EXECRAÇÃO CONTRA OS JUDEUS
Francisco Gómez de Quevedo Villegas y Santibáñez Cevallos (†1645)
Fontes: (1) Alfonso Rey, “Un texto inédito de Quevedo: Execración por la fee católica contra la blasfema obstinación de los judíos que hablan portugués y en Madrid fijaron los carteles sacrílegos y heréticos”. Boletín de la Biblioteca Menéndez Pelayo (1993), LXIX, p. 105–141. (2) Francisco de Quevedo, Execración contra los judíos, edição de Fernando Cabo Aseguinolaza e Santiago Fernández Mosquera. Crítica, Colección Anejos de Biblioteca Clásica, 1996. Links: (1) https://www.cervantesvirtual.com/obra/un-texto-inedito-de-quevedo-execracion-por-la-fe-catolica-contra-la-blasfema-obstinacion-de-los-judios-que-hablan-portugues-y-en-madrid-fijaron-los-carteles-sacrilegos-y-hereticos-980008/ (2) https://www.letrasgalegas.org/obra/un-texto-inedito-de-quevedo-execracion-por-la-fe-catolica-contra-la-blasfema-obstinacion-de-los-judios-que-hablan-portugues-y-en-madrid-fijaron-los-carteles-sacrilegos-y-hereticos-980008/ (3) https://archive.org/details/execracion-contra-los-judios-quevedo/ (4) https://annas-archive.gl/md5/1792d51d03c2735299fd488e0055b612 (5) https://www.equintanilla.com/documentos/sefarad4/textos/P8_Execracion_contra_judios_Quevedo.pdf (6) https://aaargh.vho.org/fran/livres7/execracion.pdf (7) https://uncatolicoperplejo.com/execracion-contra-los-judios-de-francisco-de-quevedo/ (8) https://es.wikisource.org/wiki/Execraci%C3%B3n_contra_los_jud%C3%ADos (9) https://journals.openedition.org/criticon/15591
Tradutor do texto: Lúcio Guimarães.
Descrição: A imprensa galega e espanhola dos dias 25 e 26 de julho de 1991 — de modo especial, La Voz de Galicia, El Correo Gallego, El País, ABC e Diario 16 — noticiou, com relativa profusão de dados, a descoberta de um texto perdido de Quevedo, cuja tradução se empreende aqui. A descoberta foi realizada por Dom José María Díaz Fernández, cônego arquivista da catedral de Santiago. Neste texto, memorial de 1633, Francisco de Quevedo (1580–1645) dirige-se a Filipe IV (1605–1665) para denunciar a afixação de pasquins sacrílegos em Madrid por marranos portugueses. Quevedo interpreta as sucessivas derrotas militares e reveses coloniais da Coroa como castigo divino decorrente da tolerância régia aos judeus e judaizantes. Amparando-se em textos bíblicos, no direito canônico e nos estatutos de pureza de sangue, o memorialista caracteriza os judeus como traidores incorrigíveis. Ele ataca duramente a política econômica da Coroa, sustentando que os financistas judeus de Portugal operavam como espiões a soldo de potências inimigas. Por fim, exorta o monarca à ruptura imediata de todos os contratos com esses banqueiros e à sua erradicação perpétua dos reinos hispânicos.
Nota d’O Recolhedor: Confira também “A Ilha dos Monopantos”
_______________







EXECRAÇÃO PELA FÉ CATÓLICA CONTRA A BLASFEMA OBSTINAÇÃO DOS JUDEUS QUE FALAM PORTUGUÊS E EM MADRID AFIXARAM CARTAZES SACRÍLEGOS E HERÉTICOS, ACONSELHANDO O REMÉDIO QUE DETENHA AQUILO QUE, TENDO SUCEDIDO NESTE MUNDO, COM TODOS OS TORMENTOS AINDA NÃO SE PODE COMEÇAR A CASTIGAR

Escreve-a Dom Francisco de Quevedo Villegas, Cavaleiro da Ordem de Santiago e Secretário de Sua Majestade.
À Majestade Católica do Rei Nosso Senhor Dom Felipe IV deste nome.
Deus, iuditium tuum regi da, et iustitiam tuam filio regis.[1]
Senhor:
Se o sentimento pudesse ser consolo para o horror de que toda a Espanha está possuída neste sacrilégio, ao que Vossa Majestade tem mostrado, cheio de religião[2] e zelo católico, dever-se-ia este remédio. Mas as circunstâncias de tal delito negam a vossos bons vassalos o consolo em vossa dor e a vós, Senhor, aquele que teríeis em consolar a dor deles com a vossa. Eu, como Jó, falarei na amargura de minha alma,[3] por ser fiel, e nada calarei, por ser leal, pretendendo não ser réu perante ambas as majestades: a eterna, como sua criatura; a vossa, como vosso servidor, que reverencia o juramento feito ao serviço de Vossa Majestade.[4]
De duas maneiras Deus Nosso Senhor sempre castigou, e de ambas nos castiga: uma é castigar os pecados; a outra, castigar com os pecados. Não sei se acerto em temer a última como maior, pois, quanto pior é o pecado que o castigo, tanto pior castigo é o pecado. Castiga Deus nossas culpas permitindo que nossos regozijos sejam nossas lágrimas; foi o que se viu em duas festas de touros na praça, onde, na primeira, queimando-se de noite até os alicerces um lado da praça,[5] ninguém pereceu;[6] e, na segunda, sem cair coisa alguma nem arder uma madeira, tantas pessoas morreram miseravelmente.[7] Castiga Deus permitindo, em Cádiz, que nossos portos sejam corsários de nossas mercadorias, e as âncoras de nossos navios, seus furacões.[8] Dá aos rebeldes as praças em Flandres.[9] Dá a frota, sem resistência nossa nem gasto de pólvora, aos hereges.[10] Entrega-lhes, no Brasil, os lugares e portos e as ilhas.[11] Abre-lhes passagem para a Itália.[12] Dá-lhes vitórias na Alemanha e socorros.[13] Castigos são de sua mão, satisfações são de sua ira, grandes e dolorosas.[14] Mas permitir que na corte de Vossa Majestade açoitem e queimem um crucifixo,[15] que repetidamente afixem nos lugares públicos e sagrados cartazes contra sua lei sacrossanta e unicamente verdadeira,[16] isto é castigar com os pecados. E pecados tais que, nesta vida, não podem ter castigo proporcionado.
Senhor, vermo-nos castigados pela mão de Deus não deve afligir-nos, mas emendar-nos, porque seu açoite tem, por sua bondade, mais de advertência que de pena. Assim o ensina o grande doutor e Padre Santo Agostinho: “Qui gaudet miraculis beneficiorum gaudeat etiam in terroribus ultionum, nam et blanditur, et minatur, si non blandiretur nulla esset exhortatio, si non minaretur nulla esset correctio” (“Quem se alegra com os milagres dos benefícios alegre-se também nos terrores das vinganças, porque afaga e ameaça. Se não afagasse, não haveria exortação alguma; se não ameaçasse, não haveria correção alguma”).[17]
Todas as nossas calamidades referidas encontro uma por uma enumeradas, com sua causa, no profeta Naum (cap. 3): Vox flagelli, et vox impetus rote, et equi frementis, et equitis ascendentis, et micantis gladis, et fulgurantis haste, et multitudinis interfecte, et gravis ruine; nec est finis cadaverum et corruent in corporibus suis; propter multitudinem fornicationum meretricis speciose et grate, et habentis maleficia, que vendit gentes in fornicationibus suis, et familias in maleficiis suis (“A voz do açoite, a voz do ímpeto da roda, a do cavalo que geme, a do cavaleiro que sobe, a da espada que reluz, a da lança que fulmina, a da multidão morta e da grande ruína; não têm fim os cadáveres, e precipitar-se-ão em seus corpos pela multidão das fornicações da meretriz formosa e favorecida, e que tem feitiços, que vende as gentes em suas fornicações e as famílias em suas feitiçarias”).[18] Outros poderão achar esses sinais da rameira, pela formosura, valimento e feitiços, bem parecidos a outra coisa. Eu, porém, reconheço ser essa rameira a nação judaica, com a autoridade de Isaías, (cap. 1): Quomodo facta est meritrix civitas fidelis plena iudicii? (“Como se tornou meretriz a cidade fiel, cheia de juízo?”).[19] Por ela, Senhor, e por suas prevaricações, temo que tenhamos ouvido na Itália, Flandres e Alemanha todas as vozes referidas, pois nos gritaram o açoite, a roda, o cavalo, o cavaleiro, a espada, a lança e a multidão de defuntos, pronunciando horror com os cadáveres e escrevendo de espanto, com ossos ensanguentados, os campos.
