FORA DA IGREJA CATÓLICA ROMANA NÃO HÁ SALVAÇÃO
Daniele Concina, O.P. (†1756)
Fontes: (a) Theologia christiana dogmatico-moralis, tomo I, p. 234–249. Roma, 1749; (b) https://www.zelanti.net/pt/articles/fora-da-igreja-catolica-romana-nao-ha-salvacao-a-opiniao-laxista-dos-casuistas-e-rejeitada?languageSelected=pt
Tradutor do texto latino: Blog Zelanti.
Descrição: O texto refuta a tese do “herege material”, defendida por casuístas probabilistas como Juan Caramuel y Lobkowitz, O.Cist. (1606–1682), Hermann Busenbaum, S.J. (1600–1668) e Claude La Croix, S.J. (1652–1714). Concina sustenta que nenhum adulto fora do Corpo visível da Igreja Católica Romana alcança a salvação eterna. Apoia-se na Tradição (Santo Agostinho, São Cipriano) e no Magistério para afirmar que a ignorância invencível e o batismo isolado não garantem o Reino dos Céus. Conclui alertando que a posição casuísta abre perigosamente as portas ao indiferentismo e ao tolerantismo religioso.
Nota d’O Recolhedor: Fora com tais invenções monstruosas!
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CAPÍTULO XIII: FORA DA IGREJA CATÓLICA ROMANA NÃO HÁ SALVAÇÃO. A OPINIÃO LAXA DOS CASUÍSTAS BUSENBAUM, CARAMUEL, LA CROIX, SPORER E OUTROS É REJEITADA.
I. Examinaremos uma questão complexa, árdua, sublime e tremendíssima; e é para mim tanto mais difícil quanto mais eu ainda não a encontrei elucidada à altura da sua dignidade. É consenso entre os católicos que a salvação não se encontra fora da Igreja Católica. Mas quanto a quem deve ser considerado fora da Igreja Católica, não há apenas uma única opinião entre os Doutores. Porque muitos dos mais recentes, sobretudo entre os casuístas, rejeitam para fora da Igreja Católica apenas os hereges que chamam de formais, a saber, aqueles que obstinadamente impugnam alguns artigos de fé. A outros chamam de hereges materiais, que certamente estão separados da comunhão da Igreja Romana, mas sustentam que esses se encontram na Igreja Católica universal, ou mesmo Romana, em espírito e desejo, porque ignoram invencivelmente os artigos de fé da própria Igreja. Por isso os chamam de hereges materiais, porque não são obstinados em impugnar algum artigo de fé. Nesse número colocam os luteranos montanheses, silvestres, rudes e simplórios, que de boa fé vivem naquela religião que aprenderam desde tenra idade. Esses nada ouviram sobre o Romano Pontífice, nada sobre a Igreja Romana, nada sobre o Purgatório, nada sobre o culto dos Santos. Portanto, a ignorância desses artigos deve ser considerada invencível e inocente neles. Serão salvos, portanto, se tiverem crido nos artigos principais e fundamentais.
II. Deve-se estabelecer como certo que, assim como entre os católicos, também entre os hereges pode-se encontrar uma ignorância invencível de alguns artigos. Os teólogos geralmente admitem-na em alguns católicos rudes. Com maior razão, portanto, deve ser concedida a alguns hereges, não menos rudes e incultos que aos católicos ignorantes. Considero isso fora de controvérsia. Além disso, aqueles que sofrem dessa ignorância invencível e que se encontram fora da Igreja Católica Romana podem ser salvos, ou seja, obterão de fato a salvação eterna? Essa é a controvérsia a ser resolvida.
III. Nenhum adulto que morra fora da arca da Igreja Católica Romana alcança a salvação. A verdade dessa tremendíssima sentença deve ser demonstrada e confirmada não por raciocínios humanos, mas por testemunhos divinos. Além disso, são inúmeros os testemunhos das Sagradas Escrituras que confirmam a verdade proposta. Por brevidade, apresento um da Epístola de São Pedro, cap. 3: “Quando se construía a arca, na qual poucos, isto é, oito almas foram salvas pela água: [essa água prefigurava] o que também agora vos salva, um batismo de forma semelhante”. A arca é a Igreja, na qual qualquer pessoa entra por meio do Batismo. No dilúvio, todos fora da arca, sem exceção, pereceram. Portanto, todos fora da Igreja estão em perigo de naufrágio eterno. O que dizem sobre isso os novos casuístas? A ignorância invencível salvou alguém fora da arca de Noé? Por força dessa tão decantada ignorância alguém esteve em espírito dentro da arca, para que em espírito e corpo escapasse livre do naufrágio? E ousarão levar para o Paraíso alguém fora da verdadeira arca de Cristo? Coloque diante de seus olhos todas as parábolas de Cristo. Nenhum trigo, a não ser da área designada, é lançado no celeiro; nenhuma escolha de peixes, a não ser da rede; nenhumas virgens, a não ser daquelas dez, são escolhidas para as núpcias. Portanto, ninguém, a não ser da verdadeira Igreja, é levado para o Reino eterno. Ouça Santo Hilário de Poitiers sobre São Mateus, cap. 13: “Sentado na barca, etc. Pois falava em parábolas; e essa é a figura. Jesus significa pelo gênero aqueles que, colocados fora da Igreja, não podem captar nenhuma inteligência do discurso divino. Pois a nau apresenta a figura da Igreja, dentro da qual a palavra da vida é colocada e pregada; aqueles que estão fora, e jazem como areia estéril e inútil, não podem entender”. Ouve São Cipriano no Livro sobre a unidade da Igreja: “Pensam que Cristo está consigo, quando se reúnem, aqueles que se reúnem fora da Igreja de Cristo? Se tais pessoas forem mortas na confissão do Nome, essa mancha não é lavada nem pelo sangue. A culpa da discórdia, indesculpável e grave, não é purificada nem pela paixão. Não pode ser mártir quem não está na Igreja; não pode chegar ao reino quem abandona aquele na qual há de reinar”. Ouviste? O derramamento de sangue pela confissão do Nome de Cristo não pode lavar a mancha da separação. Mas a ignorância invencível introduzida por vós (casuístas) irá apagá-la? Qual ignorância maior, ou melhor, qual persuasão maior da verdade, aquela que impele a derramar o sangue pelo Nome de Cristo? E, no entanto, essa persuasão firmíssima, e até mesmo a ignorância da verdadeira Igreja, nada aproveita, segundo o testemunho de São Cipriano, para a salvação eterna. Argumenta novamente ali o Mártir São Cipriano: “Já não pode ter Deus como pai quem não tem a Igreja como mãe. Se ninguém pôde escapar fora da arca de Noé, tampouco escapará quem estiver fora da Igreja”. Gostaria de que lessem todo o citado livro de São Cipriano. Além disso, ouçam Santo Agostinho no Livro sobre a paciência, cap. 26 e ss., onde ele, com pena fluente, explica a paciência e a constância com que, constituído “em algum cisma, para não negar Cristo, sofres tribulações, angústias, fome, nudez, perseguição, perigos, prisões, cadeias, tormentos, espada