O MARTÍRIO DE SÃO PEDRO DE ARBUÉS
Urbano Gascón y Guimbao (†1868)
Fonte: Historia de la vida, martirio, culto y milagros del glorioso mártir San Pedro de Arbués, primer inquisidor del reino de Aragón, p. 51–71. Madrid, 1868.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Extrato da hagiografia de São Pedro de Arbués, C.R.S.A. (1441–1485), primeiro inquisidor do reino de Aragão. A narrativa descreve a conspiração de cripto-judeus em Saragoça contra o tribunal da Inquisição, culminando no plano de assassiná-lo. Após tentativas frustradas de extinguir o tribunal junto à corte e a Roma, o grupo contrata Juan de la Abadía e cúmplices para executarem o atentado. A emboscada concretiza-se na catedral de La Seo durante as matinas, ferindo mortalmente o santo mártir enquanto este celebrava o ofício divino. O crime desencadeia violenta revolta popular contra os conversos, contida pelo Arcebispo, seguida pela rápida captura e punição dos assassinos. São Pedro sobrevive por dois dias, perdoa seus agressores e morre serenamente, recebendo solenes funerais de mártir sob grande consternação popular.
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CAPÍTULO PRIMEIRO
Os inimigos da Inquisição atentam contra a vida de Pedro
Estabelecido o Tribunal da Inquisição em Saragoça, descobriram-se muitas cumplicidades de judaizantes que, sob o nome suposto de cristãos, viviam entre os verdadeiros fiéis, observando ocultamente seus ritos supersticiosos e cerimônias reprováveis; de modo que, instaurados os processos correspondentes, ocorreram inúmeras prisões e castigos. Profundamente irritados, os inimigos da Igreja, ao verem que, sob a vigilância da Inquisição, não podiam continuar com seu perverso modo de vida, puseram em jogo toda a sua influência para que o Tribunal desaparecesse, chegando sua ousada presunção ao ponto de procurar remédio em Roma e na corte, então estabelecida em Córdoba, enviando embaixadores que ofereceram aos Reis Católicos grandes somas para auxiliar na guerra então empreendida contra os mouros de Granada.
Inúteis e inteiramente infrutíferas se mostraram tais diligências; vendo, portanto, os malfeitores que por tais meios não podiam alcançar seu intento, trataram de desferir um golpe capaz de intimidar os partidários do Santo Ofício; e tem-se por certo que teriam começado o escarmento pelo assessor do Tribunal, D. Martín de La Raga, a quem encontraram certa tarde passeando perto do rio, não estivesse ele acompanhado do governador, López Jiménez de Urrea, e de D. Felipe de Castro, que puderam impedir o atentado. O falecimento de Frei Gaspar Iuglar, ocorrido nos primeiros meses de 1485, fez com que Pedro permanecesse como único inquisidor em Aragão; assim, fazendo dele o alvo de sua fúria, os inimigos da Religião dirigiam contra ele todos os seus ataques.
A principal conspiração que organizaram deu-se na casa de um certo Luis de Santo Ángel. Dela participaram Jaime Montesa; Juan de Pedro Sánchez, irmão de Pedro Sánchez, outrora tesoureiro do Rei Católico; Gaspar de Santa Cruz, mercador; García de Moros; Francisco de Santa Fe; Alonso Sánchez; Pedro de Almazán; Domingo Canoja, que, embora fosse cristão, estava casado com uma filha de Pedro de Almazán, converso judaizante; e muitos outros cujos nomes não chegaram até nós.
Agrupados todos ao redor de uma mesa rústica, escutavam com profunda atenção tudo quanto lhes dizia um dos mais velhos. Este, que era rabino e um dos mais comprometidos na conspiração formada contra o novo Tribunal, expôs aos presentes os castigos que haviam sido impostos à maior parte deles e os processos que diariamente eram instaurados contra seus parentes e amigos, dizendo-lhes que, já que haviam sido infrutíferas as diligências feitas na corte para fazer desaparecer a Inquisição, era necessário tomar uma resolução pronta e enérgica, dando morte ao Mestre de Épila[1] e a todos quantos, depois dele, se atrevessem a ocupar seu posto.