Oh, Senhor, a quão profundos recônditos da alma faz o sentimento descer a consideração![20] Não duvido de que padecerão a mão sacrílega que escreveu os cartazes e a língua maldita que os ditava.[21] Davi, rei santo e profeta rei,[22] o assegura no salmo 51: Quid gloriaris in malitia, qui potens es in iniquitate? (“Por que te glorias na malícia, tu, poderoso na iniquidade?”).[23] Por todo o salmo e, particularmente, nos versículos 6 e 7: Dilexisti omnia verba precipitationis, lingua dolosa; propterea Deus destruet te in finem; evellet te, et emigrabit te de Tabernaculo tuo, et radicem tuam de terra viventium (“Amaste, língua maldita, todas as palavras de precipitação; por isso Deus te destruirá no fim, e te arrancará e te lançará fora de teu tabernáculo, e tua raiz da terra dos viventes”).
Mas, Senhor, quem nos dará satisfação de que em vossa corte tenha havido pedras que consentissem tais cartazes, quando sabemos que as pedras (nisto) mudaram de natureza por nossos pecados? Pois quando viram outro cartaz sobre a cruz de Cristo, quebraram-se as de Jerusalém, e, com estes, não se moveram as de Madrid. Rasgaram os montes seus claustros, e foi-lhes fácil desatar a ligação dos outeiros, e não se fenderam as portas e as paredes onde os pregaram. Gemeu com os trovões o céu, troou com as borrascas o mar, e faltou voz às esquinas. Os mortos saíram das sepulturas quando a mesma nação condenou Cristo, e hoje os vivos parecem mortos, e sepulcros as casas. Encontrou o sol, em pleno dia, noite com que cobrir o rosto para não ver as afrontas a Cristo, e nesta ocasião faltaram nuvens que lhe enlutassem a luz, para que faltasse dia em que ler blasfêmias tão excomungadas.[24] Quem deixará de confessar que essa infâmia desconsola o tempo e o lugar![25]
Fique aqui a ponderação, pois para o castigo e o remédio Vossa Majestade é o único inteiramente católico, monarca grande pelas virtudes, piedade e religião; supremo pelo poderio e pelas forças. Amparais o santo Tribunal da Inquisição, mão direita e sagrada de vossa justiça, mais precioso raio de vossa coroa, fortaleza inexpugnável de vossos reinos, tutela soberana de vossos vassalos. Passemos ao remédio pelo conhecimento da causa infernal de tão sacrílegos e abomináveis efeitos.
Sereníssimo, mui alto e mui poderoso Senhor, preceda em vossos ouvidos esta advertência ao meu discurso. Da benignidade de Vossa Majestade espero que lhe dará passagem desembaraçada até seu coração real, do qual confio que, por estar na mão de Deus, será assistido meu zelo e acolhida minha verdade.
Os gloriosos antecessores de Vossa Majestade expeliram de todos os seus reinos a pérfida nação judaica quando se coroavam em poucos e pobres retalhos da Espanha, recobrados à inundação dos mouros pelo valor das relíquias cristãs que, daquela ruína universal, ficaram (parte desprezadas, parte defendidas pela espada de Santiago, seu único patrono).[26] E me persuado, com grandes fundamentos, de que, por aquela expulsão, Jesus Cristo Nosso Senhor estendeu o círculo de sua coroa sobre todo o caminho do sol, não apenas apagando as dos mouros, mas incluindo nela as coroas de outros reis católicos, como se vê nas de Aragão, Portugal, Nápoles e Sicília.[27] Muito deve Vossa Majestade à misericórdia de Deus, que reuniu orbes tão distantes para cingir, em majestade incomparável, seus cabelos, deixando fora de sua obediência aqueles que castiga.[28] E, quando o sol, em tudo quanto caminha com as horas, não dá passo onde vós não domineis, a noite, no mundo oposto, não contempla, com o desvelo das estrelas, mar nem terra que não seja vosso.
As causas que obrigaram os progenitores de Vossa Majestade a limpar de tão má geração estes reinos leem-se em todos os livros que doutissimamente escreveram grandes varões em defesa dos estatutos, igrejas e colégios e ordens militares.[29] Não as calam as histórias nacionais e estrangeiras. É corrente e por poucos ignorado o escrito que declara a causa da última expulsão; e, com ele, circula o conselho que os maus judeus, príncipes da sinagoga de Constantinopla, deram àqueles que, da Espanha, lhes noticiaram o desterro e os castigos que padeciam, conselho tão habitado de veneno que contagia lê-lo, e molesta ver com quanta manha souberam executá-lo. Transcreve-o literalmente em espanhol o doutor Ignacio del Villar Maldonado, doutíssimo jurisconsulto, em seu livro impresso cujo título é Silva responsionum iuris, livro 1, na duodécima resposta, parágrafo 51.[30] Referirei a Vossa Majestade uma cláusula dele: “E, pois dizeis que os ditos cristãos vos tiram vossos bens, [então] fazei vossos filhos advogados e mercadores, e eles lhes tirarão, aos seus, os bens. E, pois dizeis que vos tiram as vidas, [então] fazei vossos filhos médicos e cirurgiões e boticários, e eles tirarão a seus filhos e descendentes as suas. E, pois dizeis que os ditos cristãos violaram e profanaram vossas cerimônias e sinagogas, [então] fazei vossos filhos clérigos; estes poderão com facilidade violar seus templos e profanar seus sacramentos e sacrifícios”.
Nota d’O Recolhedor: Confira “Carta aos judeus de Constantinopla (1489)”.
