RITUAL DE COROAÇÃO DO SACRO IMPERADOR ROMANO
Papa Bento VIII (†1024)
Fonte: Paul Fabre, Louis Duchesne (eds.), Le Liber censuum de l’Église romaine, fasc. 5 (tomo II), p. 1–6. Paris, 1889.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Rito com o qual o Supremo Pontífice coroava o Sacro Imperador Romano.
Nota d’O Recolhedor: Uma só fé, uma só igreja, um só império. Ou isso, ou o reino do Anticristo.

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ORDO ROMANUS AD BENECIDENDUM IMPERATOREM[1]
[Ordo C]
Inicia-se o rito romano para abençoar o imperador quando este recebe a coroa do Senhor Papa na basílica do bem-aventurado apóstolo Pedro, no altar de São Maurício.
No dia do Senhor [domingo], bem cedo pela manhã, o Eleito desce com sua esposa até a igreja de Santa Maria Transpadina,[2] que está junto ao Terebinto, e ali é recebido com honra pelo prefeito da cidade e pelo conde do palácio de Latrão; e sua esposa, pelo juiz dativo e pelo arquivista. Em seguida, é conduzido pelo pórtico, com todos os clérigos da Cidade revestidos de capas, planetas, dalmáticas e túnicas, portando turíbulos e cantando “Eis que envio o meu anjo”, até o estrado do pátio superior, que fica no topo dos degraus diante dos portões de bronze de Santa Maria in Turri.[3] Ali o Senhor Papa se senta em sua cátedra,[4] cercado pelos bispos, cardeais-diáconos e os demais membros das ordens eclesiásticas. Então o imperador eleito, com sua esposa e todos os seus barões, clérigos e leigos, beija os pés do Senhor Papa; e, retirando-se a rainha à parte com os seus sobreditos condutores, o Eleito jura fidelidade ao Senhor Papa nestes termos:
“Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, eu, N., rei e futuro imperador dos Romanos, prometo, asseguro, garanto e, por estes santos Evangelhos, juro diante de Deus e do bem-aventurado apóstolo Pedro, fidelidade a ti, N., vigário do bem-aventurado apóstolo Pedro, e aos teus sucessores canonicamente entronizados, e desde agora prometo ser protetor e defensor desta santa Igreja Romana, de tua pessoa e de teus sucessores, em todas as suas necessidades, tanto quanto eu for amparado pelo auxílio divino, segundo o meu saber e poder, sem fraude nem má intenção. Assim Deus me ajude e estes santos Evangelhos.”[5]
E ali o camareiro do Senhor Papa recebe o manto do Eleito para si. Em seguida, o Senhor Papa pergunta-lhe três vezes se deseja ter paz com a Igreja; e, respondendo ele três vezes “Quero”, o Senhor Papa diz: “E eu te dou a paz, assim como o Senhor a deu aos seus discípulos”, e beija-lhe a fronte, o queixo (pois ele deve estar barbeado), ambas as faces e, por fim, a boca. Então, levantando-se, o Senhor Papa pergunta-lhe três vezes se ele quer ser filho da Igreja; e, respondendo ele três vezes “Quero”, o Senhor Papa diz: “E eu te recebo como filho da Igreja”, e o coloca sob o seu manto; o Eleito beija o peito do Senhor Papa, que o recebe[6] pela mão direita, enquanto seu chanceler o ampara pela esquerda. O Eleito é então conduzido pela direita pelo arquidiácono do Senhor Papa, e assim entra pelo portão de bronze, enquanto os clérigos de São Pedro cantam “Bendito seja o Senhor Deus de Israel”, até o portão de prata.[7] Ali o Senhor Papa o deixa em oração; a rainha, com seus condutores acima mencionados, segue-o a passo lento até o referido portão de prata. O Eleito, concluída a oração, levanta-se, e o Bispo de Albano[8] profere sobre ele esta primeira oração:
“Deus, em cujas mãos estão os corações dos reis, inclinai aos rogos de nossa humildade os ouvidos de vossa misericórdia e concedei ao nosso príncipe, vosso servo N., o governo da sabedoria, para que, nutrido pelos conselhos que procedem de vossa fonte, ele vos agrade e se eleve acima de todos os reinos.”
Depois disso, o Senhor Papa entra na igreja de São Pedro, enquanto os clérigos da mesma igreja cantam o responsório “Pedro, tu me amas?”. Concluído o canto, o Senhor Papa dá a bênção. Em seguida, senta-se na predita cátedra[9] preparada para ele, à direita da referida rota [disco de pórfiro no piso].[10] Terminada a oração do Bispo de Albano, entra o Eleito e senta-se na referida cátedra, sendo conduzido de um lado pelo arquipresbítero dos cardeais e do outro pelo arquidiácono, que se sentam junto a ele para instruí-lo sobre como deve responder ao Senhor Papa no escrutínio. O Senhor Papa procede então ao escrutínio deste modo: estando sentados sete bispos à sua direita,[11] segundo sua ordem, os bispos teutônicos sentam-se à direita do Eleito, e os cardeais e as demais ordens da Igreja tomam seus lugares.
