QUANDO A EUROPA ERA FASCISTA
Léon Degrelle (†1994)
Fonte: Hitler for a Thousand Years (original: Hitler pour 1000 ans, 1969). Ostara Publications, 2019.
Tradutor do texto: Blog Inacreditável.
Descrição: Neste segundo capítulo, o líder católico rexista belga Léon Degrelle (1906–1994) argumenta que a historiografia pós-1945 sobre a Segunda Guerra Mundial é unilateral e dominada pelos vencedores, resultando na ausência de obras objetivas e na proliferação de propaganda e censura. Ele defende que os movimentos de direita da época não constituíam um bloco homogêneo, destacando as profundas diferenças ideológicas, sociais e culturais entre o nacional-socialismo alemão, o fascismo italiano e outras correntes em países como Espanha, Portugal, Noruega e Bélgica. Sob sua perspectiva, o fascismo emergiu espontaneamente entre a juventude européia como um anseio por renovação moral e ordem em reação à decadência dos partidos liberais tradicionais. Por fim, Degrelle relata as perseguições legais e o silenciamento editorial que sofreu no pós-guerra, sustentando que seu depoimento como único líder sobrevivente do grupo possui relevante valor histórico para a compreensão do período.
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Para um jovem de hoje, a Europa dita “fascista” se revela um mundo distante, já confuso. Esse mundo desmoronou-se. Não foi capaz de se defender. Aqueles que o derrubaram ficaram sozinhos em 1945, e, durante muito tempo, interpretaram os fatos e as intenções como lhes convinha.
Um quarto de século após a derrocada da Europa “fascista” na Rússia, ainda que haja algumas obras meio corretas a respeito de Mussolini, não há ainda um único livro objetivo sobre Hitler. Foram-lhe dedicadas centenas de obras, todas malfeitas ou inspiradas por uma aversão visceral a ele. Mas o mundo continua a aguardar a obra equilibrada que fará o balanço da vida do principal político da primeira metade do século XX. O caso de Hitler não é um caso isolado. A história, se assim se pode dizer, tem sido escrita num sentido único desde 1945. Na metade do mundo dominada pela URSS e pela China Vermelha, nem sequer se pensa que um escritor que não seja um conformista ou um adulador do regime possa se exprimir. Na Europa Ocidental, se o fanatismo é mais matizado, não é menos certo que é apenas mais hipócrita.
Um grande jornal francês, inglês ou americano nunca publicaria uma obra que pusesse em evidência o que poderia ter sido interessante, ou criativo, de uma forma saudável, no fascismo ou no nacional-socialismo. A própria ideia de uma tal publicação pareceria aberrante. Dir-se-ia imediatamente que se trata de um sacrilégio.
Uma certa área de investigação foi especialmente objeto de preocupações apaixonadas: centenas de reportagens, muitas vezes exageradas, outras vezes grosseiramente falsas, foram publicadas, com o aporte de uma gigantesca montagem publicitária, a respeito dos campos de concentração e dos fornos crematórios, os únicos elementos que se tem o cuidado de considerar bem na imensa criação que foi, durante dez anos, o regime hitleriano. Até o fim do mundo, continuaremos a evocar a morte de judeus nos campos de Hitler, sob o olhar assustado de milhões de leitores, pouco interessados em contagens exatas ou em rigor histórico.
Também aqui se espera uma obra séria sobre o que realmente aconteceu, com números verificados e cruzados metodicamente; uma obra imparcial, não uma peça de propaganda; não coisas que se diz terem sido vistas e que não foram vistas; não “confissões” cheias de erros e disparates, ditadas por oficiais torturadores (como teve de reconhecer uma comissão do senado americano) a alemães acusados que jogavam pela sua cabeça e estavam prontos a assinar qualquer coisa para escaparem à forca. Essas incoerências, historicamente inadmissíveis, tiveram, sem dúvida, um efeito sobre a vasta população sentimentalóide. Mas é a caricatura de um problema angustiante e, infelizmente, tão velho quanto a humanidade.