Eu, Senhor, não estou tão certo de que os judeus de Constantinopla tenham dado esse conselho aos da Espanha[31] quanto de que os judeus da Espanha o executaram. Se se considera a disposição relativa à saúde e às vidas, mais vidas nos custam seus remédios e suas receitas que as batalhas. Um médico foi causa da última expulsão. Era judeu e trazia no interior de um pomo de ouro um retrato seu, pisando com os pés o rosto de um crucifixo.[32] E, no mesmo livro e parágrafo citado, conta o doutor Ignacio del Villar Maldonado de outro médico judeu, de quem se averiguou ter matado mais de trezentas pessoas com remédios adulterados e venenosos, e que, todas as vezes que entrava em casa, ao voltar de assassinar os enfermos, sua mulher, que era judia como ele, lhe dizia: “Bem-vindo seja o vingador”, ao que o médico judeu respondia, erguendo a mão cerrada do braço direito: “Venha, e vingará”.[33] E dessas histórias de médicos judeus que venderam por dinheiro a peste aos cristãos estão cheios os livros, as histórias e os autos da Inquisição. E hoje, Senhor, em Madrid, são muitos os médicos e oficiais de botica portugueses que há dessa maldita e nefanda nação;[34] e são infinitos os que andam pelejando por todos os reinos, sob pretexto de curar, e a cada dia o Santo Ofício os leva das mulas ao braseiro.[35]
João Batista de São Nazário, chamado Ripa, in suo tractatu iuridico De peste, fólio 76, In electione medicorum, diz estas palavras veementes: “Ego autem aloquor Avenionienses, qui se suosque liberas in infirmitatibus committunt Iudeis perfidis et Christianorum inimicis, nam si Christum persecuti sunt, credendum est quod nos quoque persequentur, alias si contrarium creditis, eritis illis, similes qui Christum mendosum et prophetam asseverant. Ego autem Christianus sum, et agnosco veritatem Christi dicentis. ‘Si me persecuti sunt, et vos persequentur’.[36] Mortem profecto appetit qui a Iudeos sanitatem exquirit, quia sine auxilio Christi se sanum fieri putat” (“Advirto eu aos avinhonenses que, na enfermidade, confiam a si mesmos e a seus filhos aos pérfidos judeus e aos inimigos dos cristãos, pois, se perseguiram Cristo, deve-se crer que também nos perseguirão; se pensais o contrário, sereis para aqueles semelhantes aos que chamam Cristo de mentiroso e profeta. Eu, ao contrário, sou cristão e reconheço a verdade de Cristo ao dizer: ‘Se me perseguiram a mim, também a vós perseguirão’. Além disso, pede a morte aquele que busca a cura nos judeus, porque considera que pode sarar sem a ajuda de Cristo”) (cap. qui sine XVII, quest. II).[37]
Contra si ouve as palavras de Jesus Cristo qualquer cristão que dos judeus se prometa outra coisa que não morte e perseguição. Pois, se os patrimônios particulares e públicos o declaram, bem verificado choram aquele endemoninhado conselho, sendo verdade que não há coisa que se venda ou se compre, a retalho ou por atacado, vil ou preciosa, desde o fio até o diamante, que não esteja em seu poder, nem estanco,[38] nem arrendamento, nem administração que não possuam. E, tendo chegado a ser contratadores, aproximaram sua vingança de mais do que puderam maquinar os detestáveis rabinos de Constantinopla. Na parte de fazerem-se advogados, não falo, porque não é necessário; nem na de fazerem-se sacerdotes, porque não posso. É demais dizer o que se vê e ensinar alguém o que todos contam. Tudo isso devem ter reconhecido e prevenido os senhores reis de feliz memória, as leis, os regulamentos e os sagrados cânones que, para todas essas coisas, exceto a mercancia, mandaram que precedesse informação de pureza de sangue.[39]
Tal é aquela nação que os príncipes não tiveram por segurança completa desterrá-los. Antes, por tudo o que foi dito, reconheceram o perigo e o contágio numa pequena participação de suas veias. O bafo de sua vizinhança infecta, sua sombra atosiga. Uma gota de sangue que derive dos judeus seduz a motins contra o de Jesus Cristo todo o sangue de um corpo, ainda no mais qualificado. Não a fazem esquecer-se de sua má qualidade as tardanças do tempo.[40] Sempre piora o bom sangue com que se junta, e por isso o busca. Nunca melhora com o bom com que se mistura, e por isso não o teme. E é, Senhor, caso admirável e grande maravilha que Deus Nosso Senhor premiasse a última expulsão dos abomináveis judeus e o estabelecimento, contra sua perfídia, do tribunal do Santo Ofício com dar aos Reis Católicos tanto mundo, que tão antigo desconhecimento guardara até seus dias, para que fosse recompensa de ação tão cumulada de glória e, juntamente, sinal de quanto agradou à majestade divina tão santa determinação. Detenha Vossa Majestade a consideração no cuidado que nisso teve nosso verdadeiro Deus, pois, indo Colombo primeiro oferecer o Novo Mundo ao rei de Portugal, não lhe foi concedido, e o levou ao rei Dom Fernando, para que dele gozasse quem desterrava os judeus e o perdesse quem os acolheu.[41]
Devo propor à consideração de Vossa Majestade que nossos acontecimentos se apresentam em oposição àqueles sucessos, se, depois de os judeus se terem introduzido na Espanha no maior comércio, com honra e autoridade, e pretendido, por escritos impressos, o abrandamento de gravames e alguma exceção em matéria de vender bens e poder ausentar-se, e que se determine fim à sua afronta,[42] experimentamos perdas de praças, de gente e de frotas. E não é alheio à razão atribuir isso aos judeus que temos, pois os temos como prêmio dos que expulsamos. São dignas da atenção de Vossa Majestade as grandes e milagrosas pragas que Deus, sendo os judeus seu povo, enviou sobre o Faraó, porque os retinha e não os deixava partir, e as que envia, que não são menores que aquelas, hoje que são povo contra Ele, sobre os que os mantêm e não os expulsam. Esta, Senhor, é gente que produz pragas se a retêm e se não a lançam fora. Não será hoje menos condenada a dureza de quem não os expulsar do que foi a daquele que não os deixou partir. Que se pode esperar daqueles que crucificaram aquele que esperam, e daqueles que, crucificado, o queimam, e daqueles que, queimado, condenam à morte sua sacrossanta lei com éditos abomináveis? Prometo-me da justiça de Vossa Majestade que, recordado dos ultrajes tão atrozes feitos em seu tempo ao Santíssimo Sacramento por dois hereges em sua corte, dos primeiros cartazes que, com a mácula destes segundos, se afixaram em Sevilha quando o inglês atacou Cádiz,[43] não apenas mandará que, com todo rigor, se observem os estatutos, o que creio que se fez e faz, mas que, ampliando-os, passará a ordenar que suas ordens, com perpétuo desterro, lancem fora de todos os seus reinos essa cizânia excomungada. E, porque a esse remédio pode parecer obstáculo, nas ocorrências[44] presentes, ser dessa detestável, pérfida, endurecida e maldita nação a maior parte dos contratadores, digo que teria por mais seguro o desamparo extremo de todos que o socorro destes.
Senhor, olhando para vossas grandes e admiráveis virtudes, atrevo-me a dizer-vos aquelas palavras do salmo, convenientes por serem de rei para rei, graves e misteriosas por serem de rei profeta e santo. Como posso, a vós as aplico: Quia dilexisti iustitiam, et odisti iniquitatem, propterea ungit te Deus tuus oleo letitie pre consortibus tuis (“Porque amaste a justiça e aborreceste a maldade, por isso te ungiu teu Deus com óleo de alegria entre teus consortes”);[45] do que se infere literalmente que, assim como há óleo de alegria para ungir o rei que, como Vossa Majestade, ama a justiça e aborrece a maldade (como o mostra o quia, causal), também haverá óleo de tristeza para ungir o rei que amar a maldade e aborrecer a justiça. E, como conheço a grande religião de vosso ânimo e a esclarecida benignidade de vosso coração, quero informar Vossa Majestade da natureza iníqua,[46] da índole danada e injuriosa dessa abatida[47] e vilíssima nação judaica. E, para que minhas palavras não sofram objeção, todas serão, na primeira prova, textos sagrados.
No livro 5 das Decretales de judeis sarracenis, título VI, cap. VIII: “Ad hec omnibus Christianis qui sunt in iurisditione vestra penitus interdicatis, et si neccesse fuerit, districtione eclesiastica compellatis eosdem, ne Iudeorum seruitio se assidue, pro aliqua mercede exponant: quod etiam obstetricibus et nutricibus eorum, prohibere curetur ne infantes Iudeorum, in eorundem domibus nutrire presumant: Quoniam Iudeorum mores et nostri, in nullo concordant, et ipsi de facili ob continuam conversationem et assiduam familiaritatem ad suam superstitionem et perfidiam simplicium animos inclinarent” (“Além disso, proibais terminantemente a todos os cristãos que se encontram sob a vossa jurisdição e, se necessário, compeli-os mediante sanções eclesiásticas, a que não se coloquem habitualmente a serviço dos judeus em troca de qualquer remuneração. Cuidai também de estender essa proibição às parteiras e amas de leite, para que não ousem amamentar e criar os filhos dos judeus nas casas destes. Pois os costumes dos judeus e os nossos em nada concordam, e eles, pela convivência contínua e pela familiaridade assídua, facilmente inclinariam os espíritos dos simples à sua superstição e perfídia”).[48] Ordena esse decreto que se proíba aos cristãos servir aos judeus e às amas cristãs criar os filhos deles, e dá a razão: porque os costumes dos judeus em nada concordam com os nossos, e, com o trato e a convivência, diz o santo Pontífice, é-lhes fácil seduzi-los à sua perfídia e bestial superstição.