O Senhor Papa diz: “A antiga instituição dos santos Padres ensina e prescreve que todo aquele que é eleito para governar deve ser examinado com o máximo cuidado e com toda caridade acerca da fé na Santa Trindade, e interrogado sobre diversas questões ou costumes que convêm ao seu governo, conforme a palavra apostólica: ‘A ninguém imponhas as mãos precipitadamente’; e também para que aquele que deve ser ordenado seja previamente instruído sobre como convém comportar-se na dignidade a ele conferida, a fim de que sejam escusáveis aqueles que lhe impõem as mãos. Portanto, por esta mesma autoridade e preceito, perguntamos a ti, filho dileto, com sincera caridade: queres consagrar toda a tua prudência, tanto quanto a tua natureza é capaz, ao serviço divino?”
Responde: “Sim, de todo o coração quero obedecer e consentir em tudo.”
É interrogado: “Queres refrear os teus costumes de todo o mal e, quanto puderes, com a ajuda do Senhor, transformá-los para todo o bem?”
Responde: “Quanto posso, quero.”
É interrogado: “Queres guardar a sobriedade com o auxílio de Deus?”
Responde: “Quanto posso, quero.”
É interrogado: “Queres entregar-te sempre às coisas divinas e manter-te alheio aos lucros torpes, tanto quanto a fragilidade humana te permitir?”
Responde: “Quanto posso, quero.”
É interrogado: “Queres guardar em ti mesmo a humildade e a paciência, e inclinar os outros a isso?”
Responde: “Quanto posso, quero.”
É interrogado: “Queres ser afável e misericordioso, por causa do nome do Senhor, para com os pobres, os peregrinos e todos os necessitados?”
Responde: “Quero.”
E o Senhor Papa diz: “O Senhor te conceda todas estas coisas e todos os demais bens, e te guarde e te fortaleça em todo o bem.”
E todos respondem: “Amém.”
É interrogado: “Crês, segundo o teu entendimento e a capacidade do teu espírito, na Santa Trindade, Pai e Filho e Espírito Santo, um só Deus onipotente, e na divindade toda na Trindade, coessencial e consubstancial, coeterna e co-onipotente, de uma só vontade, poder e majestade, criador de todas as criaturas, de quem tudo procede e em quem estão todas as coisas, visíveis e invisíveis, no céu e na terra?”
Responde: “Assinto e assim creio.”
É interrogado: “Crês que cada uma das pessoas da Santa Trindade é um só Deus verdadeiro, pleno e perfeito?”
Responde: “Creio.”
É interrogado: “Crês no próprio Filho de Deus, Verbo de Deus, eternamente gerado do Pai, consubstancial, co-onipotente e co-igual em tudo igual ao Pai na divindade, nascido temporalmente, pelo Espírito Santo, da sempre Virgem Maria, com alma racional, possuindo duas gerações, uma eterna, do Pai, outra temporal, da mãe, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, próprio e perfeito em ambas as naturezas, não adotivo nem aparente, único e um só Deus, Filho de Deus nas duas naturezas, mas na singularidade de uma só pessoa, impassível e imortal na divindade, mas, na humanidade, tendo padecido por nós e pela nossa salvação verdadeira paixão da carne, e tendo sido sepultado, ressuscitado dentre os mortos ao terceiro dia por verdadeira ressurreição da carne, tendo, no quadragésimo dia após a ressurreição, subido aos céus com a carne com que ressuscitou e com a alma, e estando sentado à direita de Deus Pai, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos e dar a cada um segundo as suas obras, tenham sido elas boas ou más?”
Responde: “Assinto e creio em tudo.”
É interrogado: “Crês também no Espírito Santo, pleno, perfeito e verdadeiro Deus, procedente do Pai e do Filho, co-igual, coessencial, co-onipotente e coeterno em tudo ao Pai e ao Filho?”
Responde: “Creio.”
É interrogado: “Crês que esta Santa Trindade não são três deuses, mas um só Deus onipotente, eterno, invisível e imutável?
Responde: “Creio.”
É interrogado: “Crês que a Santa Igreja Católica e Apostólica é una e a única verdadeira Igreja, na qual se confere o batismo e a verdadeira remissão de todos os pecados?”
Responde: “Creio.”
É interrogado: “Anatematizas também toda heresia que se levante contra a Santa Igreja Católica?”
Responde: “Anatematizo.”
É interrogado: “Crês também na verdadeira ressurreição desta mesma carne que agora carregas e na vida eterna?”
Responde: “Creio.”
É interrogado: “Crês também que o Deus e Senhor onipotente é o único autor do Novo e do Antigo Testamento, da Lei, dos Profetas e dos Apóstolos?”
Responde: “Creio.”
E diz-se-lhe: “Que esta fé seja aumentada pelo Senhor para a verdadeira e eterna bem-aventurança, diletíssimo filho em Cristo.”