Tal estudo (e ainda muitos outros) está para ser escrito – e, por suposto, nenhuma editora o publicaria – que exporia os fatos exatos segundo métodos científicos, os recolocaria no seu contexto político e os inseriria honestamente numa totalidade de conexões históricas, considerando os paralelos absolutamente indiscutíveis: o tratamento dos negros conduzido no decurso dos séculos XVII e XVIII pela França e pela Inglaterra, à custa de três milhões de vítimas africanas sucumbidas no decurso de atrozes capturas e transferências; o extermínio, por cobiça, dos índios vermelhos americanos, caçados nas terras dos Estados Unidos de hoje; os campos de concentração ingleses da África do Sul, onde os bôeres, invadidos, foram empilhados feito animais, sob o olhar complacente do Sr. Churchill; as execuções espantosas dos sipais na Índia pelos mesmos servidores de Sua Graciosa Majestade; o massacre pelos turcos de mais de um milhão de armênios; a liquidação de mais de dezesseis milhões de anticomunistas na URSS; a carbonização pelos Aliados, em 1945, de centenas de milhares de mulheres e crianças nos dois fornos crematórios mais gigantescos da história, Dresden e Hiroshima; a série de massacres de populações civis que só têm continuado e aumentado desde 1945 no Congo, no Vietname, na Indonésia, em Biafra. Haverá de se esperar ainda muito tempo, acreditem, para que um tal estudo, objetivo e de alcance universal, pontue a situação desses problemas e os avalie sem preconceitos. Mesmo em relação a temas muito menos candentes, qualquer explicação histórica continua a ser, de momento, quase impossível, se se tiver tido a infelicidade de cair, politicamente, no lado errado.
É desagradável falar de si mesmo, mas, finalmente, de todos os líderes ditos “fascistas” que participaram da Segunda Guerra Mundial, eu sou o único sobrevivente. Mussolini foi assassinado e depois enforcado. Hitler levou um tiro na cabeça e depois foi queimado. Mussert, o líder holandês, e Quisling, o líder norueguês, foram fuzilados. Pierre Laval, depois de ter sido submetido a uma curta paródia de justiça, envenenou-se em sua prisão na França; salvo com grande dificuldade da morte, foi espancado e semi-paralisado dez minutos depois. O general Vlassov, líder dos russos anti-soviéticos e entregue a Stálin pelo general Eisenhower, foi enforcado numa praça de Moscou.

Mesmo no exílio, os últimos que escaparam foram selvagemente perseguidos. O líder do Estado croata, Ante Pavelić, foi crivado de balas na Argentina. Eu mesmo, perseguido por todos os lados, escapei por um milímetro a diversas tentativas de liquidação por assassinato ou sequestro. No entanto, até à presente data, ainda não fui eliminado. Eu vivo. Eu existo. Quer dizer, ainda posso dar um testemunho capaz de apresentar certo interesse histórico. Conheci Hitler de perto, sei que ser humano ele era realmente, o que pensava, o que queria, o que preparava, quais eram as suas paixões, os seus humores, as suas preferências, as suas fantasias. Conheci, da mesma forma, Mussolini, tão diferente na sua impetuosidade latina, nos seus sarcasmos, nas suas efusões, nas suas fraquezas, nas suas pulsões, mas também extraordinariamente interessante. Se ainda houvesse historiadores objetivos, eu poderia ser-lhes uma testemunha muito valiosa em relação aos seus documentos. Quem, entre os sobreviventes de 1945, conheceu Hitler ou Mussolini mais de perto do que eu? Quem poderia explicar, com maior precisão do que eu, que tipos de homem eles eram, homens tais como realmente eram?

No entanto, só me resta o direito ao silêncio, mesmo no meu próprio país. Que eu publique na Bélgica (vinte e cinco anos depois dos fatos!) uma obra sobre o que foi a minha ação pública é simplesmente impensável. Ora, eu era, antes das guerras, o líder da oposição neste país, o líder do movimento rexista, um movimento legal, aderente às normas do sufrágio universal, envolvendo um número considerável de políticos e centenas de milhares de eleitores. Eu comandei, durante os quatro anos da Segunda Guerra Mundial, os voluntários belgas da Frente Oriental, quinze vezes mais numerosos do que os seus compatriotas que lutaram ao lado dos ingleses. O heroísmo dos meus soldados é incontestável. Milhares deles deram a sua vida pela Europa, é certo, mas, antes de mais e acima de tudo, para conseguir a salvação do seu país e preparar a sua ressurreição.