ou chamas; ou feras; ou a própria cruz por medo do inferno: tudo isso ele louva; contudo, acrescenta que nada aproveita para obter o Reino dos Céus; não para suportar os sofrimentos toleráveis do juízo final”. Afirma que essa fortaleza e paciência são um dom de Deus, mas adverte imediatamente: “Deve-se ter cuidado, pois, para que, se dissermos que esta paciência é um dom de Deus àqueles em quem ela existe, não sejam considerados pertencentes também ao Reino de Deus”. O que clamam Juan Caramuel y Lobkowitz, O.Cist, Hermann Busembaum, S.J., Claude La Croix, S.J. e os demais? Que tais homens são hereges materiais, não formais; que a paciência deles é tão heróica que os leva a enfrentar a morte pela fé de Cristo; que, se ignoram a Igreja Católica Romana, essa ignorância seria invencível? Definem em contrário os Santos Padres da Igreja Cipriano e Agostinho. Tal paciência é, de fato, um dom de Deus,mas não dos filhos daquela Jerusalém que é livre lá em cima, nossa mãe, e sim daqueles que também podem receber os filhos das concubinas, aos quais são comparados os judeus, cismáticos ou hereges. Pois, embora esteja escrito: “Expulsa a serva e o seu filho, pois o filho da serva não será herdeiro com o meu filho Isaac”; e Deus disse a Abraão: “Em Isaac será chamada a tua descendência”, para que entendêssemos que a descendência de Abraão segundo Isaac pertence, por causa de Cristo, aos filhos de Deus, que são o Corpo de Cristo, e os membros, isto é, a Igreja de Deus, una, verdadeira, genuína, católica… contudo, também aos filhos das suas concubinas, quando os separou do seu filho Isaac, Abraão concedeu alguns presentes, para que não fossem deixados totalmente vazios, e não para que fossem considerados herdeiros, etc. Portanto, uma de duas coisas deve ser dita, insere o doutíssimo Padre Miguel de Elizalde, S.J., na sua obra intitulada Forma verae religionis quaerendae et inveniendae (“O modo de buscar e encontrar a verdadeira religião”), questão 36, p. 481: ou “estes santíssimos Padres foram audaciosíssimos e temerários, ao condenarem até os mortos por Cristo, ou aqueles que aqui pensam de outra forma, e tão facilmente salvam [os outros], são, para não dizer algo mais severo, inconsideradíssimos e, nesta parte, ignorantíssimos”. Confirma essa sua sentença o Padre Elizalde, cujo juízo muito valorizo, na questão preambular àquela obra digna de ouro e cedro, De recta doctrina morum (“Sobre a reta doutrina dos costumes”), §4, p. 4, onde tem isto: “Sei bem que, não só nas regiões mais remotas, mesmo nas fronteiras da Itália, e entre os próprios católicos misturados com hereges, é admitida por alguns a infidelidade negativa, e heresias invencíveis, e crimes inocentes; mas, seja o que for sobre isso, é-me firme, certo para além de todo o temor da opinião, e indubitável, que ninguém se salva fora da Igreja Católica, assim como ninguém escapou no divórcio fora da arca. Mas todos os homens podem ser salvos, como todos concedem. Portanto, também podem encontrar a Igreja Católica e a verdadeira religião, sem a qual, obviamente, ninguém se salva”. Encontre-me um único teólogo de igual doutrina e probidade que ensine o oposto.
IV. Tais mártires de que falam os Padres derramam o sangue por obstinação, e não por amor à verdade; por isso, com razão, os Padres ensinam que eles não se salvam. Pois bem. Mas de onde te consta que esses homens, ao derramarem o sangue pela confissão de Cristo, o fazem com ânimo (viciosamente) obstinado, e não pela (virtude da) fortaleza? Explica: de onde sabes isso? És por acaso esquadrinhador dos corações? De modo algum, dizes. De onde, então, te é conhecida tal obstinação? Pelo fato de que eles puderam alcançar a verdadeira religião? Mas testemunham que, para alcançá-la, não deixaram pedra por mover, e estão tão firmemente persuadidos de professar a verdadeira religião que suportam a morte por sua confissão. Logo, não te consta de outro modo que esses sejam mártires obstinados, senão porque fora da verdadeira Igreja não se encontra o verdadeiro martírio. Mas prossigamos”. O Concílio de Florença estabeleceu o seguinte: “A Sacrossanta Igreja Romana crê firmemente que ninguém que esteja fora da Igreja católica, nem pagãos, nem judeus, nem heréticos, nem cismáticos, pode se tornar participante da vida eterna, mas que irão para o fogo eterno, a não ser que antes do fim da vida a ela tiverem sido agregados; e que tanto vale a unidade do Corpo eclesiástico, que ninguém, por maiores que sejam as esmolas que fizer, pode ser salvo, a não ser que permaneça no seio e na unidade da Igreja católica”. O mesmo se colige do cap. Firmiter de Sum. Trinit., lib. I. tit. 1. §3: “Uma só, na verdade, é a Igreja universal dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém é salvo”. O Cardeal Juan de Torquemada, O.P., para a confirmação da sentença, insiste e ajunta vários cânones, Sum. de Eccles., lib. I. cap. 21. Santo Agostinho comentando o Salmo 54: “Em muitas coisas estavam comigo. Tínhamos o Batismo, certamente nisso estavam comigo. Celebrávamos as festas dos Mártires, ali estavam comigo. Frequentávamos a solenidade da Páscoa, ali estavam comigo. Mas não em tudo comigo: no cisma, sem mim, na heresia, sem mim. Mas (por causa) dessas poucas coisas em que não estão comigo, não lhes aproveitam as muitas em que estão comigo. Pois, irmãos, vede quantas coisas enumerou o Apóstolo Paulo: uma, disse ele, caso falte, em vão são aquelas. Se eu falar as línguas dos homens e dos Anjos, se tiver toda a profecia, e toda a fé, e toda a ciência, se eu transportar os montes, se distribuir todos os meus bens aos pobres, se entregar o meu corpo para que arda: quantas coisas enumerou! A todas estas muitas coisas falte uma só, a caridade: aquelas são muitas em número, esta é maior em peso. Portanto, em todos os sacramentos comigo, na única caridade não comigo”. Coisas semelhantes repete Santo Agostinho em sua epístola aos católicos sobre o testemunho contra os donatistas: “Quem quer que creia, em verdade, que Jesus Cristo, como dito, veio em carne, e na mesma carne, em que nasceu e padeceu, ressuscitou, e que Ele é o Filho de Deus junto de Deus, e um com o Pai, e o imutável e vivo Verbo do Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas; mas, todavia, do seu corpo, que é a Igreja, de tal modo dissentem, que a sua comunhão não seja com todo o corpo, por onde quer que se difunda, mas se encontre em alguma parte separada, é manifesto que não estão na Igreja Católica, nem na via da salvação”.