E todos respondem: “Amém.”
Então o Senhor Papa dirige-se ao secretarium [sacristia] e se reveste das vestes pontificais até a dalmática, com a qual, revestido, se senta. Enquanto isso, o Bispo do Porto, no meio do disco de pórfiro central, pronuncia sobre o Eleito esta oração: “Deus inenarrável, autor do mundo…”, e assim por diante, como na unção do rei. Terminada a oração, o Eleito dirige-se ao coro de São Gregório[12] com o referido arquipresbítero dos cardeais e o arquidiácono, dos quais deve servir-se como mestres em todo o ofício da unção, e estes o revestem com o amito, a alva e o cíngulo, e assim o conduzem ao Senhor Papa no secretarium. Ali [o Papa] o faz clérigo[13] e concede-lhe a túnica, a dalmática, o pluvial, a mitra, as calças litúrgicas e as sandálias, para que delas se sirva na sua coroação; e assim revestido permanece de pé diante do Senhor Papa. Mas, concluído o escrutínio, o Bispo de Óstia dirige-se ao portão de prata, onde a rainha espera com seus juízes e barões, e profere sobre ela esta oração:
“Deus onipotente e eterno, fonte e origem da bondade, que de modo algum rejeitais a fragilidade do sexo feminino com desapreço, mas antes, dignando-vos confirmá-la, a escolheis; e que, escolhendo as coisas fracas do mundo, decretastes confundir as fortes; e que quisestes confiar o triunfo da vossa glória eterna e do vosso poder às mãos de Judite, mulher judia, contra um inimigo cruelíssimo: olhai, nós vos pedimos, para as súplicas da nossa humildade e multiplicai os dons das vossas bênçãos sobre esta vossa serva N., a quem, com humilde devoção, elegemos como rainha, e cercai-a sempre e em todo lugar com a destra do vosso poder, para que, firmemente protegida por todos os lados pela palavra da vossa defesa, ela possa subjugar triunfalmente as malícias do inimigo visível ou invisível, e, juntamente com Sara, Rebeca, Lia e Raquel, santas e veneráveis mulheres, mereça alegrar-se com o fruto do seu ventre, para o esplendor de todo o reino e para o governo e proteção da santa Igreja de Deus; por Cristo nosso Senhor, que se dignou nascer do ventre imaculado da bem-aventurada Virgem Maria para visitar e renovar este mundo, e que convosco vive e reina, Deus, na unidade do Espírito Santo, pelos imortais séculos dos séculos. Amém.”
Concluída essa oração, um dos cardeais presbíteros, a quem o prior tiver designado, e igualmente um dos diáconos, a quem o arquidiácono tiver ordenado, conduzem a rainha até o altar de São Gregório, onde deve esperar até que o Senhor Papa saia com sua procissão.
Concluídas, portanto, todas as coisas acima ditas, os ministros revestem o Senhor Papa com a planeta e o pálio, e, colocada a mitra, ele procede, com as ordens precedendo conforme o costume. Atrás dele vai o Eleito com os seus condutores acima mencionados, o qual é seguido por sua esposa até o túmulo do bem-aventurado Pedro. Então o primicério[14] canta o Introito com a escola, e o Kyrie eleison, e depois se faz silêncio. O Senhor Papa sobe ao altar e, após o Confiteor, dá a paz aos diáconos e incensa; terminado a incensação, sobe à cátedra. Enquanto isso, o Eleito e sua esposa prostram-se diante do túmulo do bem-aventurado Pedro, e o arquidiácono entoa a ladainha. Terminada esta, o Eleito é despojado das vestes, mantendo-se apenas o pluvial. O Bispo de Óstia unge-lhe o braço direito com óleo exorcizado e também as costas, entre as espáduas, dizendo: “Senhor Deus onipotente, a quem pertencem todo poder e dignidade, nós vos suplicamos com devota submissão e humilíssima prece que concedais a este vosso servo o próspero efeito da dignidade imperial, de modo que, constituído por vossa disposição para reger a vossa Igreja, nada lhe entrave o cumprimento de seus deveres, nem as coisas futuras o detenham; mas, inspirado pelo dom do vosso Espírito Santo, possa governar o povo a ele sujeito com a balança equitativa da justiça, e em todas as suas obras sempre vos tema e continuamente se esforce por vos agradar. Por nosso Senhor. Amém”.
Segue-se a oração: “Deus, Filho de Deus, Jesus Cristo, Senhor nosso, que foi ungido pelo Pai com o óleo de exultação acima de seus companheiros, Ele mesmo derrame sobre a tua cabeça, pela presente infusão do sagrado unguento, a bênção do Espírito Paráclito, e faça com que ela penetre até o íntimo do teu coração, para que, por meio deste dom visível e sensível, possas perceber as coisas invisíveis, e, governando o reino temporal com justa moderação, mereças reinar eternamente com Aquele que, sendo o único sem pecado, vive como Rei dos reis e se gloria com Deus Pai na unidade do mesmo Espírito Santo. Amém”.
