REFUTAÇÃO DO ARTIGO DO FREI JEAN-DOMINQUE FABRE CONTRA CARLOS A. DISANDRO
Arwalt v. Kayser
Fonte: El Pampero Americano, nº 2, fevereiro-março de 2000. Links: (1) https://elpamperoamericano.blogspot.com/2011/05/el-pampero-americano-n-2.html (2) https://pt.scribd.com/doc/55559007/PA-N%C2%BA-2 (3) https://drive.google.com/file/d/0B8Y3wklzjMY3MWFkZTg1ODUtYTU4MS00YWNlLTg5NjctOTY4NWUzYTA0YmVk/edit?resourcekey=0-4gxi0xZqfhL9GbeiJeSYVA
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Esta resposta, escrita há 26 anos, refuta satiricamente duas críticas dirigidas à figura e à obra do filólogo Carlos Alberto Disandro (1919–1994). Na primeira parte, o autor desconstrói o ensaio de um fradre lefebvrista, apontando suas contradições lógicas, acusações infundadas e graves deformações teológicas. Em seguida, defende a coerência de Disandro quanto ao uso da linguagem patrística grega e ao apego aos dogmas católicos. Na segunda parte, rebate um segundo opositor senil que ataca a linguagem do doutor, expondo suas vaidades e falta de rigor intelectual. Por fim, o autor ridiculariza ambos os censores, comparando suas difamações a uma comédia e descartando em absoluto suas alegações.
Nota d’O Recolhedor: Confira “Contra o lefebvrismo”
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DOIS MAMARRACHOS E UMA SÓ GARGALHADA
I – O PRIMEIRO
O primeiro mamarracho é um estudo, por assim chamá-lo, que, sob o título Dr. Carlos A. Disandro: um tradicionalista?, publicou Jesus Christus, revista da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, suplemento do nº 66 (novembro-dezembro de 1999), isto é, os seguidores aqui de Monsenhor Marcel Lefebvre, ou um dos grupos em que estes se decompõem.
O escrito, deformante e ridículo, traz a assinatura de um membro de uma ordem mendicante, como para não esquecer o que nosso pai São Bento diz acerca dos falsários desse gênero: “Mentem a Deus com sua tonsura, (…) têm por lei a satisfação de seus caprichos, pois a qualquer coisa que opinam ou escolhem chamam de santa, e aquilo que lhes desagrada consideram ilícito”.
Autor e patrocinadores parecem crer que onze páginas infamantes bastam para invalidar a figura e a obra de quem dedicou uma vida de esforços árduos e ininterruptos à renovação da cultura, à exaltação da pátria e de seu Estado, à defesa da Fé e ao paciente esclarecimento de sua semântica. Mas, para além de suas injúrias, o frei em questão não exibe em seu escrito, nem sequer a partir da estreiteza de sua mente vazia, o mínimo intento de desenvolver ordenadamente algum ponto doutrinal de importância para o povo cristão, cuja descomunal ignorância atual é um dos recursos que mais facilitam sua manipulação pelo ecumenismo mundialista. Falseia e calunia, portanto, apenas para assustar e proibir; proíbe para que a ignorância se consolide e nos encerre sem retorno na imanência dessa manipulação escravizante.
Suas afirmações sucedem-se, por isso, de modo ligeiro e irresponsável, sem qualquer coerência sistemática nem interesse em discutir ou examinar algo de fato. Seria inútil, então, além de tedioso, analisá-las uma por uma. Limitamo-nos, por isso, a algumas, as necessárias para que o leitor perceba o teor da aberração que as contém. Nós as exporemos em três instâncias: a) contradições flagrantes do crítico; b) despropósitos e difamações; c) deformações interpretativas cujo esclarecimento permita desenvolver questões doutrinárias de interesse. Pois estas foram, para o próprio Dr. Disandro, a única justificativa autêntica de qualquer disputa.
A) Autocontradições do crítico
1. Por um lado, reconhece que o Dr. Disandro é “sedevacantista” e que o fundamento doutrinal mais nítido para essa posição ele o encontrava na bula de Paulo IV (século XVI) Cum ex apostolatus officio (publicada — o crítico o omite — em Córdoba, Instituto de Cultura Clásica San Atanasio, 1ª edição 1978, 2ª edição 1987, texto latino com tradução castelhana e estudo preliminar do doutor). Isso supõe, por certo, que Disandro aceita o pontificado, a Igreja hierárquica e seu magistério ordinário, como a remissão à bula o prova suficientemente. E que, em razão dela, considerou usurpadores os manifestos apóstatas por ação ou omissão — isto é, Wojtyła e seus 3.500 bispos — que hoje detêm essas magistraturas eclesiásticas, em si mesmas jamais negadas. Mas, após reconhecer-lhe o sedevacantismo (p. 2) e, assim, implicitamente tudo o que foi dito, linhas mais adiante (p. 5) seu crítico lhe atribui postular uma Igreja sem hierarquias nem qualquer magistério. Em que ficamos, Dominique?