Repare Vossa Majestade em que não se podem atribuir a outra coisa os danos e escândalos que sucedem senão à licença com que se derroga esse decreto. E mais, Senhor, lendo no mesmo título, capítulo XIII, estas palavras tão santas quanto temerosas: “Et si Iudeos (quos propria culpa submisit perpetue seruituti) pietas Christiana receptet et sustineat cohabitationem illorum: ingrati tamen nobis esse non debent, ut redant christianis pro gratia contumeliam, et de familiaritate contemptum: qui tanquam misericorditer, in nostram familiaritatem admissi, nobis illam retributionem impendunt, qua (iuxta vulgare proverbium) mus in pera, serpens in gremio, et ignis in sinu suis consueverunt hospitibus exhibere” (“E, embora a piedade cristã acolha os judeus, a quem sua própria culpa submeteu à servidão perpétua, e tolere a convivência com eles, não devem, contudo, mostrar-se ingratos para conosco, retribuindo aos cristãos a benevolência com injúrias e a familiaridade com desprezo. Pois, admitidos misericordiosamente ao nosso convívio, oferecem-nos aquela retribuição que, segundo um provérbio popular, costumam dar aos seus hospedeiros o rato na bolsa, a serpente no regaço e o fogo junto ao peito”).[49]
Senhor, esse capítulo, para guiar as determinações de Vossa Majestade, lê-se escrito em tantos nortes quantas letras. Diz que os judeus, por sua própria culpa, estão sujeitos à perpétua escravidão; logo, excluídos estão, por suas maldades, não apenas de ter cargos e mandar, mas de ter liberdade e deixar de ser escravos. E, como se ao santo Pontífice se consultasse admiti-los como contratadores, diz que não se deve comunicar nem tratar com eles, porque os judeus dão o pagamento que dá o rato a quem o leva nos alforjes, a serpente a quem a abriga no regaço e o fogo a quem o acolhe no seio.
Veja Vossa Majestade: se o sustento que lhes confiamos, eles o roem, se o regaço em que os abrigamos, eles o envenenam, se o seio onde os recolhemos, eles o abrasam, ratos são, Senhor, inimigos da luz, amigos das trevas, imundos, fedorentos, asquerosos, subterrâneos. O que se lhes confia roem, e o que lhes sobra infectam. Suas unhas despedaçam a terra em calabouços e buracos, seus dentes têm por alimento todas as coisas, ou para comê-las ou para destruí-las, vigilantes durante o sono e o descuido daqueles que os padecem temerosos, e fecundos de fertilidade tão nociva que a casa em que estão a minam, de sorte que não pode viver nela quem se contenta com fechar os buracos ou espantá-los, e só pode habitá-la quem ou dela se muda ou os mata. Serpentes são, Senhor, que caminham sem pés, que voam sem asas, escorregadias, que dissimulam sua estatura enrodilhando-a, que se disparam flecha e arco com sua língua nos círculos sinuosos de seu corpo,[50] que se encolhem para alongar-se, que pagam, em veneno desentorpecido, o abrigo que se lhes dá. Fogo são, que paga a vizinhança em incêndios e o acolhimento em cinzas, que de pequena centelha crescem em fogueira, que, tocados, queimam e, vistos, deslumbram, tolerados consomem e apagados fumegam, e sempre com inquietação se apressam a consumir o que os alimenta.
Soberana, Sacra, Católica e Real Majestade: não duvido de que, com esta advertência dos sagrados cânones, mandareis lançar o rato fora de vosso alimento, a serpente de vosso regaço e o fogo de vosso seio. E, para que vejais que dessa comparação com os judeus ficam afrontados e queixosos o fogo, a serpente e os ratos, ouvi as palavras com que o pontífice termina esse capítulo 13: “Accepimus autem quod Iudei faciunt Christianas filiorum suorum nutriles, et (quod non tantun dicere, sed etiam nefandum est cogitare) cum in die Resurectionis Dominice illas recipere corpus et sanguinem Iesu Christi contingit, per triduun antequam eos lactent, iac effundere faciunt in latrinam, alia insuper contra fidem catholicam detestabilia et inaudita committunt, propter quae fidelibus est verendum, ne divinam indignationem incurrant: cum eos perpetrare patiuntur indigne, que fidei nostre confusionem inducunt” (“Chegou, porém, ao nosso conhecimento que os judeus empregam mulheres cristãs como amas de leite de seus filhos e que — coisa que não apenas é abominável dizer, mas até mesmo pensar —, quando ocorre de essas mulheres receberem o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo no dia da Ressurreição do Senhor, fazem-nas derramar seu leite na latrina durante três dias, antes de amamentarem seus filhos. Além disso, cometem outros atos detestáveis e inauditos contra a fé católica, pelos quais os fiéis devem temer incorrer na indignação divina, uma vez que permitem que eles perpetrem impunemente atos que redundam em confusão para a nossa fé”).[51]
Não tenho por que encarecer a Vossa Majestade as palavras desse capítulo, que em suas piedosas entranhas terão mais comiseração do que eficácia em minhas razões. Apenas recordo a Vossa Majestade que por isso, na casa real, é estatuto que se faça informação acerca das amas dos sereníssimos príncipe[52] e infantes, e que, ainda que o leite seja bom, não se admita[53] na que for dessa perversa ralé, temendo, mesmo em tamanha majestade, o contágio dessa nação que Jó descreve e desenha em Beemote e Leviatã (cap. 39): Ecce Behemoth (“Eis Beemote”).[54] Não me deterei em todo o capítulo, para não fazer comentário nem discurso. Deterei a atenção no versículo 13 e no 18, que retratam nesse monstro o povo judeu: Ossa ejus veluti fistulae aeris, cartilago illius quasi lamminae ferrae (“Seus ossos como canhões de metal, suas cartilagens como lâminas de ferro”).[55] Não é, Senhor, de outra sorte sua dureza. Os ossos desses pérfidos são canhões de artilharia; suas medulas são balas; suas cartilagens, lâminas de ferro. Estes não são homens, mas máquinas de guerra. Com a carne arrebatam a bateria sobre a qual se fabricam. Prossegue Jó: Ecce absorbebit fluvium, et non mirabitur, et habet fidutiam quod influat Iordanis in os ejus (“Vede-o: sorverá o rio e não se admirará, e tem esperança de que há de esgotar o Jordão em sua boca”).[56] Aqui, Senhor, declara a pretensão desse povo anatematizado pelo rio que sorve, e não se admira de sua sede insaciável de usuras e riquezas. Pelo Jordão que espera esgotar, declara que seu negócio é esgotar o batismo. Pois eu assim o entendo literalmente na expressão encerrar em sua boca o Jordão, rio onde Cristo batizou e foi batizado, águas que foram solar do batismo, de onde nossa alma prova sua nobreza e limpeza na lei da graça.
Pedro Comestor, na Historia eclesiástica de los Actos,[57] fól. 249, diz que, tendo São Paulo, ao pregar em Atenas, convertido muita gente, passou a Corinto, onde converteu um judeu que se chamava Áquila, com sua mulher Priscila, dos quais fala muitas vezes quando escreve a seus amigos. Estes tinham acabado de chegar da Itália, expulsos pelo édito do imperador Cláudio, que os desterrara de seu império porque, com a familiaridade e a influência que tinham junto de Agripina, sua mulher, já a haviam introduzido em seus ritos, de sorte que judaizava.[58] Pois, se esse trato foi de tal perigo na família imperial e, por imperador idólatra, foi rejeitado por édito como detestável e contagioso, Vossa Majestade, monarca católico, verá melhor que todos o que a todos convém.