V. Não menos claramente esta verdade ensina São Fulgêncio no Livro sobre a fé para Pedro Diácono, cap. 38: “Creia firmissimamente, e de modo algum duvides, que não só todos os pagãos, mas também todos os judeus, hereges e cismáticos que terminam a vida presente fora da Igreja Católica irão para o fogo eterno, que está preparado para Satanás e seus anjos”. Igualmente no cap. 39: “Creia firmissimamente, e de modo algum duvides, que qualquer herege ou cismático, batizado em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, se não for agregado à Igreja Católica, por maiores que sejam as esmolas que fizer, e ainda que pela Nome de Cristo também derramar o sangue, de modo algum pode ser salvo. Pois a todo homem que não mantém a unidade da Igreja Católica, nem o Batismo, nem a esmola, por mais copiosa que seja, nem a morte recebida pelo Nome de Cristo poderá aproveitar para a salvação, enquanto nele perseverar a perversidade herética ou cismática, que conduz à morte”.
VI. A razão da asserção posta é também manifesta. Porque somente a Igreja Católica Romana é a verdadeira Igreja. Mas fora da verdadeira Igreja não se encontra salvação alguma, confessando-o todos, até os próprios hereges. Logo, fora da Igreja Católica Romana ninguém pode se salvar. A primeira proposição foi demonstrada alhures. A cabeça dessa Igreja é Cristo, que a governa, irriga e alimenta tanto pelo regime visível do seu Vigário, a saber, o Romano Pontífice, quanto pela graça interior e exterior, como um pastor, o seu rebanho. Ademais, quem aqui na terra está fora do redil, fora do rebanho, ou seja, da Igreja, não tem a Cristo como pastor: porque o pastor não o é senão de um único rebanho. “Haverá um só redil e um só pastor” (Jo 10,16). Quem, porém, aqui não tem a Cristo como pastor, não o terá tampouco como glorificador nos Céus. Costumam-se aduzir vários exemplos das Sagradas Escrituras. Fora da arca de Noé, que prefigurava a Igreja de Cristo, todos pereceram em naufrágio. Também a casa de Raab, na qual escaparam da morte somente os que na mesma foram congregados, perecendo todos os demais, os intérpretes sagrados ensinam ter sido figura da Igreja; e a ela atribuem o que Josué, cap. 2, disse à mulher Raab: “Teu pai, e tua mãe, e teus irmãos, e toda a casa de teu pai recolherás para ti mesma em tua casa; todo aquele que sair pela porta da tua casa para fora será réu de sua própria morte”. Omito muitos outros exemplos tirados tanto do Velho quanto do Novo Testamento, pois são óbvios.
VII. O que foi dito até agora todos concedem de bom grado, mas resta a dificuldade a ser resolvida sobre os hereges que são chamados de materiais. Estes se encontram fora da Igreja Romana; que neles é possível a ignorância invencível de muitos artigos, já foi concedido acima no n. 2. Alcançarão eles a salvação, se com essa ignorância invencível falecerem? Esse nó é certamente tremendo e difícil de desatar. Para que expliquemos tudo claramente e de forma útil, aquilo primeiro deve-se ter por certo, que, conquanto possa acontecer que em alguns sectários a ignorância de certos artigos da fé católica seja invencível, todavia dificilmente isso ocorre na realidade, sobretudo se o discurso é sobre os hereges luteranos e calvinistas. Pois dificilmente se pode encontrar na Germânia, Holanda e outras regiões limítrofes um luterano ou calvinista que nada tenha ouvido sobre a Igreja Romana, visto que os ministros hereges nada mais se esforçam por instilar nas almas do povo do que o ódio contra a Igreja Católica Romana e seu Sumo Pontífice. Pressuposta tal audição, porém, é fácil para esses hereges, por mais rudes e imperitos que sejam, duvidar da falsidade de sua seita. Porventura Deus não lhes confere auxílios suficientes, pelos quais sejam incitados a pensar e a inquirir sobre a verdadeira religião e Igreja? Os adversários ensinam que Deus confere, e não apenas oferece, auxílios suficientes, até mesmo aos cegos e obstinados; e depois, para amplificarem os confins da ignorância invencível, passam por cima desses auxílios. A fé é dom de Deus, cuja obtenção é certamente precedida pela audição das coisas que se devem crer. E como é difícil e raro encontrar alguém dentre os luteranos ou calvinistas a quem a Igreja Romana seja de todo desconhecida, por isso, dificilmente ocorre que algum deles goze do privilégio da ignorância invencível.
VIII. Mas admitamos a hipótese de que, na realidade, se encontrem alguns que, tendo recebido o Batismo e se tornado adultos, crendo na Unidade e na Trindade de Deus, e até em todos os artigos do Símbolo apostólico, sofram de ignorância invencível da Igreja Romana e de seus artigos particulares. Que sentença proferes sobre eles? Serão salvos, ou serão condenados? Respondo que fora da arca, se morrerem, perecerão eternamente, e o asseveram a Escritura, os Concílios e os Padres da Igreja, como eu pelo menos julgo. Mas não estão fora da arca da Igreja Romana, dizes, exceto em corpo e, como dizem, materialmente; pois em espírito e desejo se encontram dentro da Igreja Romana. Se em espírito e desejo anelam pela comunhão da Igreja Romana, sem dúvida nos convém sentir que eles se salvam; assim como dizemos que se salvam aqueles que recebem o Batismo não de fato, por estarem impedidos, mas por voto e desejo. Por isso, se um homem adulto dos luteranos e de qualquer seita, posto nos seus últimos momentos, deseja falecer na comunhão da Igreja Romana e morre contrito, ninguém duvida de que este se salva. Mas nisso reside a dificuldade: se pode acontecer que um luterano, calvinista, etc., que nada absolutamente, nem na vida, nem na morte, pensa sobre a Igreja Romana, mas, sofrendo da ignorância dela, morre aderindo à sua seita, venha a conseguir a salvação. Tu sustentas que é possível ser salvo, pois, estando ele imbuído da luz dos principais Mistérios da fé divina, é-lhe inócua a ignorância dos outros artigos. Exponhamos a coisa mais claramente.
