POR QUE FULTON SHEEN NÃO É SANTO
American Reform, 3 de junho de 2026
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto apresenta uma crítica à proposta de beatificação do bispo americano Fulton J. Sheen (1895–1979), questionando a ortodoxia de sua fé e o seu testemunho público. O autor argumenta que o célebre comunicador adotou uma postura progressista e alinhada às reformas revolucionárias do Concílio Vaticano II. Por meio de uma linha do tempo, o autor enumera declarações e atitudes consideradas problemáticas, como a omissão de dogmas católicos em seus programas de TV. Também são criticados o seu forte envolvimento com o movimento ecumênico e sua proximidade pioneira com o judaísmo e outras religiões não cristãs. O artigo conclui que as ações de Sheen demonstram um padrão de concessões ao espírito moderno, o que o torna indigno de ser considerado um santo.
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Uma avaliação sóbria de suas numerosas declarações e ações públicas indica que ele apoiou entusiasticamente a revolução do Vaticano II.
A tentativa de beatificação do bispo Fulton J. Sheen, programada para 24 de setembro deste ano, vem sendo anunciada por muitos meios de comunicação e figuras públicas proeminentes como um acontecimento há muito esperado.
Isso nos oferece uma ocasião oportuna para reexaminar os problemas — muitos deles ainda obscuros — que marcaram a carreira de Sheen, particularmente por causa da profunda admiração que ele suscita entre os católicos americanos.
Ainda esta semana, Leão XIV, que nasceu em Chicago em 1955, elogiou Sheen como “uma luz de fé, esperança e caridade”. Ele disse que seu programa de televisão “tocou milhões com a esperança do Evangelho”.
Diante da gravidade que uma declaração de beatificação — que geralmente é um precursor da canonização — traz consigo, perguntaremos se há razões suficientes para duvidar da ortodoxia de Sheen e de seu testemunho da fé católica.
QUEM FOI O BISPO SHEEN?
Sem dúvida, quase todo católico americano conhece Fulton Sheen, que é mais famoso por seu programa de televisão premiado Life is Worth Living (“A vida vale a pena ser vivida”). Exibido nos anos 1950, esse programa, juntamente com seu anterior e menos conhecido Catholic Hour (“A hora católica”), catapultou-o ao status de figura amplamente conhecida nos Estados Unidos.
Nascido em uma família católica irlandesa em 1895, Sheen deixou Peoria, Illinois, e viajou para o Seminário de St. Paul, em Minnesota, para iniciar seus estudos sacerdotais. Em 1919, foi ordenado pelo bispo Edmund Dunne. Após obter vários graus em teologia e filosofia, o então Padre Sheen ascendeu nas fileiras eclesiásticas enquanto escrevia numerosos livros, sendo eventualmente escolhido pelo Papa Pio XII para ser bispo auxiliar da Arquidiocese de Nova York. Ele foi consagrado em Roma em 1951.
Em 1952, Sheen começou a estrelar um programa semanal de televisão, o já mencionado Life is Worth Living. Sua mensagem não sectária rapidamente encontrou um grande público, cativado por seus dotes retóricos, carisma e inteligência.
Quando perguntado por Bob Considine, repórter da revista Cosmopolitan, se evitava doutrinas explicitamente católicas para não afastar telespectadores protestantes ou judeus, Sheen deu uma resposta reveladora:
“O dogma católico recebeu um certo descrédito que não merece. Há dogma em tudo na vida. Não faço nenhum esforço deliberado para evitar aquilo que sei ser verdadeiro”, respondeu.
Sheen então acrescentou — aparentemente sem reconhecer qualquer contradição —: “Não há nada em meus sermões televisivos que não se possa encontrar em Aristóteles”.[1]
A resposta de Sheen indica que ele se sentia confortável em apresentar o catolicismo exclusivamente através da lente da filosofia pré-cristã, omitindo a Revelação divina e os dogmas da Igreja.
Considine então relata o momento seguinte da conversa: “Então, por ser o bispo Sheen um homem infinitamente educado, ele achou que talvez tivesse dado uma resposta muito dura. Então ele pegou seu último livro, perguntou se eu o queria, e o autografou de modo lisonjeiro. Depois sorriu radiantemente. ‘Você ouviu falar da simpática senhora que entrou na Brentano’s e pediu o livro A Piece of My Mind (“Um pedaço da minha mente”) do Rabino Sheen?’”.[2]
Essa hipersensibilidade às sensibilidades religiosas é agravada pelo fato de que Sheen servia simultaneamente como diretor nos Estados Unidos da Sociedade para a Propagação da Fé de 1950 a 1966. Isso significa que, no auge de sua popularidade, o homem oficialmente encarregado de promover o catolicismo na América operava sob o princípio de transmitir sua mensagem de um modo que não ofendesse diretamente as crenças religiosas de não católicos.