Apresento a Vossa Majestade, como testemunha contra essa geração de ferro, adúltera e viperina, Davi. Deles é, com eles fala, nomeando-os, mandando-lhes que atendam e chamando-os, como seu rei, seu povo, salmo 77: Attendite, popule meus (“Atende, povo meu”).[59] Em todo esse salmo encarece sua dureza, sua ingratidão, sua obstinação, seu esquecimento, suas maldades, sua cegueira, sua idolatria. Diz os benefícios tão maravilhosos que de Deus receberam e como lhos pagaram em ofensas. Diz os castigos e como os desprezaram com perfídia. Do que se infere, Senhor, que, uma vez que Deus nem pelo bem nem pelo mal os submeteu, devem os homens tirar ensinamento para tratá-los e conhecê-los. Davi o diz com estas palavras: Et rememorati sunt, quia Deus adiutor est eorum. Et Deus excelsus redemptor eorum est. Et dilexerunt eum in ore suo, et lingua sua mentiti sunt ei (“E recordaram-se de que Deus foi sua ajuda e é seu redentor. Amaram-no em sua boca e com sua língua lhe mentiram”).[60] Pois, se com Deus e para com Deus não têm trato seu coração e sua língua, nem sua língua com sua boca, quem esperará verdade de seu trato? E no salmo 105: Et iratus est furore Dominus in populum suum, et abominatus est hereditatem suam (“Irou-se Deus com furor contra seu povo e abominou sua herança”).[61] Estes, depois, na paixão de Jesus Cristo, pediram para si e para seus filhos esta abominação: “Chova o sangue do justo sobre nós e sobre nossos filhos!”.[62]
Senhor, abominemos aqueles que Deus abominou e, neles e em seus filhos, aborreçamos cada gota daquele sangue que pediu que sobre eles chovesse o de Jesus Cristo. Aumenta em crédito esta informação que vos faço com o que diz o salmo 94: Quadraginta annis offensus fui generationi illi; et dixi: Semper hi errant corde (“Quarenta anos tive tédio dessa geração, e disse: São um povo de coração errante”)[63] Quem se atreverá a aconselhar-vos que confieis em nação e gente cujos corações erram sempre? Que benefícios lhes pode fazer Vossa Majestade que se igualem à menor parte do menor que Deus lhes fez? Que castigos que se proporcionem ao mais leve que Deus lhes deu? Logo, não tendes que esperar deles bem algum, nem deveis esperar mais com eles para desolá-los. Os opróbrios com que nomeio esses judeus não os invento; de seu caudilho Moisés os aprendi (Deuteronômio, 32): Generatio prava atque perversa, heccine reddis Domino, popule stulte, et insipiens? Numquid non ipse est pater tuus, qui possedit et creavit te? (“Geração depravada e perversa, esse pagamento dás a teu Senhor, povo néscio e insipiente? Porventura não é ele teu pai, que te possui e te criou?”).[64] Com essa passagem provo eu que os judeus hoje são os puros ateístas. É opinião minha. Não perca por sê-lo, nem por nova.
Senhor, é evidente que os judeus não creem em nada, porque àquele que é Deus negam, e àquele que não o é aguardam. Têm por lei aquela que já não o é, e assim vivem sem lei, coisa que os turcos os fazem confessar quando renegam. Por eles disse Davi então, para agora: Dixit insipiens in corde suo: Non est Deus (“Disse o insipiente em seu coração: Não há Deus”).[65] Que esse insipiente seja o povo judeu, literalmente o disse Moisés na passagem citada, quando o chamou popule stulte et insipiens (“povo néscio e insipiente”), com a própria e mesma palavra. E, para que se soubesse que esse insipiente que disse não haver Deus era o povo judeu, deu os sinais com que hoje eles próprios o confessam: Corrupti sunt, et abominabiles facti sunt in studiis suis; non est qui faciat bonum, non est usque ad unum (“Corruptos são e abomináveis em seus tratos. Não há quem faça o bem, não há nem um só”).[66] Não se contenta Davi com dizer que nenhum há entre eles que faça o bem, mas cuidadosamente repete que “nem um há entre eles que faça o bem”. Pois, Senhor, quem buscar ou se persuadir de que entre esses malditos há de haver um sequer que faça o bem não perderá apenas o tempo, sem dúvida se perderá, pois perde o respeito ao próprio Deus, não dando crédito a suas próprias palavras referidas por Isaías (cap. 1): Cognovit bos possessorem suum, et asinus presepe domini sui; Israel autem me non cognovit (“Conheceu o boi a seu dono e o jumento a manjedoura de seu senhor, mas Israel não me conheceu”).[67] Mais ingratos são os judeus e menos conhecimento têm que o jumento ou o boi. São tão maus que não podem ser piores. Não apenas não conhecem o bem, mas o bem que recebem pagam com o mal, e não gastam o mal senão em agradecer o bem. Davi, seu rei, o diz (salmo 35): Retribuebant mihi mala pro bonis (“Pagavam-me com males os bens”).[68] Pois, Senhor, se dar mal por mal é fragilidade, dar bem por bem é justiça e dar bem por mal é caridade perfeita, dar mal por bem será suma iniquidade; e desta ficam convencidos por seu próprio rei, para vós, que o sois neste tempo.
Deixo de referir a Vossa Majestade todas as coisas que contra essa nação alega o bacharel Marcos de Mazarambroz, que foi lugar-tenente, na cidade de Toledo, de Pedro Sarmiento, assistente daquela cidade, quando, no tempo do rei Dom João II, todos os cristãos-velhos, comandados pelo dito lugar-tenente e assistente, queimaram vivos todos os judeus da referida cidade e lhes saquearam os bens. Por essa mortandade, o rei, por conselho de Dom Álvaro de Luna, que se deixava governar por um Mosén Hamom, judeu vilíssimo da Sinagoga de Alcalá, foi contra a dita cidade, assistente, lugar-tenente e cristãos-velhos, em favor da causa dos judeus, do que resultou que, fechando a cidade suas portas ao rei Dom João, obrigou-o a declarar traidor o bacharel, como principal cabeça, a inabilitá-lo e a obter de Sua Santidade que o excomungasse. E de todas essas penas o bacharel Marcos de Mazarambroz interpôs apelação, na qual se leem coisas pertinentes ao nosso propósito, para a pretensão presente.[69]
Nota d’O Recolhedor: Confira “A Sentença-Estatuto de 1449 contra os judeus”.
Mas devo referir a Vossa Majestade as palavras que sobre os judeus e sua índole diz Cornélio Tácito, para que na boca de tão grande autor se veja como todos julgaram os judeus. Não calarei o que Tertuliano, no Apologético, disse dele, repreendendo-o na matéria histórica que afirmou a respeito deles: “Insignis ille mendatiorum loquacissimus Cornelius Tacitus” (“Insigne charlatão mentiroso, Cornélio Tácito”).[70] Mas, como digo, isso se referia ao histórico,[71] e não ao juízo. Historiarum, livro 5, no princípio, diz, tratando dos judeus: “Nec quidquam prius inbuuntur quam contemnere deos, exuere patriam” (“A primeira coisa que aprendem é desprezar os deuses e deixar a pátria”),[72] tendo dito algumas linhas antes: “Adversus omnes alios hostile odium” (“Contra todos os demais têm ódio inimigo”).[73] Nada disso desmentem. Hoje e sempre foram como são, e sempre serão como foram.
E ouso dizer a Vossa Majestade que me persuado de que Deus só permite que dure essa infernal ralé para que, em sua execrável perfídia, tenha ventre onde ser concebido o Anticristo. E sigo nisso São Gregório, livro 31 dos Moralium, cap. 10, sobre Jó, cap. 39,[74] expondo aquela passagem do Gênesis, cap. 49: Fiat Dan coluber in via, cerastes in semita, mordens ungulas equi, ut cadat ascensor eius retro (“Torne-se Dã serpente no caminho, cerasta[75] na vereda, mordendo as unhas do cavalo para que aquele que vai sobre ele caia para trás”).[76] E isso porque Dã, entre os filhos de Israel, era tido por vilíssimo. Desse mesmo parecer foi Hugo Cardeal, sobre o cap. 13 do Apocalipse, naquelas palavras: Vidi de mari bestiam ascendentem (“Vi uma besta que subia do mar”); e, explicando-as, diz: Id est de Iudeis Antechristum nascentem (“Quer dizer: vi o Anticristo nascer dos judeus”).[77] Tem essa opinião São João Damasceno.[78] Pois como, Senhor, se poderá esperar bem ou socorro algum de quem só se espera o Anticristo?[79]
Refere Bovadilla, em sua Política autoridad, baseando-se em Alvar Gutiérrez de Toledo, que o doutor Dom Pablo, que foi bispo de Burgos e depois patriarca de Aquiléia, conquanto converso, aconselhou o rei Dom Henrique III a não receber, no serviço de sua casa real, nem no conselho, nem em outros ofícios públicos, nem na administração do patrimônio real, converso nem judeu algum, conselho que, se o dito rei tivesse tomado, não o teria matado, como o matou, Dom Maír, seu médico judeu.[80] Senhor, Dom Henrique desprezou aquele conselho, mas o deixou para nós à sua custa, confirmado com sua morte. E, para não admitir médico judeu, não precisava aguardar o conselho de Dom Pablo, pois a 7ª Partida, título 24, lei 8, diz assim: “E também proibimos que nenhum cristão receba medicamento nem purga que seja feita por mão de judeu”. E nessa mesma lei: “E ainda mandamos que nenhum judeu ouse banhar-se em banho juntamente com os cristãos”. Advertiu a lei, Senhor, que, no banho em que se juntam a banhar-se o cristão e o judeu, o cristão se suja apenas com a companhia do judeu.