IX. Objeção 1. Um luterano, tingido pelo sagrado lavacro e imbuído do hábito da fé por Deus, tornado adulto, não se mancha por nenhuma culpa grave em toda a sua vida; mas leva uma vida imaculada, isenta de qualquer crime: nunca ouviu nada sobre a Igreja Romana, nem sobre os artigos que nela se creem e morre com a ignorância da mesma; que pronuncias sobre ele?
X. Resposta. Antes de responder diretamente à dificuldade, digo que esse caso é bastante metafísico. Rara, por certo, na terra, é a ovelha de todo branca. Primeiro, portanto, pondera quão vã é a argumentação daqueles que costumam enganar os imperitos, que assim discursam. Imensa é a benignidade de Deus, e infinita a sua misericórdia! Não permitirá, portanto, que pereça aquele povo montanhoso, rude e simples da seita luterana e calvinista, porque aqueles míseros homens em boa consciência creem ser verdadeiras as coisas que ouvem dos seus pastores. Nenhuma contumácia os opõe ao seio da Igreja Romana; pelo contrário, devem ser ditos repousar no seio da Igreja Romana, visto que nada ouviram em nenhuma das duas direções. Cruel, portanto, e tétrica parece a sentença que condena aquele povo rude até o último homem. Serão condenados, certamente, os que perpetram crimes; mas não os inocentes e probos.[1] Quão vã, digo, é tal argumentação, e quão contrária ao Evangelho e, principalmente, à Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos, todos veem. Pois o referido discurso não se apóia nos princípios da lei evangélica, mas em raciocínios humanos e nos sentimentos da natureza que aborrece os suplícios eternos. Isso, porém, mostro de modo evidente. Quantos adultos entre os luteranos (para não dizer entre os católicos) é possível encontrar isentos de toda culpa grave? Tu mesmo concederás que dificilmente um entre mil resplandece com a inocência imaculada do Batismo. Ademais, se aqueles adultos comumente caem em algum crime, com que remédio serão purgados, se carecem da graça medicinal dos sacramentos? São condenados, portanto, se não pelo crime de infidelidade, certamente por outros pecados, que não podem apagar pelo Sacramento da Penitência, que não reconhecem. Têm, dizes, o remédio da contrição perfeita. É verdade, mas além de ser raríssimo e dificílimo que tais homens ardam com contrição perfeita e caridade consumada, sobre essa contrição nem sequer pensam. É claro, portanto, que todos os hereges adultos luteranos e calvinistas que perpetram algum pecado mortal descem ao inferno, visto que por própria culpa não têm ou não querem ter remédio algum com que apaguem o delito cometido, pois sobre a contrição nem sequer pensam. E porque dificilmente em uma província inteira e populosa se encontra algum adulto deles puro de todo crime grave, segue-se que é evidente que comumente todos os hereges, por mais rudes e imperitos que sejam, pagarão penas eternas. O raciocínio, portanto, extraído daquela compaixão humana e da infinita misericórdia, é vão. Pelo que, mesmo admitida a opinião contrária, que sustenta ser possível a salvação de alguns hereges rudes devido ao privilégio da ignorância invencível, a pouquíssimos ou a nenhuns ela aproveita, por falta do remédio com que os crimes perpetrados sejam apagados.
XI. Para que, porém, eu satisfaça diretamente a dificuldade proposta, digo primeiro que o caso proposto inclui coisas contraditórias. Pois contradizem-se estas duas coisas, a saber, que o herege adulto creia nos Mistérios da Trindade e da Encarnação, cuja fé é necessária com necessidade de meio para a salvação, e que ignore a Igreja Romana. Porventura não é comum a sentença dos Teólogos que assevera que os artigos a serem cridos devem ser propostos pela Igreja Católica Romana? Porventura não expuseram comumente os Teólogos a proposição da Igreja como condição necessária para que os artigos sejam cridos com fé divina? Todos os católicos defendem que a fé divina não se encontra nos hereges, porque não creem na Trindade, na Encarnação e nos outros arcanos devido ao testemunho divino proposto pela Igreja. Se, portanto, segundo a sentença comuníssima dos Teólogos, nos hereges não há fé divina alguma por falta de pia afeição e da Igreja proponente, como pode acontecer que algum deles se salve? Porventura alguém chegará ao Paraíso sem a fé da Trindade e da Encarnação? A infidelidade negativa destes artigos em alguns hereges e católicos, nós a admitimos com Santo Tomás. Mas que ninguém se salva sem a fé destes artigos todos nós ensinamos. Daí que Santo Tomás acrescente que o adulto que, ajudado pela graça divina, se abstém de toda culpa e cumpre a lei natural na busca do bem e na fuga do mal, será iluminado por Deus, seja por um homem, seja por um anjo. O mesmo deve ser dito no caso proposto. Se um herege rude e imperito levar uma vida isenta de toda culpa e cumprir a lei do Decálogo, Deus lhe enviará um ministro da Igreja Romana, que em nome da verdadeira Igreja lhe proponha o que é necessário crer. Se isso não ocorre, devemos dizer que o herege rude caiu em algum pecado e se tornou indigno do dom da fé divina.
XII. Objeção 2. Santo Tomás afirma que o infiel negativo será iluminado por Deus por meio de um homem ou de um anjo sobre a fé da Trindade e da Encarnação, porque a fé destes Mistérios é necessária com necessidade de meio. Os hereges materiais de que se trata agora creem na Trindade, na Encarnação e em todos os artigos do Símbolo apostólico. A fé nos Mistérios da Igreja Romana, da transubstanciação, do Purgatório, do culto dos Santos, não é necessária com necessidade de meio para a salvação, pelo que sofrem de uma ignorância inócua dos mesmos. Deve-se dizer, portanto, que eles se salvam.
XIII. Resposta. Pelo que dissemos, a dificuldade está resolvida. Admitimos, como frequentemente concedemos, a ignorância invencível de muitos artigos da Igreja Romana. Mas negamos que sem a autoridade da Igreja Romana proponente se possa ter a fé divina daqueles artigos fundamentais cuja fé é necessária com necessidade de meio. Porque, como foi dito, a autoridade da Igreja proponente é condição necessária para a fé divina.
XIV. Objeção 3. O rude do povo herético crê no seu pastor, que lhe propõe os artigos da Trindade e da Encarnação, assim como o rude católico crê no seu pároco que lhe anuncia esses artigos. Por que a fé do católico é divina, e não essa fé do herege? Ambos ouvem, aquele do seu pároco, este do seu ministro. Tanto o pároco quanto o ministro propõem o que se deve crer em nome da Igreja. Portanto, ou a fé de nenhum dos dois, ou a de ambos deverá ser dita divina.