No entanto, não há qualquer possibilidade de explicar ao povo do nosso país qual foi a ação política do Rex antes de 1941 e a sua ação militar depois de 1941. Uma lei proíbe-me formalmente de publicar uma única linha sobre isso na Bélgica, proíbe a venda, a difusão, o transporte de qualquer texto que eu possa escrever sobre esses assuntos. Democracia? Diálogo? Há um quarto de século que os belgas só ouvem um sino; quanto ao outro – o meu! – o Estado belga vira contra ele todos os seus canhões.
Noutros lugares, a situação não é melhor. Na França, o meu livro The Russian Campaign, mal fora publicado, foi proibido. O mesmo aconteceu, ainda recentemente, com a minha obra The burning souls. Este livro é puramente espiritual. No entanto, foi oficialmente posto fora de circulação na França, e isso vinte anos depois de a minha vida política ter sido eliminada! Assim, não são as ideias dos excomungados que constam no index, mas os seus nomes, que a inquisição democrática não poupa.
Na Alemanha, os métodos são os mesmos. O editor do meu livro The forgotten Legion foi, desde a publicação do volume, alvo de tantas ameaças que ele próprio mandou destruir milhares de exemplares que iriam ser distribuídos aos livreiros alguns dias após o seu lançamento. Porém o recorde mesmo foi batido pela Suíça, onde não só a polícia confiscou milhares de exemplares do meu livro La Cohue de 1940 dois dias após a sua publicação, como também correu para a gráfica e mandou derreter as fôrmas de impressão diante dos seus olhos, a fim de que qualquer reimpressão da obra se tornasse materialmente impossível. Ora, o editor era suíço! A gráfica era suíça! E se algumas pessoas se considerassem lesadas no texto, era fácil para elas exigir uma indenização legal ao meu editor ou a mim – a que, naturalmente, ninguém se atrevia! Tive que esperar até 1969 para ver aparecer este mesmo livro em Paris, Roma, Bonn, Haya, México, e vendê-lo livremente nas livrarias de Bruxelas, após o seu lançamento pelo editor de uma grande revista belga, Europa Magazine. Este proclamou abertamente que não havia razão para que se seguisse proibindo tal publicação, arriscando-se com isso a ser processado. Porém o governo cedeu, de maneira que os belgas, ao fim, puderam ler os argumentos que esperavam desde um quarto de século.
As mesmas dificuldades tive quanto à palavra oral. Desafiei as autoridades belgas em causa a deixarem explicar-me perante o povo do meu país no Pavilhão dos Desportos de Bruxelas, ou a aceitarem – nada mais! – que eu me apresentasse como candidato às eleições legislativas. O povo, soberano, decidiria. Poderia eu ser mais democrático? O próprio Ministro da Justiça respondeu que eu seria conduzido illico presto[1] até à fronteira caso eu desembarcasse em Bruxelas! Para terem a certeza absoluta de que eu não voltaria a aparecer, improvisaram uma lei especial, chamada Lex Degreliana, que prolongava por mais dez anos o prazo de prescrição da sentença contra mim – que havia expirado!
Então, como é que as multidões podem pesar os fatos, as intenções, formar uma opinião? E como é que, perante um tal imbróglio, um jovem poderá discernir o verdadeiro do falso, tanto mais que a Europa de antes de 1940 não era um bloco único? Cada país, pelo contrário, apresentava características muito particulares. E cada “fascismo” tinha as suas próprias orientações.
O fascismo italiano, por exemplo, era muito distinto do nacional-socialismo alemão. Socialmente, as posições alemãs eram mais audaciosas. Em contrapartida, o fascismo italiano não era essencialmente anti-judaico. Era antes uma tendência mais cristã. E também mais conservadora. Hitler tinha liquidado os últimos vestígios do império dos Hohenzollerns, ao passo que Mussolini, ainda que a contragosto, continuava a seguir o espanador de meio metro de altura que movia os seus vastos ramos sobre a pequena cabeça desdentada do rei Vítor Emanuel.