Expulsou universalmente, vencendo grandes inconvenientes, o santo e glorioso pai de Vossa Majestade toda a geração dos mouriscos de ambos os sexos, sem excetuar idade nem admitir prova, por indícios de que conspiravam contra sua pessoa; e, podendo livrar-se de dívidas com sua imensa riqueza e suas posses, desprezou os bens de infiéis, por delituosos e indignos de socorrer um príncipe católico.[81] Quanto maior causa tem hoje Vossa Majestade para desolar e expulsar os infames e vilíssimos judeus e desprezar seus tesouros réprobos[82] e seus cabedais, condenados por manifesta e pública conspiração, não presumida,[83] mas executada no próprio sacramento do altar, pisando-o; na imagem de Jesus Cristo, abrasando-a; em sua lei sacratíssima, condenando-a à morte com cartazes públicos! Confesso que darão letras, que têm prata e ouro. Vejamos, porém, que costumes têm o ouro e a prata dos judeus e o que os judeus fazem com eles. Oséias 2 o diz: Dedit ei aurum et argentum, et ipsi fecerunt Baal (“Deu-lhes ouro e prata, e eles fizeram Baal”).[84] Eis, Vossa Majestade, o que fazem de seu ouro e de sua prata: ídolos, demônios, sacrilégios, abominações e afrontas a quem lhos dá, devendo-lhe mais que a quem lhos pedisse. E assim se deve considerar o que farão à pessoa que deles os receber. Se de sua língua participa seu ouro das mentiras, e de seu coração, dos erros, não será metal puro: moeda falsa é sua moeda. São Jerônimo, Epístola 2ª sobre o salmo 118, a Nepociano, De vita clericorum, explicando aquelas palavras Revela oculos meos et considerabo mirabilia de lege tua (“Abre os meus olhos, para que eu considere as maravilhas da tua lei”),[85] diz: “Sic intelligamus, ut Dominus quoque noster intellexit et interpretatus est, Sabbatum. Aut aurum repudiemus cum ceteris superstitionibus Iudaeorum; aut, si aurum placet, placeant et Iudaei, quos cum auro aut probare nobis necesse est aut damnare” (“Entendamos, pois, o sábado do mesmo modo como também Nosso Senhor o entendeu e interpretou; ou rejeitemos o ouro juntamente com as demais superstições dos judeus; ou, se o ouro nos agrada, agradem-nos também os judeus, os quais, juntamente com o ouro, devemos necessariamente aprovar ou condenar”).[86]
O Êxodo diz claramente o que os judeus fizeram com seu cabedal, o que com ele e com eles se deve fazer e os fins pelos quais o dão. O capítulo 32 fala da demora de Moisés no monte: Videns autem populus quod moram faceret descendendi de monte Moses, congregatus adversus Aaron, dixit: “Surge, fac nobis Deos qui nos praecedant” (“Vendo, pois, o povo que Moisés tardava a voltar do monte, reunido foi a Aarão e lhe disse: ‘Levanta-te, faze-nos deuses que nos guiem’”).[87] Quem se persuadirá de que os judeus se cansam de aguardar, sendo seu pecado e seu erro não se fartarem de aguardar? Tal é essa incorrigível nação, que não quer aguardar o que havia de vir, como neste caso aconteceu com Moisés, e persevera em aguardar o que já não pode vir, como o Messias, que já veio. Pois, Senhor, que se pode esperar de gente que desespera do que já chega, que duvida do que já chegou, que espera o que não há de chegar, gente nem contente com um Deus, pois pede muitos, nem com muitos, pois aguarda um?[88]
Eles dizem que não querem deuses senão aqueles que se fizerem por seu mandado e arbítrio. A Aarão dizem que lhes faça deuses. Conhecia-os Aarão e, como sabia, por seus logros[89] e usuras ilícitas, que seu deus era cada grão de ouro, disse-lhes: Tollite inaures aureas de uxorum, filiorumque et filiarum vestrarum auribus, et adferte ad me (“Trazei-me o ouro das jóias de vossas mulheres e de vossos filhos e as argolas das orelhas de vossas filhas”).[90] Fecitque populus quae ius erat (“Fez o povo o que lhe mandou”).[91] Bem claramente se vê que, do ouro que Deus lhes dá, fazem ídolos, e que, se o dão, é somente para fazer idolatrias, para fazer sacrilégios, para fazer deuses contra Deus, para enganar e abandonar Moisés, seu caudilho. É, pois, Senhor, aforismo de sua salvação e da nossa nem lhes dar ouro nem lho pedir. Diz o texto sagrado que Aarão, ao receber as jóias, as derreteu e com arte fusória formou delas um bezerro, e eles disseram, ao vê-lo: “Israel, estes são teus deuses, que te tiraram do Egito”.[92] Reparo eu, Senhor, em que o povo pede a Aarão que lhe faça deuses. Diz Aarão que os fará e, para sua infâmia,[93] faz por deuses um bezerro. Ninguém que saiba o que faz fará o que eles lhe disserem. E não se fabricará de ouro disparate tão grande que as almas venais dos judeus não o aclamem deus. Se é bezerro e é de ouro, não o querem por Deus.[94] Diz o texto que o adoraram em altares com solenidade festiva.[95] Se os judeus dão a Aarão seu cabedal, em fraude de Moisés e em ofensa de Deus, somente para ídolos e a fim de idolatrar; se, porque são de ouro, adoram por deuses as jóias e argolas de seus filhos e filhas, fundidas na brutalidade de um bezerro, como poderá Vossa Majestade prometer-se socorro dessa danada nação, nem oferenda, nem tributo, nem letra desacompanhada de delitos e livre de mentiras sacrílegas? Quando chegam ao cabedal, adoram-no por deuses e deixam por ele seu Deus e seu próprio Moisés. Segundo isso, dificilmente o darão sem dolo por Cristo, a quem sumamente aborrecem, e para a defesa de sua lei, aqueles que só dão letras afixadas contra nossa sagrada religião.
Deus adverte Moisés dessa idolatria com estas palavras — é de suma importância que Vossa Majestade atente nelas: Cerno quod populus iste durae cervicis sit (“Vejo que este povo é de dura cerviz”).[96] Deus não diz apenas que o é, acrescenta que o vê, e isso, Senhor, para que nós, crendo-o, não aguardemos vê-lo e lê-lo; e, se por desgraça o virmos e lermos, copiemos, nessa parte, as ações de Moisés para com eles e seu cabedal. Tal foi o acontecimento. Desceu Moisés do monte, viu a idolatria, ouviu o aplauso dos sacrifícios,[97] perguntou a Aarão por que havia carregado sobre aquele povo tão grande delito.[98] Respondeu-lhe Aarão: Tu enim nosti populum istum quod pronus sit ad malum (“Tu sabes que este povo é inclinado ao mal”).[99] Aqui se vê condenada por seu próprio artífice a inclinação ao mal do povo judeu. E, referindo Aarão o caso a Moisés, tendo ele fundido as jóias e com arte fusória fabricado o bezerro,[100] vendo que lhe imputa o pecado do povo, diz: “Eu lhes disse: ‘Quem dentre vós tem ouro?’. Trouxeram-me o que tinham, deram-mo, eu o lancei no fogo, e saiu um bezerro”.[101] Senhor, Aarão não o referiu como havia sucedido. Havia, como se viu, fundido o ouro e, com arte fusória, fundido e formado o bezerro; e, quando seu senhor — pois assim chamou a Moisés —[102] lhe pede contas, diz que ele lançou o ouro no fogo, e pretende atribuir ao fogo a formação do ídolo. Senhor, o príncipe não deve confiar no ministro que toma o ouro e a prata dos judeus, que é artífice de seus pecados, porque de tal nunca entenderá a verdade, se Deus não lha revelar. Se alguém for tal ministro, será reconhecido em que logo começará sua desculpa pela acusação do povo. E, sendo ele quem, para fabricar ídolo contra Deus, pediu ao povo o ouro e a prata e o despojou, diz que o povo, a quem se pediu e que foi despojado, é o inclinado ao mal, e que o fogo tem a culpa. E ninguém tratará com os judeus a quem eles não mintam e a quem não obriguem a mentir.