Por seus esforços, Sheen ganhou um Emmy em 1963 como “Personalidade de Maior Destaque da Televisão”, atraindo regularmente cerca de 30 milhões de espectadores semanais, sendo seus dois maiores públicos — segundo o Russell Kirk Center — protestantes e judeus.
ENTUSIASTA DO VATICANO II E DE SUAS MUDANÇAS REVOLUCIONÁRIAS

Após o Concílio Vaticano II, Sheen destacou-se como uma das figuras mais progressistas atuando no que Paulo VI chamou, em 1966, de “Igreja conciliar”.
“Na televisão, eu já não falava em nome da Igreja sob o patrocínio de seus bispos”, escreveu Sheen em novembro daquele ano. “Esse novo método precisava ser mais ecumênico e dirigido a todas as pessoas de boa vontade. Já não era uma apresentação direta da doutrina cristã, mas antes uma abordagem racional a ela, com algo comum ao público”.
Foi nesse período que Sheen começou a abraçar o movimento ecumênico, que vinha ganhando força no início do século XX graças a clérigos europeus dissidentes, como o dominicano Yves Congar, que desejava relações mais próximas com protestantes, ortodoxos orientais e seitas judaicas.
O Papa Pio XI condenou tais iniciativas em sua encíclica Mortalium animos (1928). O Papa Pio XII também advertiu os católicos contra qualquer forma de ecumenismo que não fosse o retorno dos dissidentes à verdadeira Igreja de Cristo. Ainda assim, o bispo Sheen acolheu com entusiasmo a rejeição dessas doutrinas pelo Concílio.
De acordo com a Tradition in Action, em janeiro de 1969, Sheen falou em um “culto” ecumênico dominical realizado em uma igreja presbiteriana. Referindo-se à “pessoa de Cristo”, disse aos cerca de mil presentes: “Vocês o amam profundamente… Temos diferenças na expressão da verdade, mas são apenas ‘disputas entre amantes’”.
Em sua autobiografia Treasure in Clay (“Tesouro em argila”), Sheen foi ainda mais longe, afirmando: “O bom hindu, o bom budista, o bom confucionista, o bom muçulmano são todos salvos por Cristo — não pelo budismo, islamismo ou confucionismo —, mas por meio de seus sacramentos, suas orações, seu ascetismo, sua moralidade, sua boa vida” (p. 148).
São comentários notáveis, dado que, na introdução de Radio Replies: Volume III (1942), Sheen havia dito: “A religião moderna enunciou um grande e fundamental dogma que está na base de todos os outros: que a religião deve ser libertada dos dogmas. Credos e confissões de fé já não estão na moda; os líderes religiosos concordaram em não discordar sobre aquelas crenças pelas quais alguns de nossos antepassados teriam morrido”.
Em 1966, Paulo VI nomeou Sheen bispo de Rochester, Nova York. Enquanto esteve lá, ele comprometeu vigorosamente sua diocese com as reformas conciliares. No entanto, renunciou após apenas três anos, em 1969.
Ao longo da década seguinte, Sheen escreveu muitos livros e artigos enquanto fazia numerosas aparições na mídia. Em dezembro de 1979, enquanto rezava em sua capela privada, o bispo Sheen morreu e passou à sua recompensa eterna.
UMA BREVE LISTA DE PALAVRAS E AÇÕES PROBLEMÁTICAS
Abaixo está uma compilação não exaustiva de alguns dos principais feitos de Sheen na promoção da Revolução Conciliar, desde o final dos anos 1950 até sua morte.
1958
— Ao falar sobre a conversão de descrentes, disse que “embora os protestantes estejam separados da rocha sobre a qual a Igreja foi construída, eles não estão separados d’Aquele que lançou essa rocha” (The Catholic Advocate).
1963
— Propôs a inauguração de um “Domingo da Ciência” anual no qual protestantes, judeus e católicos poderiam se unir para agradecer a Deus pelas bênçãos da ciência moderna (The Catholic Standard and Times).
— Após a morte de João XXIII, Sheen declarou com aprovação: “[Ele] em quatro anos desfez 400 anos!” (TIA).
1965
— Descreveu Gaudium et spes como um “golpe de mestre sob a inspiração do Espírito Santo” (TIA).
1967
— Nomeou um jovem sacerdote de sua diocese associado ao que o The New York Times chamou de uma “organização negra militante” organizada por Saul Alinsky para servir como vigário especial (TIA).