Após a unção do rei, segue-se a bênção da rainha diante do altar: “Deus, que só vós tendes a imortalidade e habitais em luz inacessível, cuja providência não falha em sua disposição; que fizestes as coisas futuras e chamais à existência as que não são como se fossem; que, com justo governo, derrubais os soberbos de seu principado e elevais benignamente os humildes, suplicantes exoramos à vossa inefável misericórdia para que, assim como fizestes a rainha Ester ser assumida no tálamo do rei e passar ao consórcio do seu reino para a salvação de Israel, liberta dos grilhões do seu cativeiro, assim também concedais misericordiosamente que esta vossa serva N., pela bênção da nossa humildade e para a graça da salvação do povo cristão, seja elevada à digna e sublime união com o nosso rei e à participação no seu reino; e que, permanecendo sempre casta na aliança conjugal régia, possa conservar próxima a palma da dignidade, desejando sempre agradar ao Deus vivo e verdadeiro em todas as coisas e acima de tudo, e, por vossa inspiração, realize de todo o coração aquilo que vos agrada. Por nosso Senhor Jesus Cristo. Amém”.
A unção com o óleo sagrado sobre o peito da rainha: “Que a graça do Espírito Santo desça copiosamente, pelo ministério da nossa humildade, sobre o teu peito por meio desta sagrada unção; para que, assim como te tornas visivelmente ornada sendo ungida exteriormente com óleo material pelas nossas mãos indignas, assim também, ungida interiormente por uma unção invisível, mereças ser enriquecida no íntimo; e, plenamente imbuída dessa unção espiritual, possas aprender e ser capaz de evitar com toda a mente o que é ilícito e desprezá-lo, e de pensar, desejar e realizar continuamente o que é útil para a tua alma, com o auxílio de nosso Senhor Jesus Cristo, que com o Pai e o mesmo Espírito Santo vive e reina, Deus, pelos séculos dos séculos. Amém”.
Depois disso, o Senhor Papa desce da cátedra e dirige-se ao altar de São Maurício,[15] seguido pelo Eleito e pela rainha. E, estando o Senhor Papa de pé sobre o limiar à entrada do altar, o Eleito permanece diante dele no meio da rota; à direita deste permanece a rainha, estando ao redor seis bispos do palácio de Latrão nos lugares ali dispostos, enquanto o sétimo serve ao Senhor Papa no ofício do altar. Então o primeiro e o segundo oblacionários[16] tomam as coroas do Eleito e da rainha do altar de São Pedro e as colocam sobre o altar de São Maurício. Então o Senhor Papa entrega o anel ao Eleito e diz: “Recebe o anel, isto é, o selo da santa fé, a firmeza do reino e o aumento do poder; por meio dele saibas repelir, com potência triunfante, os inimigos, destruir as heresias, unir os súditos e permanecer ligado à perseverança da fé católica. Por nosso Senhor. Amém”. Oração após a entrega do anel: “Deus, a quem pertencem todo poder e dignidade, concedei ao vosso servo o próspero efeito da dignidade que lhe foi confiada, para que nela, sendo por vós recompensado, permaneça firme, a conserve sempre e continuamente se esforce por vos agradar. Por nosso Senhor. Amém”.
Aqui ele é cingido com o gládio, e se diz: “Recebe este gládio, a ti conferido com a bênção de Deus, com o qual, pela virtude do Espírito Santo, possas resistir e expulsar todos os teus inimigos e todos os adversários da santa Igreja de Deus, tutelar o reino a ti confiado e proteger os exércitos de Deus, com o auxílio do invencível triunfador, nosso Senhor Jesus Cristo, que com o Pai vive e reina na unidade do Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém”. Oração após o gládio: “Deus, que pela vossa providência governais as coisas celestes e as terrenas ao mesmo tempo, sede propício ao nosso cristianíssimo rei, para que toda a força de seus inimigos seja quebrada pelo poder do gládio espiritual e, combatendo por ele, seja completamente destruída. Por nosso Senhor. Amém”.[17]
Aqui ele é coroado: Então o arquidiácono recebe a coroa do altar de São Maurício e a entrega ao Senhor Papa, e, quando o Senhor Papa a coloca sobre a cabeça do Eleito, diz esta oração: “Recebe o sinal da glória, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para que, desprezando o antigo inimigo e rejeitando os contágios de todos os vícios, ames o juízo e a justiça e vivas tão misericordiosamente que possas receber do próprio Senhor nosso Jesus Cristo, no consórcio dos santos, a coroa do reino eterno, Ele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina, Deus, pelos infinitos séculos dos séculos. Amém”.