Um murmúrio de aprovação seguiu-se a tão terríveis palavras, e, falando-lhes novamente o chefe da facção, advertiu-os de que, embora os inquisidores estivessem muito alertas desde o ocorrido com o assessor La Raga junto ao rio, e fosse forçoso enfrentar mil perigos para assassinar o Mestre, não faltaria quem se dispusesse a dar cumprimento aos seus desejos, visto que ainda lhes restavam quinhentos florins depois de pagos dez mil soldos pelas proteções que haviam comprado sem proveito algum. Todos juraram contribuir com todos os meios de que dispusessem para levar a cabo seu propósito, e nomearam como depositários do dinheiro que possuíam e encarregados de contratar assassinos Juan de Pedro Sánchez, Jaime Montesa e Gaspar de Santa Fe, hereges.
Consta também que mais tarde voltaram a reunir-se na mesma casa de Santo Ángel. Cerca de um mês antes de ser perpetrado o assassinato, Juan de Esperandeo, Mateo Ram e Juan de Pedro Sánchez reuniram-se na casa de Montesa; e, quinze dias antes, na casa deste último. Alguns autores afirmam que nesse dia um certo Juan de la Abadía foi contratado na casa de Montesa; outros dizem que Abadía já pertencia ao grupo dos conspiradores. Seja como for, o certo — e nisso todos concordam — é que Juan de la Abadía se ofereceu para consumar o assassinato, contanto que lhe pagassem a quantia prometida; pois, sendo homem facínora, estava acostumado a manchar as mãos com sangue humano pelos homicídios que havia cometido. Uma decisão tão sanguinária e sujeita às mais funestas consequências teria intimidado o homem mais temerário; mas em Juan de la Abadía todos os temores se dissiparam pela força do interesse, ao qual se somava um amargo ressentimento que dominava seu coração. Pouco tempo antes, o Santo Tribunal havia aplicado um castigo exemplar a uma irmã sua, acusada dos delitos mais atrozes e vergonhosos, condenando-a ao último suplício; de modo que, desejando vingar a morte da irmã, que considerava injusta, e apresentando-se-lhe a satisfação de seus desejos revestida dos atrativos do interesse próprio, não hesitou em encarregar-se do assassinato planejado, buscando a ocasião mais oportuna para executá-lo.
Uma vez formalmente comprometido, Juan de la Abadía foi em busca de um comparsa seu não menos célebre por suas más ações, chamado Juan de Esperandeo, e ambos, de comum acordo, procuraram homens resolutos que os ajudassem, pois, como os inquisidores estavam muito prevenidos, temiam desferir um golpe em vão. Vidal Duranzo, criado de Esperandeo, encarregou-se da missão e encontrou os quatro homens mais apropriados para o caso: Mateo Ram, Tristán de Leonis (conhecido como Tristanico), Bernardo Leofanto e Antonio Gran, aos quais Abadía deu as instruções que considerou convenientes ao sanguinário plano para o qual os havia procurado.
Desejosos de não faltar à escrupulosa exatidão das notícias que chegaram ao nosso conhecimento por meios muito fidedignos, faremos constar que, seis dias antes do martírio, vários conspiradores se reuniram na casa de Pedro de Almazán; quatro dias antes, na igreja de Nossa Senhora do Portillo; e, na tarde desse mesmo dia e no dia seguinte, na igreja do Templo; e, um dia antes, na casa de Jaime Montesa, onde ficou estabelecida a ordem que deveria ser seguida para cometer o assassinato com todo o segredo possível.
CAPÍTULO SEGUNDO
Martírio de Pedro
Os judeus não puderam tomar suas determinações com tamanho segredo que delas não transparecesse alguma coisa; assim, alguns amigos de Pedro, tendo delas notícia e sabendo quanto sua vida importava à Religião e o perigo iminente em que se encontrava, foram prestar-lhe contas de tudo, persuadindo-o a cuidar mais de si mesmo. Mas o bem-aventurado inquisidor, continuando seus trabalhos com o mesmo zelo, respondia com grande tranquilidade de espírito a todos quantos lhe anunciavam o perigo: Que muito pouco se importava com todas as maquinações que a perfídia dos apóstatas pudesse intentar contra sua vida; que nada trazia mais profundamente gravado no coração do que a honra de Deus e a pureza da doutrina da Igreja; e que, finalmente, se Deus lhe concedesse tão grande misericórdia que houvesse de ser a vítima sacrificada ao ódio dos infiéis em defesa da fé, suplicava a Nosso Senhor Jesus Cristo que, de um mau sacerdote que era, se dignasse fazer dele um bom mártir, pois não desejava outra coisa. As obras confirmaram essa resposta, digna da fortaleza de um peito cristão, pois continuava a empenhar-se com ainda maior atividade nas funções de seu cargo e pedia a Deus que abrisse os olhos daqueles que maquinavam contra sua vida, fazendo-os conhecer as adoráveis verdades da Religião cristã. Seu coração não deixava de anunciar-lhe que seu fim estava muito próximo; dessa forma, preparava-se, com orações fervorosas, jejuns redobrados e penitências, para aguardar o término de sua vida.