O fascismo teria sido capaz de estar tanto contra Hitler como com Hitler. Mussolini era, acima de tudo, um nacionalista. Após o assassinato do chanceler austríaco Dollfuss, em 1934, decidiu alinhar várias divisões na fronteira do Reich. No seu íntimo, não gostava de Hitler. Desconfiava dele. “Cuidado! Cuidado com Ribbentrop acima de tudo!”, repetira uma vintena de vezes.
O eixo Roma-Berlim fora forjado sobretudo pelas trapalhadas e provocações de uma grande imprensa do tipo mais suspeito, e de políticos derrotados e ambiciosos feito Paul-Boncour,[2] o palhaço desgrenhado de Paris, um Don Juan murcho e sem nervos dos cais de Genebra; ou Anthony Eden, a vassoura alta e polida de Londres; ou, sobretudo, Churchill. Conheci este último na Câmara dos Comuns. Naquela altura, era uma figura já bastante polêmica e estava desacreditado. Amargurado quando o estômago estava seco (condição que era, aliás, muito rara), com os dentes cerrados entre as suas papadas de buldogue extremamente gordas, quase não se lhe prestava atenção. Só uma guerra poderia oferecer-lhe uma última chance de aceder ao poder. Agarrou-se obstinadamente a essa oportunidade.
Mussolini, até o seu assassinato em abril de 1945, manteve-se, no fundo, anti-alemão e anti-Hitler, apesar de todas as profissões de afeto que este último lhe fez. Com os olhos negros, brilhantes feito o mármore negro, o crânio liso feito o mármore das fontes batismais, as costas arqueadas de um chefe de fanfarra, havia nascido para dar espetáculos de superioridade.
Para dizer a verdade, Mussolini estava furioso por ver Hitler dispor de um instrumental humano melhor – o povo alemão, disciplinado, que não pedia demasiadas explicações – do que aquele que lhe estava próximo – o povo italiano, encantador, que se comprazia com a crítica, mas também inconstante, cotovias vibrantes levadas pelo vento. Desse mau feitio emergiu secretamente um estranho complexo de inferioridade que se agravou cada vez mais com as vitórias de Hitler, que, até o final de 1943, ganhava sempre, apesar dos riscos inauditos que corria. Mussolini, pelo contrário, um chefe de Estado de exceção, não tinha a vocação de marechal de guerra, tal como não tinha um guarda rural romagnol.
Em suma, enquanto homens, Hitler e Mussolini eram diferentes. O povo alemão e o povo italiano eram diferentes. Como doutrinas, o fascismo e o nacional-socialismo eram diferentes. Não faltavam alguns pontos em comum no campo ideológico, bem como na ação, mas também havia oposições, que o eixo Roma-Berlim reduziu no início, mas que a derrota que atingiu a Itália no seu sangue e no seu orgulho ampliou e reforçou. Se os dois principais movimentos “fascistas” da Europa, aqueles içados ao poder em Roma e Berlim, e que atravessaram o continente de Stettin a Palermo, pareciam já tão distintos um do outro, imagine-se a situação quando se consideram os outros “fascismos” emergentes na Europa, seja na Holanda ou em Portugal, na Romênia, na Noruega ou noutros lugares!
O “fascismo” romeno era, em essência, quase místico. O seu líder, Codreanu, entrava a cavalo, vestido de branco, nas grandes assembleias de multidões romenas. A sua aparência parecia quase sobrenatural, a tal ponto que lhe chamavam “O Arcanjo”. A elite militante dos seus membros tinha o nome de “Guarda de Ferro”. O nome era duro, tal como o eram as circunstâncias de combate e os métodos de ação. As penas do Arcanjo eram salpicadas de dinamite.

Em contrapartida, o “fascismo” português era desapaixonado, tal como o seu mentor, o professor Salazar, uma figura cerebral, que não bebia, não fumava, que vivia numa cela monástica, vestia-se como um clérigo, estabelecia os pontos da sua doutrina e as etapas da sua ação tão friamente como se estivesse a escrever um comentário aos Pandectas.[3]
Na Noruega, a situação era ainda diferente. Quisling era alegre feito um coveiro. Ainda o vejo, com o rosto inchado, os olhos sombrios, escuros, quando, na qualidade de primeiro-ministro, me recebeu no seu palácio de Oslo, ao fundo de uma corte de honra onde um rei de bronze que se tornara verde feito uma couve mal cozinhada, ostentava, alto e orgulhoso, uma fronte coberta de excrementos de aves. Quisling, apesar do seu encanto abafado de chefe de contabilidade insatisfeito com o dinheiro, era tão militarizado quanto Salazar não o era. Dependia de milícias cujas botas eram claramente mais brilhantes do que a doutrina.