Imposição da coroa sobre a cabeça da rainha: Quando o Senhor Papa a impõe sobre a cabeça dela, os sete bispos impõem as mãos, e o Senhor Papa diz em alta voz (enquanto os sete bispos permanecem em silêncio): “Recebe a coroa da excelência régia, a qual, ainda que seja colocada sobre tua cabeça por mãos indignas, é, todavia, imposta pelas mãos dos bispos. Assim como ela é exteriormente ornada de ouro e de gemas, assim também tu te esforces para ser interiormente adornada com o ouro da sabedoria e as gemas das virtudes, para que, após o ocaso deste século, possas correr digna e louvavelmente ao encontro do Esposo eterno, nosso Senhor Jesus Cristo, junto com as virgens prudentes, e mereças entrar com Ele na porta do reino celeste, Aquele que com Deus Pai e o Espírito Santo vive e reina, Deus, pelos infinitos séculos dos séculos. Amém”.
Aqui o Senhor Papa lhe entrega o cetro imperial e diz: “Recebe o cetro, insígnia do poder régio, isto é, a vara reta do reino, a vara da virtude, com a qual governes bem a ti mesmo, defendas com poder régio a santa Igreja e o povo cristão a ti confiado por Deus contra os homens ímpios, corrijas os maus, mantenhas os justos na paz e os conduzas com teu auxílio para que possam seguir o caminho reto, a fim de que, do reino temporal, alcances o eterno, com o auxílio d’Aquele cujo reino e império permanecem sem fim pelos séculos dos séculos. Amém”.
Oração após a entrega do cetro: “Senhor Deus, fonte de todos os bens e autor de todos os progressos, concedei ao vosso servo N., nós vos pedimos, a dignidade alcançada de bem governar e de robustecer a honra que por vós lhe foi prestada; honrai-o acima de todos os reis da terra, enriquecei-o com abundante bênção e firmai-o com sólida estabilidade no trono do reino. Visitai-o em sua descendência, concedei-lhe longa vida, e que em seus dias sempre floresça a justiça, para que, com alegria e júbilo, seja glorificado no reino eterno. Por nosso Senhor. Amém”.
Depois disso, o Senhor Papa retorna com seus ministros ao altar do bem-aventurado Pedro. Então o prefeito da cidade e o primicério dos juízes conduzem o imperador; a imperatriz, por sua vez, é conduzida pelo prefeito naval [almirante] e pelo secundicério[18] dos juízes. Estando já todos em seus devidos lugares, o Senhor Papa entoa: “Glória a Deus nas alturas”, e a escola [de canto] responde. Em seguida, profere esta oração: “Deus de todos os reinos, etc.”.
Terminada esta, o arquidiácono, com os demais diáconos do palácio, e com o primicério e os subdiáconos, entre a cruz e o altar, inicia estas aclamações: “Cristo, ouvi-nos”.
A escola com os notários responde no coro: “Ao nosso senhor N., por Deus instituído Sumo Pontífice e Papa universal: vida!” (três vezes).
Novamente diz o arquidiácono, cantando junto com os demais: “Cristo, ouvi-nos”.
E escola com os notários responde no coro: “Ao nosso senhor, grande e pacífico imperador, por Deus coroado: vida e vitória!” (três vezes).
“Cristo, ouvi-nos.”
“À nossa senhora N., sua esposa, excelentíssima imperatriz: vida!” (três vezes).
“Cristo, ouvi-nos.”
“Ao exército Romano e Teutônico: vida e vitória!” (três vezes).
“Salvador do mundo.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Miguel.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Gabriel.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Rafael.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Pedro.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Paulo.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São João.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Gregório.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Maurício.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“São Mercúrio.”
R: “Vós, ajudai-os.” (três vezes).
“Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera!” (e os demais respondem do mesmo modo, três vezes).
“Nossa esperança.”
R: “Cristo vence.”
“Nossa salvação.”
R: “Cristo vence.”
“Nossa vitória.”
R: “Cristo vence.”
“Nossa honra.”
R: “Cristo vence.”
“Nosso muro inexpugnável.”
R: “Cristo vence.”
“Nosso louvor.”
R: “Cristo vence.”
“Nosso triunfo.”
R: “Cristo vence.”
“A Ele o louvor, a honra e o império pelos imortais séculos dos séculos. Amém.”
Terminadas essas aclamações, lê-se a Epístola, e canta-se o Gradual e o Aleluia. Depois disso, o imperador e a imperatriz depõem as coroas. Então lê-se o Evangelho. Em seguida, o imperador depõe o gládio e sobe até a cátedra do Senhor Papa, seguido pela imperatriz, e oferece ao Senhor Papa pão juntamente com círios e ouro. Em particular, o imperador oferece o vinho e a imperatriz a água, com os quais se deve realizar o sacrifício naquele dia. Terminadas essas coisas, eles retornam aos seus lugares. Quando começa o Prefácio, o imperador retira o pluvial e veste o seu próprio manto. Quando se diz “A paz do Senhor”, ele sobe para comungar, vestido com seu manto próprio, e a imperatriz com ele. Recebida a comunhão, retornam novamente aos seus lugares. Terminada a missa, o conde do palácio aproxima-se do imperador, descalça-lhe as sandálias[19] e as cáligas[20] e o calça com as botas imperiais[21] e as esporas de São Maurício; e, recebidas as coroas, seguem o Senhor Papa que se dirige para montar a cavalo, sendo conduzidos até os cavalos pelos condutores acima mencionados.