XV. Resposta. A fé do católico é divina porque o pároco anuncia o que se deve crer em nome da verdadeira Igreja Católica Romana; o ministro luterano propõe os Mistérios em nome da Igreja reformada, separada da católica, por isso a fé de quem ouve e crê não é divina. Mas o rude herege crê que a sua igreja é a verdadeira. Assim é, mas crê falsamente. A mente ainda não se aquieta, nem percebe a distinção da razão, porque a fé do idiota católico que crê no seu pároco que lhe manifesta os artigos é divina, enquanto a fé do idiota herege que crê nos Mistérios divinos a si propostos pelo seu pastor é humana. Para que a tua mente se aquiete de todo, lê os capítulos 9 e 11 da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos, nos quais, explicando este inefável e tremendo mistério, exclama: “Ó abismo das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os seus juízos e investigáveis os seus caminhos!”. Em todo esse capítulo, o Apóstolo narra as vicissitudes dos hebreus e dos gentios no negócio da religião. Mostra a divina bondade para com os gentios e a severidade para com os judeus, que, sendo a oliveira eleita, foram cortados como ramos secos, para que os gentios, cortados do olival selvagem, fossem enxertados na boa oliveira. Dessa mudança, porém, não apresenta outra razão senão os inscrutáveis juízos de Deus. Daí nos exorta a todos a que temamos e submetamos a nossa mente em obséquio à divina Sabedoria. “Tu, porém, estás firme pela fé. Não queiras saber o que é alto; mas teme” (vers. 20).
XVI. Objeção 4. Os filhos dos hereges recebem no Batismo o hábito infuso da fé divina. Feitos adultos, não emitem nenhum ato de infidelidade, porque os artigos que ouvem dos seus pastores, confessam-nos com fé. Não ouvem os artigos da Igreja Romana, e por isso não os refutam. Por que, então, não se salvarão, se tiverem cumprido a lei do Decálogo?
XVII. Resposta. Para a salvação eterna, a fé atual é necessária. Ademais, para que alguém emita atos internos de fé, é necessário que preceda a proposição exterior do que se deve crer. Prudente é o ato da fé divina. Essa proposição, porém, para que seja suficiente para a fé divina, deve ser feita pela Igreja Católica. Essa condição é necessária, como foi mostrado alhures. Não pode, portanto, o idiota herege adulto emitir o ato de fé divina necessário para a salvação, até que lhe sejam propostos os Mistérios a crer em nome da Igreja Católica. Confirma-se, portanto, a nossa conclusão, de que ninguém se salva fora da arca da Igreja Romana.
XVIII. Todavia, porque a coisa é de máxima importância, apraz expor mais claramente de novo a razão principal que aduzi para firmá-la. Na fé divina não se deve olhar apenas para o que se crê, mas principalmente também para que fundamento se crê, o que se observa também em toda fé humana. Pois qual for a razão de crer, tal é a natureza da fé. Se aquela é certa, esta também é certa; falaz esta, se também aquela. Ademais, todas as seitas fora da Igreja Católica apoiam-se em um fundamento falacioso ao crer nos arcanos da fé, o que torno evidente enumerando todas. O turco crê que há um só Deus, porque o Alcorão, que ele julga ter sido escrito por inspiração divina, assim ensina. O que ele crê é verdadeiro, mas a razão de crer é falsa, a qual, por isso, rejeita impiamente muitos Mistérios verdadeiros, como a Trindade, Cristo e os outros arcanos divinos. Os protestantes creem em Deus, na Trindade, na Encarnação, no Símbolo, etc., ou apoiados na autoridade de seus apóstolos, Lutero, Calvino, Zwinglio, Beza e os demais, ou porque por seu próprio juízo privado julgam que essas coisas estão contidas nas Escrituras, ou porque o Espírito Santo, com uma inspiração peculiar, lhes atesta que os referidos Mistérios são verdadeiros. Esses são os fundamentos da fé luterana, calvinista e de outras seitas. Ninguém, porém, não vê que tais fundamentos são falaciosos. E no que diz respeito ao primeiro, quem negaria que Lutero, Calvino, Beza e os outros apóstolos dessa laia puderam enganar-se, e na realidade caíram em erros pútridos e ímpios? Não menos vacilante é a segunda razão de crer. Pois quantas coisas falsas reputamos verdadeiras, e vice-versa, enquanto as medimos por nosso próprio juízo? O terceiro, finalmente, é o mais inepto e ilusório de todos. O Espírito de Deus é um e constante consigo mesmo: as coisas que ensina não são de modo algum contraditórias, mas respira unidade e verdade. Ademais, entre os calvinistas, luteranos, anabatistas, etc., são quase tantos Espíritos Santos quantas as cabeças. Quem poderá enumerar todas as seitas e facções que Lutero, Calvino e Zwinglio geraram? Há quem tenha contado mais de cem. Cada uma se gaba do seu Espírito Santo, embora se contradigam mutuamente e ensinem coisas contrárias. Cada uma, apoiada no testemunho do seu espírito privado, crê que a sua própria religião é a verdadeira. Devem, portanto, confessar ou que o Espírito de Deus luta consigo mesmo e ensina coisas opostas, ou que eles, destituídos do Espírito divino, estão cheios do espírito do erro e da mentira, como São Paulo atesta sobre semelhantes em II Tessalonicenses 2: “Porque não receberam o amor da verdade para se salvarem, por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira”.
XIX. E não há por que responderes que esses sectários não creem por juízo próprio ou por espírito privado, mas apoiados nas divinas Escrituras, que não podem errar. Mais vão que os outros é esse subterfúgio. Certamente as divinas Escrituras não podem errar. Mas deve ser provado que não podem errar os que as leem. Católicos, luteranos, calvinistas, socinianos, anabatistas, quakers e todas as outras seitas leem as Escrituras; cada qual afirma tenazmente que a Escritura está do seu lado; e, no entanto, como uma só é a verdade, consta claramente que a Escritura só pode favorecer a um. Os católicos entendem o sentido da Escritura segundo a interpretação da Igreja, a quem o Espírito de Deus assiste, pelo que não há entre eles nenhuma divisão, nenhuma oposição naquelas coisas que são da fé; todos sentem exatamente a mesma coisa. Todas as outras seitas medem o sentido das Escrituras pelo seu próprio juízo, e dão fé aos Mistérios nelas contidos, precedendo a sua própria razão. Por isso, tantas facções quantas as cabeças: nenhuma unidade, nenhuma fé. Pois quem falta em um, tornou-se réu de todos.