Até na Inglaterra havia “fascistas” – os de Oswald Mosley. No extremo oposto dos “fascistas” proletários do Terceiro Reich, os ingleses eram, na sua maioria, fascistas aristocráticos. As suas reuniões congregavam milhares de membros da gentry,[4] que vinham ver o que poderiam ser esses fenômenos distantes e fabulosos a que chamavam “trabalhadores” (havia, no entanto, alguns deles no grupo de Mosley). O público era multicolorido, com as cores vivas e conspícuas de jovens elegantes, bem vestidos em finas túnicas de seda; o recipiente e o conteúdo vibravam de encanto. Muito excitante e muito apetecível este fascismo!, sobretudo num país onde as longas e finas varas do mundo feminino lembravam tantas vezes as plantações de lúpulo! Mosley tinha-me convidado para jantar num teatro desativado, empoleirado no Tâmisa, onde recebia os seus convidados atrás de uma mesa de madeira branca. À primeira vista, era muito austero e monástico. Mas rapidamente apareciam criados perfeitos, e a louça em que o serviam era de ouro!

Ao lado do proletário Hitler, do teatral Mussolini, do professoral Salazar, Mosley era o paladino de um fascismo bastante fantástico que, por mais extraordinário que possa parecer, estava em consonância com os costumes britânicos. O inglês mais rigoroso preocupa-se em mostrar peculiaridades muito pessoais, sejam elas políticas ou de vestuário. Mosley apresentava outras dessas, como Byron ou Brummel apresentavam outras anteriormente, e como os Beatles ofereceriam outras tempos mais tarde. O próprio Churchill tinha o cuidado de se distinguir nos seus modos, recebendo os visitantes importantes completamente nu, na majestade empalhada de um rei Baco anglicizado, envolto apenas no fumo dos seus havanas. O filho de Roosevelt, enviado a Londres em missão durante a guerra, julgou que iria morrer sufocado quando viu o adamascado Churchill avançar na sua direção, com o estômago inchado, gordo feito um estalajadeiro obeso que acaba de lavar o rabo numa banheira de zinco sábado à noite.
No extremo oposto, o Mosley de antes de 1940, o fascista impecável, coberto com um chapéu-coco cinzento em vez de um capacete de aço, armado com um guarda-chuva de seda em vez de um cassetete, não destoava especialmente da excentricidade britânica. Mas, no entanto, o fato de os ingleses, solenes como os porteiros ministeriais e conservadores como os carros Rolls Royce, se terem deixado, eles também, intoxicar pelo licor dos fascismos europeus antes de 1940 indica até que ponto o fenômeno correspondia na Europa ao estado de espírito generalizado. Pela primeira vez desde a Revolução Francesa, apesar da diversidade dos nacionalismos, ideias e ideais ardentes provocaram reações bastante idênticas. De um extremo ao outro do velho continente, de Budapeste, de Bucareste, de Amesterdão, de Oslo, de Atenas, de Lisboa, de Varsóvia, de Londres, de Madrid, de Bruxelas ou de Paris, uma única fé brotava ao mesmo tempo.