2. O censor adere, por um lado (p. 3), à noção “não mutacionista” de tradição, defendida por Disandro em oposição ao que foi ensinado ultimamente pelo Vaticano II, pelos jesuítas hegelianos ou pelo modernismo. Isso quer dizer que o doutor reconhece na tradição — e, em sua medida, a todas as demais realidades — uma raiz eterna que, embora se manifeste de algum modo no tempo, não admite, em seu conteúdo essencial, ser afetada por este. E por isso, nessa perspectiva, resulta impossível que a tradição, o culto, a doutrina, as realidades decisivas do homem ou da história, válidos ontem, possam ser invalidados hoje ou amanhã. Mas, por outra lado, o crítico, com total desatenção, afirma: a) que há um parentesco profundo entre a tese de Disandro e as de Joaquim de Fiore (p. 4), campeão medieval do mutacionismo, invocado, além disso, pelo doutor para explicar o mutacionismo característico de João Paulo II (cf. Carlos A. Disandro, El joaquinismo en la enseñanza de Karol Wojtila. La noción de adviento de la Iglesia y el tercer milenio, em sua obra La antroposophia de Karol Wojtila. Una confrontación doctrinal, Córdoba, Instituto de Cultura Clásica San Atanasio, 1980, p. 23 e seguintes); b) que o doutor aceita as teorias “evolucionistas” ou historicistas de Schelling e Hegel (p. 7), isto é, que, como estes, segundo habitualmente são interpretados, reconheceria o desenvolvimento histórico-temporal como instância superior e decisiva de toda realidade possível, inclusive daquelas que a tradição reconhece como eternas. Mutacionista então, ou não?
3. Disandro afirma, efetivamente, que a tradição (em grego parádosis, de semântica não inteiramente equivalente à do termo latino) está suposta pelo Paraíso, e não o inverso. Ou seja, que sem a Tradição, já operante na intimidade trinitária e em suas três Pessoas, não poderia haver ad extra realidade nem criação alguma e, por conseguinte, tampouco Paraíso; mas que a Trindade, em contrapartida, não necessita, para sua existência, de criatura nem de Éden algum. Em termos cristãos, quase uma verdade de senso comum. Mas, em um incrível e confuso parágrafo (p. 5), seu censor afirma, em última análise, que apenas as realidades “sobrenaturais” supõem a Trindade, não as naturais. E estas, então, quem as teria criado? Outro Deus? Satanás? Monsenhor Lefebvre, por acaso? Oh, as elucubrações deste “teólogo” severo que não passaria em um exame de catecismo!
4. Acusa Disandro de usar o método cartesiano (p. 8 e 10) e, no entanto, reconhece o papel fundamental que para ele tem o conhecimento simbólico (p. 8 ss.). Mas foi Descartes, como se sabe, quem dividiu toda a realidade de modo categórico entre res cogitans, isto é, a mente limitada ao estrito método matemático-racional, e res extensa, a realidade extramental, para ele mera extensão informe e, por isso, inteiramente dócil à conceituação matematizante. Nem no universo nem no método cartesiano há, portanto, lugar para qualquer conhecimento simbólico. Mas o afã de contradizer a qualquer custo chega ao ponto de atribuir ao doutor, ao mesmo tempo, cartesianismo e conhecimento simbólico.
B) Deformações difamatórias
1. O crítico atribui ao doutor e a Monsenhor Thuc a opinião de que a ordenação de Lefebvre seria nula (p. 2). Como quem não quer nada, esquece que o próprio Lefebvre, em conferência de 26 de maio de 1976, na Casa Alemã de Montreal, revelou a condição maçônica de Achille Liénart, que o ordenara sacerdote e o consagrara bispo (cf. La Hostería Volante nº 31, maio de 1981, p. 29). Foi, pois, Marcel quem assim colocou em dúvida a validade de sua própria ordenação — nula se Liénart, como é provável, já era maçom antes de ser ordenado bispo — e, por conseguinte, a validade de todas as suas próprias ordenações, da Fraternidade e de todo o restante de sua obra.
[Nota d’O Recolhedor: Neste ponto, não compartilhamos do mesmo entendimento do professor Disandro, que pareceu confundir invalidez sacramental com ilicitude canônica. A respeito dessa controvérsia, o padre Anthony Cekada deu a resposta que julgamos definitiva.]