Prossegue o texto: “Vendo Moisés [o povo] adorar o bezerro, arrojou as tábuas em que Deus, com seu dedo, havia escrito sua lei, e as quebrou. E, arrebatando o bezerro, queimou-o, moeu-o em fino pó, lançou-o na água e deu-o a beber aos filhos de Israel”.[103]
Cheguei ao ponto da dificuldade, Senhor. Vossa Majestade tem hoje os olhos nesse acontecimento; os judeus, as mãos nessa maldade, ainda com circunstâncias muito mais dolorosas. Vós tendes contratos com eles. Eles dão o ouro. Vossos olhos lêem suas blasfêmias e sacrilégios, vossos ouvidos estão atormentados com suas abominações. Vós sois, Senhor, o grande e glorioso caudilho que Deus nos deu. Se às vossas costas houver — coisa em que não creio — quem lhes peça o ouro e a prata e os funda em pecado e em delito, rompei, Senhor, os contratos, que é menos que romper a lei. Não repareis em que os firmastes com vossa mão, pois Deus fez as tábuas e escreveu a lei com seu dedo. Ali se rompeu a lei em castigo da idolatria; aqui se devem romper os contratos em punição por se ver a lei condenada à morte. Queimai o ouro desses judeus, fazei-o pó e dai-lho a beber. Não repareis na necessidade de vossa gente, pois Deus e, por ele, Moisés não repararam na miséria e nudez da sua. Não houve caudilho que governasse gente nem povo tão perseguido e sem socorro e assistência humana. E vedes, Senhor, que, por delituoso, quis antes queimar seus tesouros e reduzi-los a pó que guardá-los, mesmo instado por tão extrema necessidade.
Queimar e justiçar os judeus será apenas castigo. Queimar e reduzir a pó seu cabedal, romper os contratos, será remédio. Por isso Moisés primeiro se dirigiu ao remédio, desprezando seu ouro, e depois passou ao castigo, tão severo e universal como se lê nestas palavras do mesmo capítulo, quando Moisés disse: Si quis est Domini, iungatur mihi; congregatioque sunt ad eum omnes filii Levi, quibus ait: «Haec dicit Dominus Deus Israel: “Ponat vir gladium super femur suum, ite, et redite de porta usque ad portam per medium castrorum, et occidat unusquisque fratrem, et amicum, et proximum suum”»; cecideruntque in die illa quasi viginti tria millia hominum (“Se alguém é de Deus, junte-se a mim. Reuniram-se com ele todos os filhos de Levi, aos quais disse: ‘Isto diz o Senhor Deus de Israel: «Cinja cada varão sua espada sobre sua coxa, ide e voltai de uma porta até outra porta pelo meio dos arraiais, e cada um dê morte a seu irmão, a seu amigo e a seu próximo»’. Morreram naquele dia cerca de vinte e três mil homens”).[104] Ensinou Moisés com as palavras que se deve convocar às juntas tão importantes e a quem se deve convocar. Não diz que venham os doutos, nem os ricos, nem nomeia Aarão; chama apenas aqueles que forem de Deus. Destes diz que se juntem com ele; não escolhe este ou aquele. Pergunta se há algum que seja de Deus: prudentemente receia que, para tais execuções, são poucos os que são de Deus. Juntaram-se a ele todos os filhos de Levi, nos quais se representa o estado eclesiástico. Esta era gente que não participava da divisão das herdades com os outros judeus: não tomará as armas contra eles quem com eles participar, nem será de Deus, nem praticará ação tão grande.
Senhor, há de começar-se o castigo de uma porta a outra porta. Isso quer dizer que em todas as portas de vossos reinos hão de encontrar morte e cutelo. Oh, Senhor, por menor delito mandou Deus que o irmão matasse o irmão, o amigo o amigo e cada um a seu próximo, sem preceder processo, e hoje, por incomparáveis e infernais sacrilégios, esperando a lentidão das provas, deixaremos viver, não nossos irmãos, mas nossa perseguição; não nossos amigos, mas os inimigos públicos de Jesus Cristo, aqueles que no sacramento o pisam, na cruz o queimam, em sua lei o condenam à morte! Deus, por Moisés, mandou que se acabasse com eles. Não se deve dar lugar a que perguntemos com Jeremias (Threnorum 3, Mem): Quis est iste qui dixit ut fieret, Domino non iubente? (“Quem é este que disse que se fizesse o que Deus não manda?”).[105]
Parece-me que a moeda de Judas pela venda de Jesus Cristo e a moeda destes, também judeus e descendentes daqueles que não apenas o compram, mas o açoitam e queimam,[106] são de uma mesma casta: metal amassado com sangue inocente. E que são de uma mesma linhagem e de uma mesma liga. Pois, Senhor, será religião[107] de vida que nós, cristãos católicos, tenhamos dessa moeda o mesmo asco que os sacerdotes do templo tiveram daquela que Judas lhes ofereceu, sendo tão maus aqueles sacerdotes que deles diz o Papa São Leão estas palavras, tratando de não a terem querido receber: “Cuius cordis est ista simulatio? Sacerdotum conscientia capit, quod arca templi non recipit. Timetur illius sanguinis taxatio, cuius non timetur effusio” (“De que coração procede esta hipocrisia? A consciência dos sacerdotes aceita aquilo que o tesouro do Templo não admite. Teme-se o preço daquele sangue cujo derramamento não se teme”).[108]
A hipocrisia dos maus sacerdotes e anciãos foi esta: quando Judas lhes lançou as moedas no templo, disseram (Mateus 27): Principes autem sacerdotum, acceptis argenteis, dixerunt: non licet mittere eos in corbanan, quia pretium sanguinis est. Concilio autem inito, emerunt ex illis agrum figuli, in sepulturam peregrinorum. Propter hoc vocatus est ager ille Acheldemach, hoc est, ager sanguinis (“Tendo os príncipes dos sacerdotes recebido a prata, disseram: ‘Não nos é lícito lançá-la na bolsa, porque é preço de sangue’. E, reunido o conselho, compraram com a moeda uma herdade de um oleiro para sepultura de peregrinos. E por isso se chamou aquela herdade Aceldama, que quer dizer ‘herdade de sangue’”).[109] Tomaram o dinheiro de Judas, escrupulizando lançá-lo na bolsa, por ser preço de sangue. Mas o tomaram. Deram-no, sem olhar à consciência, para que Cristo fosse vendido, e pareceu-lhes lícito que entrasse na bolsa de Judas, varão de Carioth (que isso diz em hebraico Iscarioth), e fingem consciência para voltar a recebê-lo e justificação para não o lançar na arca das esmolas[110] do templo. E, para dar aparência à sacrílega dissimulação, reuniram um conselho daqueles com que tantas vezes autorizaram suas traições e resolveram que se comprasse, com a moeda de Judas, um campo para enterrar peregrinos.
Lançou Judas no templo a moeda que lhe deram por Jesus Cristo e foi-se enforcar. Os sacerdotes a levantaram, parecendo-lhes que aí estava sua desculpa em apanhá-la do chão, por não a receberem da mão do traidor. Considerai, Senhor, quão asquerosa é a moeda dos judeus, que Judas a lançou fora e quis antes enforcar-se que tê-la, e ainda lhe pareceu infâmia enforcar-se levando-a consigo. Não ouça Vossa Majestade a quem vos disser: “Não a lançamos na bolsa, emprega-se no bem público”. Pois, com dinheiro que é preço do sangue de Cristo e cabedal daqueles que o compram e o crucificam e o pisam na Eucaristia e o queimam em sua imagem e o difamam em sua lei, só se fabricam sepulturas, ali e então, para os peregrinos; e pode-se e deve-se temer que se fabriquem agora, se se prosseguir, para os naturais. Esses contratos são Aceldama, são preço de sangue, pois Judas o rejeita, e com maus sacerdotes não mereceu entrar em bolsa, que até o conselho da dissimulação não os achou bons senão para enterrar.