XX. Essa manifesta multidão de seitas sob os estandartes de Lutero, Calvino, Socino e outros heresiarcas por si só deveria bastar para provar a sua falsidade. Pois sectários desse tipo, professando a Cristo e a lei divina, não obstante, no intervalo de um único século separados da Igreja Católica constam de quase tantas seitas quantas famílias. Uma condena a outra, e todas se conflitam mutuamente. O que, certamente, por um argumento claro e lucidíssimo, mostra que o espírito do erro e da mentira lhes infatua a mente, lhes inficiona o ânimo com a perversidade e lhes tira toda a razão no negócio da religião. E isso é tanto mais admirável quanto são mais eruditos e doutos que todos os outros infiéis. Mas quanto mais agudos para as coisas vãs, tanto mais obtusos são para as divinas. Os povos infiéis, como turcos, judeus e os demais, creem nos arcanos da sua própria religião por causa da autoridade ou do Alcorão, ou da Escritura, proposta pela interpretação de seus doutores. Os turcos prestam suma fé a Maomé, e os judeus plebeus aos seus rabinos. Pelo que a regra de crer desses é menos falaz e prefere o que é mais consentâneo com a razão. Os nossos inovadores, dotados de doutrina mais seleta e imbuídos de luz mais esplêndida, não magnificam tanto o seu Lutero, Calvino, Zwinglio e Melanchthon, a ponto de considerarem uma obrigação religiosa dissentir deles. Homens também eles são, dizem; logo, mentirosos. E se os mestres são mentirosos, porventura os discípulos serão verazes? Como, pois, são guiados no assentimento da fé ou pelo juízo dos mestres, ou pelo próprio, é evidente que são possuídos pelo espírito da mentira e da inconstância. E são tanto menos dignos de escusa quanto se sobressaem aos outros em luz e doutrina. De todas essas coisas se deduz que nenhuma fé divina resplandece entre eles, porque toda a razão de crer é falaz, vã e enganadora. E, na verdade, se não estivessem de todo cegos e arrebatados pelo furor de Satanás contra os católicos, logo depreenderiam que aquele espírito que tagarelam sentir interiormente não é o Espírito de Deus, mas do demônio.
XXI. Acresce: se aqueles que confessam a Cristo e seus principais dogmas pudessem se proteger com o escudo da ignorância invencível e alcançar a salvação eterna, por que tanta dissensão entre as religiões? Por que se afligem, se dilaceram e se condenam com anátemas mútuos? Por que os luteranos perseguem os calvinistas? Por que os calvinistas se recusam a aderir aos luteranos? Por fim, se o subterfúgio da ignorância invencível valesse, seriam supérfluos tantos trabalhos na conversão deles, supérfluas as pregações e aquelas máximas solicitudes que a Igreja Católica emprega para reconduzir ao redil de Cristo as ovelhas errantes. Firme e certa, portanto, parece a nossa sentença, que nenhum dos adultos que morre fora da Igreja Romana e adere à sua própria seita pode se salvar. Morre, na verdade, fora da Igreja Romana aquele que não a reconhece expressamente como verdadeira mãe e mestra.
XXII. Objeção 5. Fora da Igreja Católica Romana encontra-se o verdadeiro Batismo, pelo qual os infantes tingidos são regenerados para Cristo. Logo, outras Igrejas separadas da Católica Romana regeneram filhos dignos da glória eterna. Se geram, logo são esposas; se esposas, logo estão unidas ao eterno esposo Cristo. Se outras Igrejas separadas, ou seus ministros, conferem o verdadeiro Batismo, por que não poderão também propor os Mistérios divinos a serem cridos como ministros da Igreja?
XXIII. Resposta. Esse sofisma vão, oposto a si em vários lugares pelos donatistas, Santo Agostinho o explode, sobretudo no Livro sobre o Batismo, I, cap. 14 e 15: “Em vão, portanto, nos dizem: ‘Se aceitais o nosso Batismo, que ao menos temos nós, para que julgueis dever consultar-nos sobre a vossa comunhão?’. Respondemos, pois: Nós aceitamos o vosso Batismo, porque não é o Batismo de hereges ou cismáticos, mas de Deus e da Igreja, onde quer que seja encontrado e para onde quer que seja transladado. Vosso, porém, não é senão o que sentis perversamente, e agis sacrilegamente, e impiamente vos separais. (…) A Igreja, por certo, gera a todos pelo Batismo, seja junto de si, isto é, de seu útero; seja fora de si, da semente de seu esposo, seja de si, seja da serva. Mas também Esaú, nascido da esposa, por causa da discórdia fraterna foi separado do povo de Deus”. Coisas semelhantes [Agostinho] mantém no cap. 10: “Mas parecem a si mesmos perguntar argutissimamente se o Batismo de Cristo gera ou não gera filhos na facção de Donato (de Lutero, Calvino, Zwinglio, etc.): para que, se consentirmos que gera, afirmem que a mãe que pôde gerar filhos do Batismo de Cristo é a sua Igreja; e como é preciso que a Igreja seja una, a partir disso já nos acusem de que a nossa não é a Igreja. Se, porém, dissermos: ‘Não gera’, dizem eles: ‘Por que, então, entre vós não renascem pelo Batismo quando passam de nós para vós, tendo sido batizados entre nós, se ainda não nasceram?’. Como se verdadeiramente [a facção] gerasse a partir daquilo de que está separada, e não daquilo a que está unida. Pois está separada do vínculo da caridade e da paz; mas está unida no único Batismo. (…) Pois não é a separação deles que gera, mas o que retiveram consigo vindo dela [da Igreja]. E se também disso abrirem mão, de modo algum geram. (…) Portanto, ela mesma [a Igreja Católica] gera tanto por seu útero, quanto pelos úteros das servas, dos mesmos sacramentos, como que da semente de seu esposo”. O Sacramento do Batismo confere a graça por sua natureza, pelo que os ministros hereges o distribuem como tesouro da Igreja Católica, embora, como ensina Santo Agostinho no Livro I sobre o Batismo, cap. 11 e seguintes, pequem ao administrá-lo na heresia e no cisma. Os dons de Deus não são manchados pela heresia deles; mas são eles mesmos que se inficionam, ao tratarem indignamente os Mistérios divinos. Daí se vê quão fútil é a argumentação feita acima — “os ministros heréticos conferem o Batismo; logo, também têm autoridade com que possam tornar críveis ao povo os Mistérios da fé”. Pois se estão cortados e separados da Igreja, carecem também de toda autoridade. De nenhum modo, portanto, pode acontecer que, como ministros da Igreja Católica, proponham ao povo os artigos da fé a serem cridos.