2. Aponta Dom Odo Casel (1886–1948), reconhecido por Disandro como seu mestre em alguns aspectos, como um precursor do Novus Ordo Missae (p. 8). Levanta assim suspeitas sobre a totalidade de sua obra, esquecendo, entre outras coisas, para sermos breves, que a encíclica Mediator Dei, de Pio XII, convalidou o essencial da obra do grande beneditino. Foi então Pio XII também um precursor da missa herética?
3. Acusa o doutor de gnóstico por usar a palavra eón (= αἰών; p. 7), embora o Novo Testamento use essa palavra grega mais de 100 vezes, e mais de 250 se contarmos o adjetivo correspondente, aionios. Cada vez que dizemos per saecula saeculorum, simplesmente damos a versão latina do grego eis tous aionas ton aionon. Pretende este ignorante que, junto com São Pedro, São João, São Mateus, São Paulo etc., sejamos gnósticos todos nós, cristãos que rezamos assim?
4. Redobra a acusação de gnosticismo baseando-se no uso, pelo doutor, do termo teândrico (p. 7), tomado dos Padres gregos, certamente, entre outros de Dionísio Areopagita, epístola 4, da qual derivou uma extraordinária controvérsia doutrinal sobre sua interpretação, por causa da heresia monotelita. Até que o Concílio de Latrão (ano 655) reassumiu a semântica patrística do termo e a fixou em seu cânon 15 (Denzinger 515). Gnósticos também então os Padres e esse Concílio!
5. O doutor lamentava, de fato, a RESTRIÇÃO que muitos temas teológicos, doutrinais e escriturísticos sofreram em virtude: a) de sua necessária tradução ao latim, nem sempre capaz de manter toda a riqueza dos termos gregos originários, analogamente, em princípio, ao que ocorre em qualquer tradução de uma língua a outra; b) do rumo seguido por algumas escolas teológicas da Igreja latino-medieval ou renascentista; c) e sobretudo do seguido pelas escolas que confluíram no Concílio de Trento. Mas, embora lamentasse essas restrições, Disandro jamais rejeitou o que esse Concílio, nem qualquer outro válido, estabeleceram em sua parte dogmática, inclusive o Vaticano I, como seu falaz censor pretende fazer crer aos desinformados (p. 6).
6. Atribui ao doutor o disparate de ter afirmado que a Igreja é “intratrinitária” (p. 5), isto é, parte integrante da Santíssima Trindade. A que título? Como uma pessoa a mais, por exemplo, para constituir assim uma espécie de Quaternidade? Será possível que este frade farsante despreze o doutor e nos despreze a ponto de querer fazer-nos acreditar em semelhante leviandade?
C) Questões doutrinais
Pela importância da temática correspondente, nosso diretor, por vezes incomodado pelo tom satírico de minha prosa, preferiu desenvolver ele mesmo este capítulo (ver p. 16), para assegurar um tratamento adequado. O que foi dito, porém, é suficiente para que o leitor vislumbre o nível de ignorância em que se movem este frade farsante e aqueles que o patrocinam, bem como seu mamarrachesco afã difamatório. Tão ridículo que nos vem à memória Dom Bartolo, aquele clérigo de O Barbeiro de Sevilha de Rossini, que, em uma ária hilariante e famosa, exalta como o melhor meio de se mover no mundo o valor da calúnia.
II – O OUTRO
O segundo mamarracho, que em sua obsessiva imaginação senil tende a confundir Lucrécio com o Kama-Sutra, insiste, como se uma vez não bastasse, no tema da viuvez intelectual (cf. nosso nº 1, p. 5, e Patria Argentina, nº 145, p. 16). Em uma breve introdução, que ocupa cerca de cinco sextos de seu escrito, tenta encobrir com exaltados autoelogios sua própria figura e, com baixos insultos, a de nosso diretor e do amigo e colega Marcos Ghio. Assim, enche-nos de regozijo, pois quem não o conheça bem, como nós, estará agora em condições de medir a estirpe de seu autor, manifesta nessa singular revelação. E poderá, além disso, compartilhar de nossa hilaridade: o tagarela, sob a influência de Werner Jaeger! Mas, após sua singular auto-exibição, o mamarracho vai ao que, em seu ressentimento guelfo, lhe importa: que o latim do Dr. Disandro é o de um “coroinha”!
Como os olímpicos diante da figura de Hefesto, desajeitado e grotesco, também nós, perante os dois mamarrachos mencionados, podemos unir-nos naquela insondável gargalhada que o divino Homero assim descreve:
ἄσβεστος δ’ ἄρ’ ἐνῶρτο γέλως μακάρεσσι θεοῖσιν
(inextinguível elevou-se o riso entre os bem-aventurados deuses)
Arwalt v. Kayser