Quando o Senhor Papa chega ao cavalo, o imperador sustenta o estribo [para o Papa montar]; e, novamente coroado, entra na procissão. O imperador o segue com seus condutores; a imperatriz segue o imperador com os seus; e os demais barões os seguem. Todos os clérigos da cidade, conforme o costume, entoam aclamações em seus respectivos lugares; os judeus, de modo semelhante, em seu próprio lugar; a cidade é decorada com coroas, e todos os sinos tocam. Os camareiros do imperador vão adiante e atrás lançando moedas, para que o caminho dos cavaleiros não seja impedido. Quando chegam ao ascensorium,[22] o prior dos cardeais de São Lourenço fora dos muros inicia as aclamações, como é costume, e os demais respondem. Terminadas estas, o imperador desce do cavalo e sustenta o estribo para o Senhor Papa descer, tendo antes deposto a coroa. Em seguida, o Senhor Papa é conduzido pelo imperador e pelo prefeito da cidade até a câmara do palácio maior,[23] onde então se separam. A imperatriz, por sua vez, é conduzida pelo primicério e pelo secundicério dos juízes até a câmara da imperatriz Júlia,[24] onde deve tomar refeição com os bispos e os demais barões. Os camareiros do imperador, juntamente com o camareiro do Senhor Papa, distribuem o presbyterium[25] a todas as ordens do sacro palácio, enquanto o pontífice e o imperador repousam na câmara. Feito isso, o imperador toma refeição à direita do Senhor Papa, sentando-se os demais em seus devidos lugares. Terminada a refeição, levanta-se um dos diáconos designado pelo arquidiácono e lê uma lição [leitura bíblica]; terminada a leitura, os cantores se levantam e cantam conforme o costume. Concluído o canto, levantam-se todos com as bênçãos.
O Senhor Papa retorna à sua câmara; o imperador, à câmara de Júlia. O Eleito, descendo do Monte Gaudio e chegando ao Ponticello, presta aos Romanos este juramento:[26]
“Eu, N., futuro imperador, juro guardar para os Romanos os bons costumes e confirmar as cartas do terceiro gênero[27] e os privilégios,[28] sem fraude nem má intenção. Assim Deus me ajude e estes santos Evangelhos.”
Do mesmo modo deve jurar na Porta Colina.[29] E igualmente nos degraus de São Pedro.
[1] Este Ordo coronationis é o mais antigo dos rituais desse gênero em sua forma completa. Foi publicado por Martène, De antiquis Ecclesiae ritibus, apêndice ao livro II, tomo II, p. 302 da edição de Veneza de 1783, a partir de um manuscrito Chigi copiado por Mabillon; depois, com base em nosso manuscrito, por Muratori, Antiquitates Italicae, tomo I, p. 101; Cenni, Monumenta dominationis Pontificiae, tomo II, p. 261; Pertz, Monumenta Germaniae Leges, tomo II, p. 187; Mai, Spicilegium Romanum, tomo VI, p. 228; Watterich, Pontificum Romanorum Vitae, tomo II, p. 712. Ele foi estudado juntamente com documentos semelhantes por Waitz, Die Formeln der deutschen Königs- und der römischen Kaiserkrönung, nas Abhandlungen der Königlichen Gesellschaft der Wissenschaften zu Göttingen, tomo XVIII, 1873, p. 52, e por J. Schwarzer, Die Ordines der Kaiserkrönung, em Forschungen zur deutschen Geschichte, tomo XXII, 1882, p. 172. Segundo alguns (Pertz, Waitz, etc.), teria sido redigido para a coroação do imperador Henrique VI por Celestino III, em 15 de abril de 1191; segundo outros (Cenni, Gregorovius, Ficker, Schwarzer), teria sido utilizado tal como está para a sagração de Henrique III, em 25 de dezembro de 1046. Esta última hipótese também me parece a mais provável.
[2] Sobre essa igreja, veja-se Louis Duchesne, Liber Pontificalis, tomo I, p. 520, nota 79.
[3] Ibidem, tomo II, p. 339, 416.
[4] Cf. o texto dos Annales Romani sobre a coroação de Henrique V (em 1111), Liber Pontificalis, tomo II, p. 340: “Quando ele subiu aos degraus superiores, ali estava o Senhor Papa com vários bispos, com os cardeais-presbíteros e diáconos, com os subdiáconos e os demais ministros da escola dos cantores. Tendo o rei se prostrado a seus pés, após o ósculo dos pés, foi elevado para o ósculo da boca. Três vezes se abraçaram, três vezes se beijaram mutuamente”. É sem dúvida devido a um erro de transcrição que os cardeais-presbíteros foram omitidos [no texto do ritual original]; creio que se deva restabelecer: et cardinalibus presbiteris et diaconis [“e os cardeais-presbíteros e diáconos”].