XXIV. Fora da Igreja Católica Romana os infantes lavados pela água lustral salvam-se, se antes de serem ilustrados pela luz da razão, morrerem. Tão logo, porém, alcançam o uso da razão, perdem a graça? Por que ousas penetrar esses arcanos conhecidos somente por Deus? Esse momento nos é oculto. Isto nos ensinam as Sagradas Escrituras, os Padres e os Concílios: que todos os adultos separados da Igreja Romana e aderentes à sua própria seita calvinista, luterana, sociniana, fociana, etc., estão fora da arca da salvação e, a não ser que a ela retornem, serão eternamente perdidos. Os hereges adultos que recebem o Batismo não recebem a graça, sendo impedidos pela heresia com que estão poluídos. Ninguém, então, novamente exclamam, dos adultos entre os hereges se salvará? Absolutamente ninguém, a não ser que retorne para dentro da arca. Retorna, dizes, em espírito, embora não em corpo. Se retorna em espírito e o resto estiver presente, sem dúvida se salva. Mas nunca retorna em espírito enquanto estiver unido em espírito a alguma seita, seja luterana, seja calvinista, separada da Igreja Romana, a não ser que queiras que alguém possa servir a dois senhores e estar unido a duas esposas. Aderem, novamente replicas, muitos à Igreja Luterana com conhecimento expresso, reputando-a a verdadeira Igreja; aderem simultaneamente à Igreja Romana por meio da ignorância invencível de que sofrem. Esses são comentários arbitrários e vãos. Os Santos Padres que tratam ex professo desse argumento não fizeram menção dessa ignorância insuperável em nenhum lugar, em virtude da qual os hereges adultos pudessem se salvar fora da Igreja. Mas que proveito colherias, mesmo que eu concedesse ser possível o caso em que algum adulto fora da Igreja sofra de ignorância invencível por algum tempo, e esteja imune do vício do cisma e da heresia? Tal evento raríssimo preencheria aquele teu amplo desejo de multiplicar os eleitos? Reputas a nossa sentença excessivamente cruel. Porventura ela se torna benigna e consentânea com a tua compaixão humana, por causa de um ou outro caso extremamente raro? É cruel e desumana a nossa doutrina? Cruel é, então, a doutrina que ensina serem condenados todos os filhos de católicos que morrem sem Batismo, todos os infiéis, todos os judeus, todos os idólatras, todos os hereges formais, cismáticos, todos os católicos manchados de crimes, a não ser que se arrependam. Acusas de crueldade essa doutrina?
XXV. Mas ouçamos enfim esses casuístas que, com Caramuel na Theologia fundamentali, n. 1338, 1341, 1348, assim caramuelizam. As palavras são de Caramuel. “Presidia o Padre João de Ionghe, varão doutíssimo, e, recorrendo à ignorância insuperável, pronunciou que Cornélio Jansênio errara materialmente. Então eu ponderei tal resposta, e agora a resumo. Assim digo: (Cornélio Jansênio foi professor primário de Teologia em Lovaina, e, no entanto, ignorou insuperavelmente que eram hereges muitas proposições que são condenadas em seus próprios termos pelo Concílio de Trento. Logo, nenhum rústico, nenhuma mulher, nenhum cortesão, nenhum mecânico, nenhum jurista, nenhum médico é formalmente herege, porque nenhum destes é tão douto em teologia quanto Jansênio foi, ou deveria ser. Logo, pouquíssimos ou nenhuns pregadores são hereges formais, porque nenhum, ou pouquíssimos, é tão douto em teologia quanto Jansênio). O Presidente admitiu que há na Europa muitos hereges materiais, o que todos os doutos dizem e a experiência claramente demonstra”. Até aqui Caramuel, que nos números citados, e também no n. 1351 e seguintes, ajunta muitas coisas para aumentar a turba dos hereges materiais, sob a qual inclui também Jansênio.
XXVI. A que tende essa cavilação de Caramuel, não é necessário que eu declare com mais palavras. Aberta essa porta, qualquer um poderá licitamente perseverar em sua seita, convencido por uma opinião provável sobre a sua verdade. Tu consideras que os luteranos, calvinistas, socinianos, focianos, rústicos e montanheses são hereges e cismáticos materiais, ainda que, enganados por seus pastores, detestem a Igreja Romana? Por que, então, com maior razão, não classificas como hereges materiais os próprios pastores? Estes, como Jurieu atesta sobre si mesmo, derramam humildes preces a Deus, para que lhes conceda a luz necessária para alcançar a verdade; empreendem um esforço diligente para poder discernir qual é a verdadeira Igreja, qual é a verdadeira fé. Depois de derramadas as preces, depois de um estudo árduo, estão convictos não por persuasão provável, nem mais provável, mas certa, de que a Igreja dos reformados é a verdadeira? Mil vezes te jurarão que não são atormentados por nenhum escrúpulo ou remorso de consciência; acrescentarão costumes incorruptos, o exercício dos deveres morais. Que dizes a isto? Por que estes são formais, e os rústicos, materiais? E o fato de que os homens rústicos e montanheses não podem repelir a própria ignorância, visto que carecem de erudição literária? E o fato de que os pastores eruditos e doutos julgam com certeza que a Igreja Luterana é a verdadeira? De boa fé, portanto, esses pastores acendem no seu povo o ódio contra a Igreja Romana, assim como, segundo tu, de boa fé o próprio povo é enganado por seus pastores. Logo, tanto os pastores quanto os povos serão hereges materiais. Por que afirmas que os pastores são obstinados, mas não os rústicos imbuídos de fé pelos pastores, ao que parece, de boa fé?