Em Paris, não só os surtos fascistas tinham as suas características próprias como, além disso, se decompunham em múltiplas subdivisões: de tendência dogmática, com Charles Maurras, o velho barbudo, corajoso, íntegro, surdo feito um devedor, pai intelectual de todos os fascismos europeus, mas limitando o seu ao território francês; de tendência militar, com os velhos combatentes de 1914-1918, emotivos, ferozes, sem ideias; de tendência “classe média”, com a Croix-de-Feu, do coronel de La Rocque,[5] que adorava repetir as grandes manobras e as inspeções de caserna junto com civis; de tendência proletária, com o Parti Populaire Français, de Jacques Doriot,[6] o velho “comuna” de óculos, que agia deliberadamente na sua propaganda com os seus sapatos largos, os seus suspensórios, o avental de cozinha da sua mulher, para parecer operário, uma classe que lhe era recalcitrante no seu conjunto, após um início bem-sucedido; de tendência ativista e cheirando à pólvora, com a balaclava de Eugène Deloncle[7] e Joseph Damand,[8] duros, dinâmicos, que dinamitavam com prazer, em plena Paris, os escritórios insensíveis dos super-capitalistas, para os tirar num instante do seu sono dourado. Deloncle, um politécnico muito inteligente, seria abatido pelos alemães em 1943, e Joseph Damand, pelos franceses em 1945, apesar de ter sido um dos heróis mais destemidos das duas guerras mundiais.

Essa abundância de movimentos “fascistas” parisienses, teoricamente paralelos e praticamente rivais, dividiu e desorganizou as elites francesas. Terminaria na noite de 6 de fevereiro de 1934, com os tumultos sangrentos da Praça da Concórdia, em Paris, embora o poder, caído no pânico escorregadio, não tivesse sido apanhado por nenhum dos vencedores da “direita”. O grande homem daquela noite chamava-se Jean Chiappe,[9] chefe da polícia de Paris, demitido três dias antes pelo governo de esquerda. Era um corso volúvel e corado, que levava na lapela uma roseta da Legião de Honra em forma de tomate; bastante pequeno, apesar dos calcanhares sobrepostos que o faziam parecer, quando falava conosco, que estava empoleirado sobre um barril. Mesmo conduzindo-se a si mesmo como uma cerejeira primaveril, apalpava os flancos, cuidava de si próprio; alegando reumatismo, nem sequer saiu à rua no dia 6 de fevereiro com os manifestantes. Tinha acabado de tomar um banho quente e preparava-se para ir para a cama, já de pijamas. Apesar das repreensões cada vez mais insistentes, e depois em pânico, dos que lhe eram fiéis, recusa-se a vestir-se, quando bastaria atravessar a rua para se sentar na poltrona vazia do Eliseu! Em 1958, o general de Gaulle, de frente para a mesma poltrona, não seria tão rogado! Entre esses múltiplos partidos “fascistas” franceses, o denominador comum antes de 1940 era uma fraca unidade.

Na Espanha, o general Primo de Rivera[10] tinha sido, antes de muitos outros, um “fascista” à sua maneira, um “fascista” monárquico, um pouco como Mussolini. Essa concessão ao trono contribuiu muito para o seu fracasso. Demasiados cortesãos palacianos, especialistas em fazer tropeçar as pessoas, escorregadios feito enguias, ocos feito tubos, estavam à sua espreita. Foram demasiado poucos os proletários que o apoiaram, homens de coração simples, de braços fortes, que poderiam também ter seguido um Primo de Rivera empenhado na reforma social do seu país, em vez de se alinharem com os pistoleros e os incendiários da Frente Popular. Os intrigantes da corte fizeram com que essa experiência ficasse presa na cola dos preconceitos de uma aristocracia de salão, vaidosa e politicamente estéril durante vários séculos.
José Antonio, filho do general,[11] deposto e morto em Paris alguns dias depois, era um orador inspirado. Tinha compreendido, apesar da sua hereditariedade de señorito,[12] que o essencial do combate político do seu tempo residia no terreno social. O seu programa, a sua ética, o seu poder pessoal poderiam ter reunido em torno de si milhões de espanhóis que sonhavam com uma renovação do seu país, não só em grandeza e ordem, mas também, e sobretudo, em justiça social. Infelizmente, para ele, a Frente Popular tinha minado o terreno por todos os lados, enganado as massas, erguido entre os espanhóis as barricadas do ódio, do fogo e do sangue. José Antonio poderia ter sido o jovem Mussolini da Espanha em 1936. Esse rapaz alto e esplêndido viu o seu sonho arruinado nesse mesmo ano por um pelotão de execução em Alicante. As suas ideias marcaram o seu país durante muito tempo. Inspiraram centenas de milhares de combatentes e militantes. Reanimadas pelos heróis da Divisão Azul, elas ressurgiram até às neves sangrentas da Frente Russa, contribuindo para a criação da nova Europa de então.