Tão cobiçosos estavam Juan de la Abadía e os demais cúmplices da recompensa que lhes fôra oferecida que, muito antes de encontrarem ocasião propícia para isso, tentaram assassinar o Santo em sua própria cama certa noite. Para esse fim, começaram a arrancar uma grade que dava para a rua chamada do Prior. Sem dúvida, o Senhor havia disposto que a morte de seu servo se desse em lugar mais conveniente para o sacrifício, pois os moradores da casa despertaram com os ruídos e os malfeitores fugiram apressados, sem conseguir seu intento naquela ocasião, nem pouco depois, quando penetraram na igreja à hora das matinas para ver se conseguiam encontrar a vítima que haviam escolhido.
Chegou a noite de 14 para 15 de setembro de 1485, quando, pouco depois de soarem as doze, Abadía e os seus se achavam reunidos com a intenção de desferir o golpe planejado. Em um curioso e mui fidedigno manuscrito que conseguimos adquirir, extraído do processo instaurado contra os assassinos, diz-se que, na referida noite de 14 para 15, Esperandeo foi à casa de Abadía entre as onze e as doze da noite e, encontrando-o adormecido, despertou-o, dizendo-lhe:
— A que horas vos deitastes, para que ainda estejais na cama?
— Uma hora depois de anoitecer — respondeu Abadía, erguendo-se.
— Pois vamos, que a hora está passando.
E foram à casa de Mateo Ram, onde este os aguardava na companhia de Vidal Duranzo, criado de Esperandeo; Tristanico, que era criado de Ram; Bernardo Leofanto; Antonio Gran; e outros três mascarados, cuja identidade não se pôde descobrir. Todos juntos dirigiram-se então a La Seo.
As matinas já haviam começado, e nosso glorioso Santo, trajado de cônego, entrara na igreja com seu breviário na mão e uma lanterna acesa, como de costume, achando-se de joelhos junto à coluna onde hoje fica o púlpito do lado da epístola.
Os primeiros a entrar no recinto sagrado foram Ram, Esperandeo, Vidal e Tristanico, ficando Abadía à porta com os demais; mas este, vendo que demoravam muito a sair, resolveu entrar também para ver o que acontecia e, encontrando os primeiros muito próximos do Santo, sem contudo se atreverem a desferir o golpe, aproximou-se de Vidal e lhe disse: “Golpeia, traidor, que é esse”. Vidal descarregou então sobre ele tão terrível golpe de espada no pescoço que lhe cortou as veias jugulares, prolongando-se a ferida pela barba até perto da boca. Depois Esperandeo deu-lhe uma estocada que lhe atravessou o braço e, quando levava a mão a um punhal para degolá-lo, então o verdadeiramente GLORIOSO MÁRTIR exclamou: “Louvado seja Jesus Cristo, pois morro por sua santa fé”. Essas palavras fizeram Esperandeo desistir de reiterar ou repetir o sacrilégio. Os assassinos ficaram tão perturbados e horrorizados com seu próprio delito que não teriam conseguido sair do templo se aqueles que aguardavam à porta, percebendo o que acontecia, não tivessem entrado para retirá-los aos empurrões. O próprio Vidal confessou posteriormente em seus depoimentos que tão grande foi o tremor que o acometeu que durante muito tempo não conseguiu encontrar a saída da igreja, chegando a bater a cabeça com tamanha força que lhe caiu a cervilheira, ou barrete, que trazia.