XXVII. Por fim, insisto contigo. Entre tantas religiões que há no mundo, não pode acontecer que mais de uma seja verdadeira. Esta, porém, é a católica. Falsa, portanto, a religião luterana; falsa a religião calvinista, sociniana, etc. Deve-se dizer, portanto, uma de duas coisas: ou que cada um se salva na sua religião, ou que todos fora da verdadeira religião se perdem. Uma só religião verdadeira, uma só Igreja verdadeira. Logo, assim como ninguém, a não ser na verdadeira religião, assim também ninguém, a não ser na verdadeira Igreja, pode ser salvo. Novamente me objetarão que os plebeus luteranos, calvinistas, etc., estão em espírito tanto na verdadeira religião quanto na verdadeira Igreja, pois conservam a fé que receberam no Batismo, porque ignoram invencivelmente que a religião católica romana é a verdadeira. Muito bem. Todos os hereges adultos devem professar alguma religião, ou nenhuma. Se nenhuma, cessa toda a discórdia. Se alguma, ou a verdadeira católica, ou a falsa luterana, calvinista, etc. “Professam”, dizem, “expressa e firmemente a luterana, a calvinista, etc., porém, ao mesmo tempo, em espírito, por estarem imbuídos de ignorância invencível, professam a religião romana”. Fora com tais invenções monstruosas! Professam, então, esses homens duas religiões mutuamente conflitantes? Por que não poderiam, com maior razão, os indianos, japoneses, chineses, turcos e todos os outros tanto aderir firmemente à sua própria Igreja, quanto, pelo privilégio da ignorância invencível, professar a Igreja Romana? “Mas eles carecem do Batismo, e o Batismo, porém, é necessário com necessidade de meio”. Pois bem. Mas também a profissão da verdadeira religião é necessária com necessidade de meio; logo, a razão de ambos é a mesma. O Batismo salva os infantes que morrem; quanto aos adultos, é a porta para entrar na arca. Ou, então, feitos adultos, entram na arca da Igreja Romana, ou não. Se o primeiro, não há contenda; se o segundo, perecem em naufrágio, porque para estes o Batismo não foi de fato a porta de entrada na arca. Se a razão natural devesse ser consultada, pareceriam mais escusáveis os japoneses, indianos, etíopes e inumeráveis nações bárbaras do que os rústicos luteranos, calvinistas e demais hereges europeus, que estão junto às portas da arca e quase a tocam com o dedo.
XXVIII. Daí colige quão laxa é a opinião do Padre Busembaum, Lib. II, cap. IV, dub. 3, n. 5, onde diz o seguinte: “Os rústicos e outros homens mais simples na Germânia, que são tidos por heréticos e, no entanto, não são pertinazes, podem ser absolvidos por seus párocos. A razão é que não são hereges formais, e têm a fé católica recebida no batismo, a qual não se perde, a não ser errando pertinazmente”. Louva, por essa opinião, a Paul Laymann, S.J. Mais laxa ainda é a doutrina do Padre Claude La Croix, que diz no lugar citado, n. 94: “Parece mais provável que também na Germânia haja hereges apenas materiais. Pois encontram-se alguns tão simples, ou prevenidos pela doutrina de seus ministros, que firmemente julgam não dever duvidar de sua fé, e ao mesmo tempo procedem com tal sinceridade em sua consciência, que se soubessem que sua fé é falsa, imediatamente admitiriam a nossa. Tais, porém, não são hereges formais, mas apenas materiais. E que tais sejam muitos, atestam muitíssimos confessores na Germânia e autores experientíssimos: Tanner, tomo III, distinção 1, questão VII, n. 10; Terillus, nas Regulae morales, questão LXIV, n. 51; Gobat, tratado VII, n. 621; Reiffenstuel, tomo IV, distinção IV, questão 11; Sporer, tomo II, capítulo III, seção II, §2, n. 14; Vindiciae Gobatiana, parte II, proposição III”.
XXIX. Se a doutrina recenseada se sustenta, então estará tudo acabado para a verdadeira Igreja e a verdadeira religião. Posta essa doutrina, quem é que não possa ser salvo em qualquer seita? Os hereges na Germânia são apenas materiais. E por quê? Porque estão tão prevenidos pela doutrina de seus ministros, que firmemente julgam não dever duvidar de sua fé. Ora! Então, quanto mais obstinados são os hereges, tanto mais materiais serão? Mas examinemos as palavras que se seguem: “Se soubessem que a sua fé é falsa, imediatamente admitiriam a nossa. Tais, porém, não são heréticos formais, mas materiais”. De todos os que professam alguma religião, julgo que dificilmente se encontrará um, a não ser o mais tolo, que, se soubesse que a sua fé é falsa, não admitiria a nossa. Todos os hereges, portanto, comumente serão materiais. Todos os pastores, sejam luteranos, sejam calvinistas, se soubessem que a sua religião é falsa, quem diria que não abraçariam a nossa, abjurada a falsa? Admitida a doutrina do Padre La Croix, é verdade o que ele acrescenta, a saber, que tais são muitos, e até quase todos, a não ser que sejam ou ateus ou completamente dementes. Que depois muitíssimos confessores na Germânia, e autores experientíssimos como Tanner, Terillus, Gobat, Sporer, Reiffenstuel, Caramuel e outros atestem esse fato, não deve ser de se admirar. Admirável seria se não o ensinassem.
XXX. A esse ponto de males arrasta a doutrina do probabilismo. Os hereges não experimentam nenhuma dúvida, não sentem nenhum remorso de consciência, não advertem que a sua própria religião é falsa; logo, não pecam; logo, são hereges materiais. Tais são os axiomas do probabilismo. E tais são os consectários necessários. Logo, não há no mundo pecado de obstinação, não há no mundo pecado de cegueira, não há pecado de ignorância. Pois os que sabem ou duvidam que a ação é má não perpetram crime de ignorância, mas de malícia. Se Ário, se Nestório, se Lutero, se Calvino, se todos os heresiarcas soubessem que a sua doutrina era falsa, e a nossa verdadeira, teriam sido, em mente, heresiarcas?
XXXI. Que, porém, muitos heréticos na Germânia sejam simples e procedam sinceramente em sua consciência, que se segue daí? Muitíssimos turcos, indianos, japoneses, chineses agem sinceramente e exercem muitos ofícios de piedade. Supõe também que eles enfrentem a morte pela confissão de Cristo. Todos esses são dons de Deus, diz o Santo Padre Agostinho, no citado Livro sobre a paciência, cap. 28. Mas são dons que se dão aos filhos das concubinas, diferentemente daqueles dons que se dão aos filhos da esposa, ou da mãe Jerusalém. “Portanto, assim como não se deve negar que também isto seja um dom de Deus, assim deve-se entender que outros são os dons de Deus para os filhos daquela Jerusalém que está no alto, que é livre, nossa mãe. (…) Outros, porém, os que podem receber também os filhos das concubinas, aos quais são comparados os judeus carnais e os cismáticos ou hereges”. Deixando, pois, de lado os comentários arbitrários dos casuístas, deve-se aderir à doutrina dos Santos Padres. Estes, por certo, são os nossos mestres, estes os guias no caminho da salvação, a nós dados por um Deus clementíssimo. Os casuístas mais jovens, assim como isentam os cristãos quase por toda a vida do preceito da caridade que por si obriga, do preceito da fé e do preceito da religião, assim também conduzem ao porto da salvação eterna os que estão fora da arca, através do dilúvio, no barquinho da ignorância invencível. Tal opinião oposta, eu a considero não apenas improvável, mas também a fonte de todos os erros, sobretudo do tolerantismo e do indiferentismo.
[1] Concina escreve até aqui em discurso indireto. (N.T.)