— Elogiou o notório neo-modernista Teilhard de Chardin e especulou que ele “aparecerá como João da Cruz e Santa Teresa de Ávila, como o gênio espiritual do século XX” (TIA).
— Aprovou comentários bíblicos protestantes e sua “missão” (TIA).
— Anunciou um plano para fundir o Seminário de St. Bernard com escolas de estudo batistas e episcopais. Disse que havia chegado o tempo de um “centro teológico ecumênico” para que os católicos pudessem “ser introduzidos aos elementos de bondade e verdade que outras religiões possuem” (TIA).
1969
— Declarou de forma ominosa que a Igreja está “no fim de uma era”, ao mesmo tempo em que confessava: “Que era entraremos, não sabemos, antes da conversão dos judeus” (The Catholic Commentator).
1971
— Ao aparecer no programa Firing Line, de William F. Buckley, Sheen minimizou a gravidade da heresia e, aparentando constrangimento diante da intransigência doutrinária, restringiu a lista de ofensas passíveis de excomunhão apenas às violações mais flagrantes (WM Review).
— Propôs, em uma conversa em avião (idéia posteriormente realizada), a criação de uma capela interdenominacional em um shopping center (The Catholic Transcript).
1978
— Advertiu contra a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X como uma “seita cismática” e afirmou erroneamente que o Novus Ordo Missae era meramente uma tradução da Missa tradicional para a língua vernácula (The Angelus).
AMIGO DA SINAGOGA

Menos conhecidas são as tendências filo-semitas do bispo Sheen.
Em 1967, Sheen aceitou o convite do rabino Marc H. Tannebaum para falar em seu templo B’rith Kodesh. Embora os membros da congregação progressista de Tannebaum não usassem solidéus, Sheen colocou um quipá em sua cabeça e proferiu um discurso incomum, evitando cuidadosamente pregar Cristo crucificado (Atos 2,36).
Em suas observações, Sheen sustentou que tanto judeus quanto católicos são “revolucionários, insurgentes inquietos e catalisadores irrequietos que perturbam os moldes e as filosofias deste mundo”. Acrescentou ainda que, como ambos mantêm a importância da religião, “nós nos aproximaremos… à medida que percebermos que ambos somos chamados por Deus para essa tarefa”.
Após seu discurso, Sheen aceitou uma menorá de Tannebaum, que desejava demonstrar sua gratidão por esse gesto ecumênico inédito. O evento foi patrocinado pela Diocese de Rochester, pelo American Jewish Committee e pelo conselho comunitário judaico local.
Apenas um ano depois, ao participar de um serviço de Shabat em uma sexta-feira, Sheen recebeu o “Prêmio de Fraternidade” do Dr. Edward Jacobs, presidente da Conferência Metropolitana da Federação Nacional das Irmandades de Templo. Este último observou — com aprovação — que “há uma crescente aproximação entre judeus e cristãos”.
Não é difícil ver nesses esforços pioneiros uma prefiguração da aproximação conciliar com a Sinagoga que ocorreu após o Concílio. Recorda-se aqui a visita ecumênica de João Paulo II, em 1986, à “Grande Sinagoga de Roma”, a participação ativa de Bento XVI em um serviço judaico em Mainz em 2005 e a celebração de Hanukkah, em 2013, pelo cardeal Jorge Bergoglio em uma sinagoga de Buenos Aires.
CONCLUSÃO
Consideradas em conjunto, as evidências acima não se apresentam como um passo em falso isolado, uma formulação doutrinária ambígua ou um exemplo ocasional infeliz, mas antes como um padrão convergente de compromisso e abandono da fé católica tal como sempre foi ensinada antes do Vaticano II — cujas sementes provavelmente já existiam em Sheen naquele momento, mas floresceram com o aggiornamento de João XXIII e se aceleraram sob Paulo VI.
Seria injusto negar os dons naturais que Sheen possuía. No entanto, a questão diante de nós não é se ele era um orador eloquente, um comunicador eficaz ou uma figura cativante, mas se seu testemunho público é ortodoxo e digno de louvor universal. Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu — algo é bom quando o é em todos os aspectos, e é mau quando falha em qualquer aspecto — afirma o princípio da filosofia. Um santo católico se opõe ao espírito da época, travando guerra contra o engano e a falsa paz do mundo. Pode-se dizer o mesmo do bispo Sheen? As evidências, por mais desconfortável que seja aceitá-las, sugerem que não.
[1] Bob Considine, “God Love You: The Story of Bishop Fulton Sheen, Television’s Stunning New Voice”. Cosmopolitan, julho de 1952, p. 99.
[2] Ibid.