Como se vê, a Espanha de 1939 não era a Alemanha de 1939, tal como o coronel de La Rocque em Paris, rígido feito um metrônomo, com uma mente incolor feito uma estrada macadamizada, não era a imagem cuspida do Dr. Goebbels, vivo feito um flash de fotógrafo, e tal como Oswald Mosley, o refinado fascista de Londres, não era o alter ego do gordo Dr. Ley de Berlim,[13] roxo feito um barril de vinho novo. No entanto, o mesmo dinamismo agia sobre as multidões em todos os lados, a mesma fé elevava-as, e até se notava uma base ideológica semelhante entre todas elas. Tinham em comum as mesmas reações em relação aos velhos partidos esclerosados, corrompidos em compromissos sórdidos, desprovidos de imaginação, que não tinham trazido para lado nenhum soluções sociais vastas e verdadeiramente revolucionárias, enquanto o povo, sobrecarregado de horas de trabalho, pago miseravelmente (seis pesetas por dia sob a Frente Popular!), sem proteção suficiente contra os acidentes de trabalho, a doença, a velhice, esperava com impaciência e ansiedade ser finalmente tratado com dignidade, não só materialmente mas também moralmente.
Recordarei para sempre o diálogo que ouvi, nessa altura, numa mina de carvão em que o rei dos belgas tinha entrado: “O que é que vocês querem?”, perguntou o soberano, um pouco sem jeito, cheio das melhores intenções, a um velho mineiro negro de fuligem. “Senhor”, respondeu este último, “antes de mais, o que queremos é que nos respeitem”. Esse respeito pelo povo e essa vontade de justiça social aliam-se, no ideal “fascista”, à vontade de restabelecer a ordem no Estado e a continuidade ao serviço da nação. Necessidade de se elevar também espiritualmente. Em todo o continente, a juventude rejeitava a mediocridade dos políticos profissionais, perdulários tacanhos, sem educação, sem cultura, apoiados eleitoralmente pelos cabarés e pelos semi-notáveis bem vestidos, com esposas que se casaram demasiado cedo, mal amadas, ultrapassadas pelos acontecimentos e que cortavam a menor ideia ou a menor ousadia dos seus maridos com os golpes largos de uma tesoura de poda. Essa juventude queria viver para algo de grande, de puro.
O “fascismo” surgiu por toda a Europa, espontaneamente e sob formas muito diversas, dessa necessidade vital, total e geral de renovação: renovação do Estado, forte, autoritário, com tempo para si próprio e com a possibilidade de se rodear de pessoas competentes, evitando os caprichos da anarquia política; renovação da sociedade, liberta do conservadorismo sufocante dos burgueses de luvas e pescoço duro, sem perspectiva, corada por uma alimentação excessivamente rica e por vinhos borgonheses antiquíssimos, intelectualmente fechada, sentimentalmente fechada e, sobretudo, financeiramente refratária a qualquer ideia de reforma; a renovação social, ou, mais precisamente, a revolução social, liquidando o paternalismo, tão caro aos magnatas, que julgavam ser generosos a baixo custo e preferiam, ao reconhecimento dos direitos legais, a distribuição condescendente de caridades limitadas e devidamente subsidiadas; a revolução social, relegando ao capital o seu papel de instrumento material, e com o povo, a substância viva, tornando-se de novo a base essencial, o elemento primordial, da vida da pátria; a renovação moral, finalmente, ensinando a nação, sobretudo a juventude, a elevar-se e a cuidar de si mesma.
Não houve um único país europeu que, entre 1930 e 1940, não tivesse ouvido esse apelo. Este apresentava matizes distintos, orientações distintas, mas possuía, politicamente, socialmente, bases muito semelhantes, o que explica a rápida construção de uma solidariedade espantosa: o francês “fascista” foi, a princípio com ansiedade, mas rapidamente com entusiasmo, ajudar as procissões dos “camisas pardas” em Nuremberg; os portugueses cantaram a Giovinezza[14] dos balillas,[15] tal como os sevilhanos cantaram a Lili Marleen dos alemães do Norte.