[5] (a) No Ordo B, o imperador assim diz: “Em nome de Cristo prometo, asseguro e garanto eu, N., imperador, diante de Deus e do beato Pedro apóstolo, que sou o protetor e o defensor desta Santa Igreja Romana em todos os interesses, enquanto eu estiver apoiado no divino auxílio, segundo meu saber e poder”. (b) No Ordo D, o futuro imperador diz: “Pois eu, N., Rei dos Romanos, futuro imperador por anuência do Senhor, prometo, asseguro, garanto e juro, diante de Deus e do beato Pedro, que, ademais, haverei de ser o protetor e o defensor do Sumo Pontífice e da Santa Igreja Romana em todas as suas necessidades e interesses, guardando, conservando as posses, as honras e os direitos dela, quanto eu estiver apoiado no auxílio divino, segundo meu saber e poder, com fé reta e pura. Assim Deus me ajude, e estes santos evangelhos de Deus”. (c) No Pontificale Romanum (edição de 1878, p. 162–163), o futuro rei diz: “Eu, N., por anuência de Deus, futuro rei N., professo e prometo, diante de Deus e dos anjos dele, imediatamente, fazer e guardar a lei, a justiça e a paz à Igreja de Deus, e ao povo sujeito a mim, de acordo com o poder e o saber, salvo o condigno respeito à misericórdia de Deus, como terei podido encontrar na assembléia dos meus fiéis; apresentar também aos pontífices das igrejas de Deus a honra condigna e canônica; e observar, inviolavelmente, as coisas que foram conferidas e devolvidas às igrejas pelos imperadores e reis; prestar aos abades, aos condes e meus vassalos a honra côngrua, segundo a assembléia dos meus fiéis. Assim Deus me ajude, e estes santos evangelhos de Deus”. (Nota Edição Centro Dom Bosco).
[6] Annales Romani: “Logo em seguida, segurando a mão direita do Pontífice… chegou ao portão de prata. Ali, leu no livro a profissão [juramento] imperial e foi designado imperador pelo Pontífice, e novamente foi beijado pelo Pontífice”. Nesse caso o juramento é prestado no próprio portão da basílica (porta Argentea), ao passo que o Ordo o situa no portão do átrio (porta aerea). Na vida de Adriano IV por Boson (Liber Pontificalis, tomo II, p. 392), vê-se que Frederico Barbarossa encontra o Papa na própria igreja de Santa Maria in Turri, onde prestou seu juramento, consuetam professionem et plenariam securitatem, secundum quod in Ordine continetur [“a profissão costumeira e a plena garantia, conforme está contido no Ordo”].
[7] No original latino, portam Argentariam. Leia-se Argenteam. Cf. Liber Pontificalis, tomo I, p. 324, nota 2.
[8] Annales Romani: “Logo o Bispo de Labico pronunciou sobre ele a primeira oração, conforme está contido no Ordo”. — Boson: “Diante dos portões de prata recebeu a primeira oração de um de nossos bispos”.
[9] Annales Romani: “Depois de entrar na basílica, quando chegou ao disco de pórfiro (rota porfiretica), colocados assentos de ambos os lados…”.
[10] Não se havia falado disso ainda. Isto, assim como a expressão in predicta sede[“na predita cátedra”], um pouco mais adiante, supõe que algo se perdeu aqui no texto. Devia ter sido mencionado um assento preparado para o Eleito sobre a rota porphyretica, um grande disco de pórfiro incrustado no pavimento da basílica. Ele ainda existe.
[11] Os sete bispos do palatium Lateranense (palácio de Latrão), como é dito mais adiante; suburbicários, como se diz hoje. Foram reduzidos a seis por Calisto II.
[12] A capela de São Gregório abria-se ao pé da nave lateral esquerda, bem próxima da sacristia ou secretarium. Cf. Liber Pontificalis, tomo II, p. 83, nota 3.
[13] O imperador se tornava clérigo, mas sua ordenação, é claro, não era um sacramento, e sim um sacramental, tal como o rito de coroação. (Nota Edição Centro Dom Bosco).
[14] Primicério era quem ocupava o primeiro lugar na precedência do grupo a que pertencia. Dizia-se, por exemplo, primicério dos acólitos, primicério dos exorcistas, primicério dos juízes, etc. (Nota Edição Centro Dom Bosco).
[15] No transepto, encostado ao muro que separava as arcadas pelas quais se chegava a partir das naves laterais esquerdas.
[16] Era chamado oblacionário o subdiácono que recebia as oblações, isto é, as oferendas dos fiéis na missa. (Nota Edição Centro Dom Bosco).
[17] No Ordo D, estas são as palavras depois da entrega do gládio: “E assim que o coroando tiver sido cingido pelo gládio, tira-o da bainha, vibra-o virilmente três vezes, e, imediatamente, recoloca-o na bainha. Ele, pois, assim cingido e tornado admiravelmente um soldado do beato Pedro, o Apostólico, em seguida, tira o diadema do altar e o põe na cabeça do coroando, e diz: “Recebe…”. A fórmula do Papa, no Ordo D, quando entrega o gládio, é: “Recebe o gládio, extraído do alto, do corpo do beato Pedro, através de nossas mãos, ainda que indignas, todavia consagradas no lugar e na autoridade dos Santos Apóstolos, concedido imperialmente a ti, divinamente ordenado pelo ofício da nossa bênção + para a defesa da santa Igreja de Deus…”. (Nota Edição Centro Dom Bosco)
[18] O secundicério era aquele que ocupava o segundo lugar na ordem de precedência do grupo a que pertencia. (Nota Edição Centro Dom Bosco).
[19] Não eram sandálias comuns de tiras, mas sim as sandálias pontificais. Eram calçados fechados, luxuosos, geralmente feitos de seda, veludo ou couro fino, ricamente bordados com fios de ouro e pedras preciosas. Como o imperador havia acabado de ser “ordenado” clérigo pelo papa no início do ritual, ele usava essas sandálias religiosas durante a missa. (N.T.)
[20] Eram as meias litúrgicas ou perneiras de tecido nobre (geralmente seda) que iam até o joelho, amarradas com tiras. Elas eram vestidas antes das sandálias litúrgicas. (N.T.)
[21] No original latino, ocreas imperiales, as botas de cano alto ou perneiras de montaria do próprio imperador. (N.T.)
[22] Apeadouro ou lugar de montaria, um espaço ou estrutura elevada (como degraus ou um pequeno bloco de pedra) que facilita subir ou descer de um cavalo ou outro animal. Esse local situava-se evidentemente na entrada do palácio de Latrão.
[23] O triclínio de Leão III; cf. Liber Pontificalis, tomo II, p. 3, 6, 35, nota 14. Ele se encontrava no palácio interior, aqui chamado maior.
[24] Havia no Latrão, pelo menos desde o início do século VI, uma basilica Iuliae ou Iulii, frequentemente mencionada como lugar de reuniões e solenidades oficiais (Gregório Magno, Registrum epistularum, XIII, 1; Liber Pontificalis, tomo I, p. 227, 281, 296, 371). No último texto do Liber Pontificalis, na vida de Sérgio, ela é designada como basilica domus Iuliae quae super campum respicit [“a basílica da casa de Júlia que dá para o campo”]. Portanto, situava-se na parte exterior do palácio, aquela voltada para o local onde hoje se encontra o obelisco. As reformas posteriores (Liber Pontificalis, tomo II, p. 40, nota 52) não suprimiram a antiga denominação; nos séculos XI e XII, ela passou a designar um aposento, aquele onde se recebiam os imperadores.
[25] No contexto do latim medieval e da corte papal (a corte de Latrão), o termo designa uma gratificação em dinheiro, recompensa ou bônus distribuído aos funcionários e clérigos do palácio após uma grande solenidade. (N.T.)
[26] Esses dois juramentos são mencionados nos Annales Romani, a propósito de Henrique V: “Segundo o costume dos imperadores anteriores, fez dois juramentos ao povo romano, um diante do ponticellum, outro diante do portão do pórtico”. Sobre essa topografia, cf. Liber Pontificalis, tomo II, p. 340.
[27] No direito romano tardio e medieval (especialmente a partir da época bizantina e do Reino Lombardo na Itália), os documentos de propriedade e transferências de terra eram divididos pelos tabeliães em “gêneros” ou classes de validade e solenidade. As cartas de terceiro gênero referiam-se a uma categoria específica de escrituras públicas de propriedade e contratos de arrendamento de longo prazo. Elas garantiam juridicamente que as terras da aristocracia e dos cidadãos romanos não seriam tomadas pela coroa imperial. (N.T.)
[28] Na linguagem jurídica da época, um libellus (plural: libelli, literalmente “livrinho” ou “pequeno documento”) tinha dois significados principais que se aplicam aqui: 1) Era o nome técnico para contratos de arrendamento de terras que duravam geralmente 29 anos ou três gerações. A maior parte das terras ao redor de Roma pertencia à Igreja ou a grandes barões, e os cidadãos comuns as cultivavam sob o direito do libellus. Se o imperador não os confirmasse, ele poderia desalojar milhares de famílias. 2) Também designava os documentos oficiais nos quais imperadores anteriores haviam concedido isenções de impostos, direitos de comércio ou autonomia jurídica para corporações de ofício de Roma. (N.T.)
[29] Note-se que o imperador faz esse juramento em três pontos estratégicos antes de entrar no coração de Roma: no Monte Gaudio (onde avistava a cidade), no Ponticello e na Porta Colina. Os cidadãos de Roma tinham pavor de que o exército germânico do imperador invadisse a cidade e mudasse as leis, confiscasse bens ou anulasse seus contratos. Esse juramento era a “condição de entrada”: os romanos só abriam as portas da cidade e o recebiam pacificamente se ele jurasse, sob os Santos Evangelhos, que manteria a paz social respeitando os contratos privados (cartas tercii generis) e os direitos adquiridos (libelli) do povo. (N.T.)