No momento em que nosso Santo recebeu o primeiro ferimento, estava pronunciando as palavras da saudação angélica: “Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”; e no coro cantava-se o versículo “Quadraginta” do invitatório, no qual se manifesta a pérfida obstinação dos judeus, onde diz Davi, ao falar pela voz do Eterno Senhor no Salmo 94: “Durante quarenta anos sustentei com milagres e defendi com prodígios esta depravada geração dos judeus, e sempre disse que erravam com pertinácia em seu coração, porque não quiseram conhecer os caminhos de sua salvação; e por isso jurei que não entrariam na terra prometida, nem possuiriam os bens eternos”. Sem dúvida, a disposição divina quis providenciar não somente a conveniência do lugar, mas também a do tempo, visto que o versículo então entoado não poderia ser mais adequado à sangrenta cena que se desenrolava no templo.
Os cônegos que estavam no coro, alarmados pelo ruído feito pelos que fugiam, acorreram e encontraram o Santo que, banhado em seu próprio sangue, preocupava-se mais em dar graças a Deus por lhe haver concedido o favor de oferecer-lhe em sacrifício a própria vida do que com a conservação dessa mesma vida; e suspendendo o Ofício divino por causa da efusão de sangue, levaram-no para seu quarto, manifestando-lhe entre lágrimas a profunda dor que lhes causava sua trágica e prematura morte. O Santo, cheio de tranquilidade, consolava a todos, persuadindo-os a não lamentarem o fim de sua vida, que era inevitável, mas a chorarem o horrendo delito dos inimigos da fé e, muito mais ainda, sua rebeldia e pertinácia. Chamados imediatamente dois reputados médicos para tratá-lo, declararam que os ferimentos eram letais e que a ciência não dispunha de recurso algum capaz de conservar vida tão preciosa.
CAPÍTULO TERCEIRO
Tumulto ocorrido em Saragoça contra os agressores
Como a notícia de qualquer acontecimento notável percorre sempre, por uma espécie de misteriosa eletricidade, todos os lugares, os ferimentos sofridos por nosso Santo mártir chegaram tão depressa aos ouvidos do povo verdadeiramente católico da capital de Aragão que, apesar de ser uma hora tão imprópria como as duas da madrugada, este se alvoroçou de tal maneira que, uns para conhecer a verdade e outros para saber as circunstâncias do delito, todos abandonaram o leito e se lançaram às ruas, reunindo-se na praça de La Seo e concordando que semelhante crime não podia ter sido cometido senão pelos conversos. Todos clamavam aos céus por vingança, pedindo justiça contra aqueles que haviam derramado o sangue de seu melhor amigo, pai e benfeitor; e, aos gritos de “Fogo aos conversos, que mataram o Mestre de Épila!”, intentaram acabar com eles, incendiando-lhes as casas; e o teriam levado a cabo antes do amanhecer se, compreendendo a gravidade do caso, o jovem Arcebispo de Saragoça e então Vice-Rei do reino, D. Alfonso de Aragón, filho natural do Rei e varão sumamente querido e venerado por seus dons especiais e, sobretudo, por sua caridade, não tivesse saído imediatamente a cavalo para percorrer todas as ruas, refreando o povo com sua amabilidade e eficazes persuasões, e prometendo que o castigo dos culpados seria tão pronto e exemplar quanto o caso exigia. Embora, porém, a imponente figura do Vice-Rei e suas promessas tivessem alterado profundamente o ânimo dos amotinados, não se pôde evitar que alguns deles fizessem justiça pelas próprias mãos.
Tampouco permitiu a vontade de Deus que a morte de seu glorioso servo ficasse impune por muito tempo, pois se pode dizer que os próprios culpados foram seus próprios delatores, tornando público seu sacrilégio pela perturbação que todos experimentaram, não somente dentro da igreja, da qual não conseguiram sair sem ajuda, como já dissemos, mas também fora dela. Em vão tentaram várias vezes fugir pelo caminho da França, pois a confusão que se apoderou de suas cabeças não lhes permitiu dar sequer um passo para longe da cidade, como se o céu houvesse tomado para si o castigo de tão horrendo crime. Aprendam com este caso aqueles que imaginam que neste mundo possa haver culpas sem castigo, desde que, ao cometê-las, se afastem dos olhos dos homens! Miseráveis e mil vezes desgraçados os que assim acreditam, pois, com tão iníqua crença, negam a existência do Ser Supremo!Aquele que crê que há um Deus compreende que, a toda hora e em todo lugar, se encontra diante d’Ele e que, sendo Ele a testemunha mais escrupulosa de nossas ações e aquele que nos há de julgar, não cometeremos falta alguma, por mais leve que seja, sem que tenhamos de expiá-la, seja neste mundo, seja no outro. Por isso Deus, que conhecia bem os assassinos e compreendia que seu pronto castigo era necessário para exemplo daqueles que conspiravam contra a Igreja, dispôs que, poucos dias depois de cometido o crime, todos caíssem nas mãos da justiça humana. O Vice-Rei e Arcebispo D. Alfonso, movido não somente pela palavra que havia dado ao povo, mas também por seu interesse pessoal no caso, realizou prontamente, na deputação, uma reunião com os ministros, constituídos em representação do reino, e nela acordaram conceder ampla comissão a todos os funcionários públicos, eclesiásticos e seculares, para que, sem observar os foros e as formalidades costumeiras, descobrissem os criminosos. Foi assim que, passados poucos meses, todos receberam o castigo que mereciam, revelando uns e outros em seus depoimentos inúmeras heresias que os conversos cometiam ocultamente contra a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Religião cristã. Juan de la Abadía, que com tanta resolução quanto sangue-frio se vendera para servir de principal instrumento na morte de nosso glorioso Pedro, não teve ânimo para suportar o opróbrio da condenação que o aguardava e tirou a própria vida quando estava preso no castelo da Aljafería, engolindo cacos de uma vasilha de vidro.
CAPÍTULO QUARTO
Morte e sepultamento do glorioso mártir
Deus Nosso Senhor, que já havia concedido a coroa do martírio ao bem-aventurado Pedro, quis talvez acrisolar o ouro puríssimo de sua paciência, conservando-o no leito durante os dois dias em que sobreviveu ao martírio. Empregou-os ele em consolar a todos quantos o rodeavam e em dar graças ao seu amado Redentor por lhe haver concedido morrer em defesa de sua santa fé, oferecendo-lhe suas dores em memória daquelas que Ele padeceu no Gólgota pela redenção do universo, entoando hinos e cânticos em sua honra e na de Maria Santíssima, sem abrigar o menor ódio contra seus agressores; antes, pelo contrário, orava a Deus por eles, pedindo-lhe que lhes perdoasse.
Aproximava-se a hora em que nosso Santo mártir haveria de alcançar no céu o prêmio de suas boas obras; e já havia recebido, com o maior fervor e devoção de sua alma, todos os sacramentos, quando o mestre Ebri, médico catalão que o assistia, conhecendo os poucos momentos de vida que lhe restavam, disse-lhe: “Mestre, logo ireis para o céu”. Ao que São Pedro respondeu com Davi: “Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi: in domum Domini ibimus”; isto é: “Enchi-me de alegria com aquilo que me foi dito: iremos à casa do Senhor”. E, entre uma e duas horas da madrugada do sábado, 17 de setembro, na mesma hora em que, dois dias antes, havia recebido os ferimentos, expirou suavemente nos braços do Senhor, indo gozar no céu daquele Deus por cuja fé havia sido sacrificado, aos quarenta e quatro anos de idade. Causou a todos grande admiração a alegria que, mesmo depois de morto, se estampava em seu semblante, parecendo estar adormecido ou arrebatado por algum maravilhoso êxtase. Suas últimas palavras foram para saudar Maria Santíssima com a oração angélica, sendo tão agradável à Rainha dos Anjos este último tributo terreno de seu fiel devoto que, segundo relata Salaverte, Nossa Senhora e seu Santíssimo Filho assistiram visivelmente à morte de São Pedro, acompanhados por um coro de celestes paraninfos, que cantaram aquele triunfo e coroaram o Santo com a auréola do martírio, recebendo ele a palma deste pelas mãos da própria Virgem.
Tendo o Arcebispo-Vice-Rei tomado conhecimento da morte do glorioso Pedro, não julgou conveniente torná-la pública imediatamente, temendo excitar novamente a indignação do povo contra os conversos à vista do cadáver, e propôs dar-lhe sepultura em caráter privado; porém, como a ansiedade geral que reinava por se conhecer a evolução dos ferimentos tornava inevitável que, ao romper da aurora, tão triste notícia se espalhasse pela cidade, o próprio senhor, a instâncias do cabido e segundo consta da ata original existente no arquivo de La Seo, determinou que os funerais fossem celebrados com a maior solenidade possível, tomando imediatamente as providências necessárias para isso.
O arquidiácono de Teruel, D. Pedro de Oliva, o cônego D. Martín García, íntimo amigo do Santo, que não o abandonou durante sua agonia, e Monsenhor Martín Escudero vestiram o venerando cadáver com a devida dignidade e com as vestes de coro, depositando-o na sala capitular sobre um pano de brocado, alumiado por seis círios. Todos os cônegos, tomados da mais profunda dor, velaram por turnos os restos mortais de seu querido e venerado irmão, não se afastando dele desde que recebera os ferimentos até o momento em que o deixaram no sepulcro. O povo de Saragoça acorreu apressado para visitar o corpo inanimado de seu dileto conterrâneo, mártir e amigo; não, porém, como se temia, para dar novas demonstrações de indignação contra os agressores, mas para testemunhar, com abundantes lágrimas, sua intensa dor por tão irreparável perda, consolando-os unicamente a certeza que tinham de que ele estava gozando, juntamente com os Santos, da glória celestial, prêmio eterno concedido àqueles que, como ele, derramaram seu sangue em defesa de nossa sacrossanta Religião.
Celebraram-se depois os funerais com solene pompa, principiando pelo translado processional do venerando cadáver pela cidade, enquanto o lúgubre repicar dos sinos de todas as igrejas anunciava a dor que naquele dia confrangia os corações de todos os fiéis. Compareceram todas as paróquias e comunidades com suas cruzes, o Arcebispo-Vice-Rei D. Alfonso e os conselhos e tribunais; e não é necessário dizer que também esteve presente toda a nobreza, pois acorreram em massa não somente todos os habitantes católicos de Saragoça, mas também os de muitos povoados das redondezas, jamais se tendo visto tão grande afluência de fiéis. Ao mesmo tempo, tal era a ornamentação e a iluminação da igreja de La Seo que aquela cerimônia parecia mais a pompa de um glorioso triunfo do que exéquias fúnebres. Seis prebendados transportaram o corpo e, depois de darem majestosamente três voltas pelo templo, colocaram-no sobre um suntuoso catafalco piramidal improvisado para esse fim com muito bom gosto. Em seguida, um senhor bispo celebrou a missa de corpo presente, e um cônego, companheiro do Santo mártir, pronunciou o sermão. O cabido, que esperava com justo motivo a canonização de Pedro e a veneração de suas relíquias, determinou, para melhor conservação delas, que se abrisse o sepulcro numa laje de pedra, colocada entre o altar-mor e o coro, e exatamente no local onde o Santo havia caído depois de receber os ferimentos. Ali foi depositado o cadáver, sendo depois hermeticamente coberto com outra laje, ficando assim sepultado a cerca de três palmos de profundidade. Colocou-se em seguida por cima, ao nível do pavimento, uma lápide de alabastro com a efígie do Santo em vestes de coro e uma inscrição alusiva ao seu martírio.
Continuaram-se as demonstrações de luto na igreja de La Seo, recitando-se todos os dias as Horas em voz baixa, de portas fechadas, e nas matinas da meia-noite o salmo Deus laudem meam. Antes dos ofícios divinos rezavam-se o Miserere e algumas preces, com os cônegos de joelhos e a cruz acompanhada pelos ministros, cujos rostos estavam cobertos com véus negros. Isso perdurou pelo espaço de um ano, ou seja, até o funeral — ou, antes, festa, como então foi considerado — celebrado em 29 de setembro de 1486.
O Arcebispo e o cabido acordaram expedir cartas ao Sumo Pontífice, que então era Inocêncio VIII, para dar-lhe notícia solene do martírio de nosso Santo e, ao mesmo tempo, encarregaram o arquidiácono D. Pedro Olivar de relatar aos Reis Católicos Fernando e Isabel um acontecimento tão grave e de tamanha importância.
D. Pedro Olivar já havia partido para a corte quando o Arcebispo de Saragoça recebeu ordens reais pelas quais se determinava que fossem dadas graças ao Todo-Poderoso, com toda a solenidade, pelos triunfos alcançados pelas armas católicas na guerra contra os mouros; e, como a igreja metropolitana do Salvador ainda conservava o luto em que se encontrava desde a morte do bem-aventurado Pedro, determinou-se que as festas religiosas fossem celebradas no sagrado templo de Nossa Senhora do Pilar, no dia 16 de outubro, e que, no dia 27 do mesmo mês, a solenidade fosse renovada na igreja do santo Hospital Geral de Nossa Senhora da Graça.
[1] Apelido pelo qual o Santo sempre foi distinguido desde que começou a dedicar-se ao ensino.