No meu país, o fenômeno surgiu, como noutros lugares, com as suas próprias características, que culminariam nos elementos unificadores que emergiram da Segunda Guerra Mundial nos diversos países europeus. Eu era, nessa altura, um rapaz muito novo. No verso de uma fotografia, tinha escrito (já então deixava a modéstia à parte): “Aqui estão, mais ou menos verdadeiros, os traços do meu rosto. O papel não exprime, porém, o fogo interior, ardente e orgulhoso, que hoje abrasa em mim, que ontem abrasou em mim, e que amanhã rebentará numa tempestade”.

A tempestade, eu a trazia em mim mesmo. Mas quem mais o sabia? No estrangeiro, ninguém me conhecia. Eu tinha o fogo sagrado, mas não tinha à minha disposição nenhum apoio que me assegurasse rapidamente um grande êxito. No entanto, um só ano foi suficiente para eu reunir centenas de milhares de discípulos, abalar a tranquilidade sonolenta dos velhos partidos e enviar ao parlamento belga, de um só golpe, trinta e um dos meus jovens camaradas. O nome Rex seria revelado em poucas semanas, na primavera de 1936, ao mundo inteiro. Eu chegaria às margens do poder ainda com vinte e nove anos, na idade em que normalmente os rapazes tomam um aperitivo numa esplanada e acariciam os dedos de uma bela jovem de olhos brilhantes. Um tempo maravilhoso, em que os nossos pais não tinham de fazer mais do que nos seguir; um tempo em que, por todo o lado, os jovens, com olhos e dentes de lobo, se levantavam, saltavam, chegavam enfim preparados para mudar o mundo.
[1] Imediatamente.
[2] Joseph Paul-Boncour (1873-1972) foi um político socialista francês, primeiro-ministro da França de dezembro de 1932 a janeiro de 1933 e duas vezes ministro dos Negócios Estrangeiros, em 1932 e em 1938.
[3] Pandectas, ou Digesto, são a compilação das leis romanas feita pelo imperador Justiniano no século VI.
[4] Pequena nobreza.
[5] François de la Rocque (1885–1946) foi o líder francês da liga de direita Croix-de-Feu (“Cruz de Fogo”) de 1930 a 1936.
[6] Jacques Doriot (1898–1945) foi um político francês; inicialmente um comunista, tornou-se depois líder do Parti Populaire Francais, que defendia o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão.
[7] Eugéne Deloncle (1890–1944) foi o líder da Organisation secrète d’action révolutionnaire nationale (Osarn), que levou a cabo ataques terroristas contra ativistas de esquerda na França. Deloncle foi assassinado pela Gestapo em 1944 devido à sua colaboração com Wilhelm Canaris e outros membros da Abwehr (serviço militar de inteligência alemão) que se opunham a Hitler.
[8] Joseph Damand (1897–1945) foi um colaborador do regime de Vichy que participou nas atividades terroristas do grupo secreto Osarn. Em 1943, tornou-se Sturmführer (tenente) das Waffen SS.
[9] Jean Chiappe (1878–1940) foi um funcionário público de direita que exerceu o cargo de Préfet de Police nos anos trinta.
[10] Miguel Primo de Rivera (1870–1930) foi um general espanhol que chefiou uma ditadura militar de 1923 a 1925. Tentou regressar ao governo civil entre 1925 e 1930, mas perdeu o apoio do exército e foi forçado a demitir-se em janeiro de 1930.
[11] José Antonio Primo de Rivera (1903–1936) era filho de Miguel Primo de Rivera e fundador da Falange Espanhola fascista. Preso e executado em 1936 pela Frente Popular, tornou-se um mártir durante o regime franquista.
[12] Os Primos de Rivera eram aristocratas, sendo Miguel o segundo Marquês de Estella, e José Antonio, o terceiro.
[13] Robert Ley (1890–1945) foi o líder nacional-socialista da Deutsche Arbeitsfront (Frente Trabalhista Alemã).
[14] Giovinezza foi o hino do Partido Fascista Italiano e o hino nacional da Itália entre 1924 e 1943.
[15] A Opera Nazionale Balilla era a organização juvenil fascista italiana.
