (Princípio/Origem): No topo superior esquerdo, é o ponto de partida na eternidade e na vida intradivina; 2) Sarx (Carne/Encarnação): No ponto mais baixo, o fundo da parábola, é a zona de inserção e rebaixamento do Verbo no mundo finito e na sombra; 3) Kolpos (Seio do Pai): No topo superior direito, é o ponto de chegada e culminação do ciclo, onde o Logos, agora encarnado e transfigurado, retorna ao seio do Pai com a humanidade assumida. 
A seta apontada para baixo descreve a descida do Logos (katelthonta, o kénosis) desde as alturas divinas até o mundo da sombra e da carne. As etapas dessa descida revelam as atribuições teológicas do Verbo: 1) Arkhé/Logos (Princípio): O Verbo eterno existente junto de Deus; 2) Zoé (Vida): O princípio fontal comunicado à Criação (“nele estava a vida”); 3) Phos (Luz): A articulação da vida com o cosmos e a inteligência (“a vida era a luz dos homens”); 4) Aletheia (Verdade): A plenitude da revelação divina que desce até o limite do criado.
No ponto mais baixo está Sarx (“E o Verbo se fez carne”). É a zona dramática do texto: o momento em que o Logos toca a fragilidade humana e a treva, assumindo a nossa natureza para dar início ao movimento de resgate e transfiguração.
A seta apontada para cima descreve a subida (anelthonta) e o movimento de elevação do homem e do cosmos através do Mediador, Jesus Cristo. É aqui que o texto de São João passa da audição para a visão: 1) Skene (Morada/Tenda): “E habitou [armou sua tenda] entre nós” (eskēnōsen en hēmin); a deidade finca raízes na fragilidade humana; 2) Etheasámetha (Contemplamos): “E vimos a sua glória” (kai etheasámetha tēn doxan autou); o nascimento da visão e o início do testemunho do Apóstolo; 3) Doxa (Glória): A manifestação refulgente da divindade transfigurada na carne de Cristo; 4) Exegesato (Revelado/Narrado): Cristo como a exegese ou narração viva do Pai (“o Filho único o revelou”); 5) Kolpos/Khristos (Seio do Pai): A culminação no Cristo Monógeno, repousando eternamente no seio do Pai (kolpos), fechando o ciclo de ascensão e atraindo todos à beatitude eterna. (Nota do Tradutor)
Esta imagem é o esquema musical/místico em tetragrama apresentado por Disandro. Ela representa graficamente o percurso teológico do Prólogo de São João (katábasis e anábasis do Logos) através de uma analogia com a notação do canto gregoriano. As quatro linhas horizontais formam um tetragrama gregoriano ideal (usado no canto medieval). As linhas pontilhadas verticais dividem a imagem nos três campos sonoros que Disandro menciona no texto. As notas quadradas (neumas) e a sua altura no tetragrama indicam a posição espiritual/ontológica de cada etapa. Primeira seção (Arkhé): Duas notas na linha superior (equivalente à nota do Modo 1 gregoriano). Representa o princípio absoluto, a origem eterna e intradivina do Logos (en arkhé / en autō). Está no ponto mais elevado do tetragrama, indicando a plenitude da Vida Trinitária antes da Criação ou do descenso. Segunda seção (Skotía): Uma nota sob uma linha suplementar, abaixo e fora de todo o tetragrama. Representa a “oitava da sombra”, a treva e o abismo (en te skotía). Ao colocar a nota fora da pauta, o Disandro ilustra graficamente que a treva é a desarmonia, a privação da luz e a exclusão da ordem divina. É o ponto mais baixo e dramático da katábasis. Terceira seção (en Hemin): Duas notas em patamares descendentes em direção à linha base (equivalentes às notas do cosmos e do homem). Representa a Encarnação e a inabitação do Verbo entre nós (kai eskēnōsen en hēmin — “armou sua tenda entre nós”). O modo melódico “se aplaina”, significando que o Deus transcendente assume a nossa frágil natureza e habita no âmbito humano para resgatá-lo e transfigurá-lo. A imagem sintetiza a tese de Disandro: o Prólogo de São João não é apenas um texto teológico, mas uma partitura mística. O Logos parte da glória inefável (Arkhé), mergulha e confronta a escuridão fora do cosmos ordenado (Skotía) e finca raízes no âmbito da criatura humana (en Hemin), restaurando a harmonia entre o Criador e a criatura. (Nota do Tradutor)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima