SOBRE O BATISMO DE ESCRAVOS DOS JUDEUS
Santo Agobardo de Lyon (†840)
Fontes: (a) Agobardi Lugdunensis Opera Omnia, Opusculum XI, ed. L. Van Acker, Corpus Christianorum. Continuatio Mediaevalis LII, p. 115–117. Turnholt: Brepols, 1981. (b) Patrologia latina, vol. CIV, p. 173–178. Paris, 1864.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Primeiro dos escritos de Santo Agobardo (779–840) contra os judeus, surgido em 823, e seguido por outros quatro nos cinco anos seguintes, mapeando sua luta contra a influência judaica na corte franca. Ele relata seu abatimento após uma audiência frustrada no palácio imperial e solicita ajuda a autoridades eclesiásticas em busca de aconselhamento sobre se a Igreja deve conceder o batismo a escravos pagãos de proprietários judeus que desejam se converter ao cristianismo. Ele sustenta que a alma humana pertence apenas ao Criador, defendendo que o sacramento deve ser realizado independentemente da permissão dos senhores carnais. Por fim, expressa o profundo temor de sofrer tanto represálias humanas quanto a punição divina, apelando à intervenção urgente dos destinatários junto ao imperador para solucionar o impasse.
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DE BAPTISMO JUDAICORUM MANCIPIORUM
Aos reverendíssimos e beatíssimos senhores e santos padres Adalardo, Wala e Helisachar.
Recentemente, quando já nos havia sido concedido o tempo para retornar do palácio, vossa suavíssima caridade se deteve e me ouviu, enquanto eu mais murmurava do que propriamente falava contra aqueles que apoiavam as queixas dos judeus. E, tendo sido ouvidas por vós essas coisas, e moderadas as que eram ditas por ambas as partes, levantastes-vos, e eu depois de vós. Entrastes na presença do príncipe; eu permaneci diante da porta. Pouco depois, fizestes com que eu entrasse, mas nada ouvi senão a concessão de me retirar. Porém, o que dissestes ao clementíssimo príncipe sobre a referida causa, como ele a recebeu e o que respondeu, não ouvi. Depois não me aproximei de vós, impedido por uma vergonha tímida e por uma aflição que me fatigava, a qual certamente me sobreveio não tanto pela complexidade dos fatos quanto pela fraqueza do meu ânimo. Por essa razão, retirei-me perturbado, segui viagem incerto, cheguei em casa confuso e permaneci abatido. Eu até poderia escrever as causas desta aflição, mas temo causa fadiga à vossa mansidão. Todavia, o portador desta carta poderá expô-las a vós, se a vossa longanimidade o permitir.
Há certas coisas que julgo não dever calar, por causa das quais me dirijo à vossa fidelíssima paternidade, levando-as ao conhecimento da vossa prudência. A primeira, que me é sumamente necessário saber — e, creio eu, também a todos, para que possais me dar um conselho digno e conforme à obra divina — é o que deve ser feito acerca dos escravos pagãos dos judeus, que eles compraram. Pois, criados entre eles, mas vivendo no nosso meio, eles aprendem a nossa língua, ouvem falar da fé, veem as celebrações das solenidades e, por meio disso, são tocados pelo amor do cristianismo e desejam tornar-se membros de Cristo no corpo da Igreja; e refugiam-se na Igreja, pedindo o batismo. Deve-se, portanto, negar-lhes isso ou concedê-lo, quando possível? Sobre essa questão, sustento o seguinte princípio: todo homem é, de fato, criatura de Deus, e em cada homem, ainda que escravo, maior parte pertence ao Senhor Deus — que o criou no ventre, o trouxe à luz desta vida, protegeu a vida concedida e preservou sua saúde — do que àquele que, tendo pago vinte ou trinta sólidos, usufrui do serviço de seu corpo. E não há quem duvide de que cada escravo, embora deva ao senhor carnal os serviços do corpo, deve a religião da sua mente somente ao Criador. Por essa razão, todos os santos pregadores, companheiros dos apóstolos, ensinando todas as nações e batizando, não esperavam a licença dos senhores carnais para batizar os escravos, como se estes não devessem ser batizados sem tal permissão, mas, sabendo e pregando que escravos e senhores têm um só Senhor Deus nos céus, a todos batizaram, a todos reuniram em um só corpo e ensinaram que todos são irmãos e filhos de Deus, porém de tal modo que cada um permanecesse na condição em que foi chamado, não por escolha, mas por necessidade, ainda que, se pudessem tornar-se livres, mais proveito tirariam disso.
Também é fácil deduzir pela razão que, se alguns dos pagãos fogem para Cristo e não os acolhemos, mas os rejeitamos por causa dos senhores carnais, isso é ímpio e cruel, pois nenhuma alma humana pode ter outro senhor senão o Criador. Mas também pensamos que isto deve ser considerado também: se o religioso imperador move armas contra povos estranhos ao nome de Cristo e, tornando-se vencedor, os submete a Cristo e os associa à religião, isso é uma obra de piedade e digna de louvor; como então negligenciar quando, entre os súditos, existem tais que desejam o batismo? Não dizemos isso para que os judeus percam o dinheiro que pagaram por tais escravos, mas porque oferecemos o pagamento segundo os estatutos dos antigos, e eles não o aceitam, julgando contar com o favor dos magistrados do palácio e que estes lhes querem mais bem do que aos demais que sustentam o que foi acima dito.
Essas são as coisas acerca das quais rogamos o vosso conselho ou, por vosso intermédio, a ordem do senhor imperador. O que, de fato, não seria necessário se aquele que é o mestre (magistrado) dos judeus desse atenção ao que vós lhe dissestes para fazer. Pois, se ele, conforme vossa ordem, considerasse fielmente o nosso ministério, assim como nós desejamos honrá-lo no seu, não haveria necessidade de causar incômodo questionando, exceto para o crescimento da doutrina. De resto, não haveria nenhuma contenda nem discórdia acerca das questões dos judeus, se ele quisesse agir de modo racional.
Agora, porém, procedei conosco segundo a caridade que o Espírito Santo derramou em vossos corações e trazei consolação ao vosso servo, pois estou sob grande temor e tomado por diversas angústias. Pois se, de fato, negamos o batismo aos judeus ou aos seus escravos que o pedem, temo a condenação divina; se o concedemos, temo a ofensa humana e os ataques hostis contra a nossa casa. Sobre esses danos e discórdias, porque julguei indigno escrevê-los nesta carta, enviei um breve escrito à vossa piedade, pelo qual possais conhecer o que são. E que a vossa feliz mansidão não se digne irritar-se comigo por eu ser importuno ao vos pedir tais coisas, mas considerai que se trata da causa da Igreja, da razão da fé e de uma obra divina. Além disso, tenho toda confiança em vossa santidade; por isso, assumi este santo trabalho em vista da recompensa eterna e ajudai a nossa Igreja, prestando auxílio e instrução, pois sois devedores em razão da imensa confiança que ela deposita em vós.