Visto que os judeus em vossa corte afixam cartazes com éditos públicos condenando à morte nossa lei soberana, afixem-se os vossos, Senhor, expulsando-os universalmente de todos os vossos reinos. Pois em negócios dessa condição, expulsá-los e aniquilá-los é o único remédio; castigá-los não o é, pois, como diz Sêneca, “aqueles pecados que mais se castigam são os mais cometidos”.[111] Assim o experimentamos desde que foi queimado o execrável herege judaizante Benito Ferrer, a quem logo outro sucedeu no mesmo delito.[112] Queimou o Santo Ofício aqueles que açoitaram o crucifixo e, em meio às festas que a vosso exemplo se faziam, em vossa corte afixaram cartazes tão nefandos. Pereçam, Senhor, todos e todos os seus bens. Escória é seu ouro, fedor sua prata, peste seu cabedal. Jesus Cristo Nosso Senhor ensinou-nos, ao nascer, a fugir do ouro dos judeus. Estava profetizado que havia de receber ouro e, havendo-o na Judéia, ordenou o eterno Pai que uma estrela lho trouxesse na adoração dos Reis do Oriente, região tão afastada dos maus ressaibos da hebréia. Teve Cristo necessidade de moeda para pagar, por si e por São Pedro, o tributo, e, para que a moeda que havia de dar por si não participasse de terra tão ingrata,[113] mandou a São Pedro que pescasse no mar, tirasse um peixe e o abrisse, e que pagasse com uma moeda que encontraria em sua boca.[114] Exemplos são estes que dão a conhecer quanto devemos nós, cristãos, fugir, em nossas necessidades, de recorrer às bolsas dos judeus por dinheiro, gente de tão encarecida iniquidade e de tão hereditária apostasia que, sendo em incompreensível perfeição diligentíssima a providência inescrutável do Pai eterno, para abrigar Jesus, seu Filho, e sua santíssima Mãe contra a perseguição de Herodes, não encontrou em toda a Judéia um leal a quem confiá-los e os inspirou, por um anjo, a ir para o Egito.[115] Deus confiou mais nos ciganos[116] que nos judeus: daqueles, tudo; destes, nada. Veja Vossa Majestade o que deles se poderá fiar.
E, para que a conveniência política, a que chamo a consciência dos ganhos com máscara de melhoria,[117] não introduza nessa verdade seus atrevimentos com nome de escrúpulos, com ela própria em todo o seu rigor, como se a copiasse de Tibério César,[118] grande artífice de limar o reto com o útil, assegurarei meu discurso.
Primeiro, Senhor: assim como não se chamam vassalos de Vossa Majestade as enfermidades de seus vassalos, tampouco se podem chamar vassalos nem povo de Vossa Majestade os judeus, por serem pragas de vossos reinos e enfermidades de vossos vassalos. São esponjas que o turco e todos os hereges embebem no tesouro da Espanha para espremê-las em suas sinagogas contra ela.
Segundo, afirmo que seus socorros e letras são antes espiões contra as ordens de Vossa Majestade, a serviço de seus inimigos, que socorros, sendo verdade infalível que todos os judeus da Espanha se fundam, para os contratos, em duas coisas,[119] que são cabedal disponível e crédito pontual. Com o cabedal traficam e negociam; com o crédito socorrem. O cabedal, como sempre seus pecados o mantêm temeroso do Santo Ofício e ameaçado de confiscações, consiste em moeda e mercadorias portáteis e sempre dispostas à fuga. O crédito, eles o têm em Ragusa,[120] em Salônica,[121] em Rouen,[122] em Amsterdã,[123] de maneira que dependem, para toda a pontualidade e aceitação de suas letras, daqueles que são inimigos de Vossa Majestade. Pois, se são para Flandres, contra os hereges rebeldes, deles próprios depende o pagamento; se contra os turcos, dos próprios turcos depende; se contra os franceses, dos franceses depende; se contra os hereges da Alemanha, dos mesmos hereges depende a judiaria de Praga;[124] e, se se acendesse guerra na Itália, dependerá das sinagogas de Roma, Livorno e Veneza.[125] Vossa Majestade sabe se será necessário prevenir isso, pois, se se presumissem rumores de guerra entre as armas de Vossa Majestade e alguns potentados, esses contratadores judeus poderiam ser, de vossa corte, a melhor parte dos exércitos deles.[126]
Eu, Senhor, vi em Ragusa, com toucas e trajes de judeus, homens que em Madrid havia visto com golas e espadas, em bom assento e em bom lugar nas igrejas. E vi pais, irmãos e filhos de outros que, no reino de Nápoles, eram tão poderosos (sendo verdadeiramente judeus como eles) que tinham grandes propriedades, baronias, muitos lugares e vassalos, e algum título nobiliárquico, a quem pertencia a maior e mais importante fortaleza daquele reino no mar Adriático. Em Rouen e em Roma, Livorno e Veneza, vi a mesma coisa. Pois, Senhor, quem pôde ignorar que, sendo isso tão certo como é, cada letra que dão os contratadores judeus que falam português representa tantos espiões quantas letras, pois seu efeito se remete a seus correspondentes, que, sendo também judeus, vivem sob o domínio de vossos inimigos? E parece forçoso crer que as demoras no pagamento sejam ordenadas pelos próprios holandeses, e que os protestos, tão perniciosos, sejam manha de uns e de outros para que vossas ordens reais não alcancem o fim que pretendem no momento conveniente. Se tem havido tardanças ou protestos ou fraudes,[127] Vossa Majestade é o único que pode sabê-lo. E, sendo esse dano tão grande e funesto,[128] não é menor nem menos indigno ser inevitável dar a esses judeus, por meio dos contratos, notícia certa e direta da necessidade, se a tem, de vosso patrimônio real, de suas dívidas, de seu estado, de seus recursos, dos vassalos e do estado em que se encontram todas as coisas, e, igualmente, da substância das cidades. Pois não se pode duvidar de que esses segredos e outros que deles decorrem, que tanto importa aos monarcas ocultar, esses judeus os comunicam a seus pais, filhos e irmãos, que vivem — pode ser que não com outro intento — tolerados por vossos inimigos.
Bastavam e sobravam esses inconvenientes políticos para expulsar de todos os reinos de Vossa Majestade esses inimigos encarniçados da cruz de Jesus Cristo. Porém, segue-se dos contratos com eles outro mais terrível e atroz, que até meu sentimento se envergonha de acusar e a pena se recusa a escrever.
É este, Senhor: com os contratos se dá, em vossos reinos, jurisdição, poder e mando aos judeus, maus, sobre vossos vassalos, bons e verdadeiramente católicos e sempre e em tudo leais. E essa maldita nação, que, em justo castigo de ter crucificado Jesus Cristo, em todas as partes do mundo é escrava, vil e abatida,[129] só na Espanha manda com exaltação e domínio. Não o afirmo assim pelo ditame de minha dor. Há lei, mui poderoso Senhor, que o ordena na sétima Partida, título 24, “Dos judeus”, lei 1. Diz estas santas palavras: “E a razão pela qual a Igreja, os imperadores, os reis e os príncipes toleraram que os judeus vivessem entre si e entre os cristãos é esta: para que eles vivessem como em cativeiro para sempre, para que fossem sempre lembrança aos homens de que vinham da linhagem daqueles que crucificaram a Cristo”.
Não poderá ser a razão pela qual vós tolerais judeus contrária à razão pela qual os toleram a Igreja, os imperadores, reis e príncipes, pois aquela foi tão santa como tê-los para que, em seu cativeiro e desprezo, se veja o castigo que mereceram por ter crucificado Jesus Cristo. Se disserem que essa lei fala contra os judeus que o são e não contra os conversos, aquele que o disser é desmentido por esses próprios conversos, com suas maldades e cartazes, tanto piores que os outros quanto o prova não se terem convertido senão para fazer o que fazem. Pois os judeus que publicamente professam seu erro e vestem traje de judeus se contentam com não serem eles cristãos; mas estes, dolosamente conversos, são judeus que passam a pretender que os cristãos sejam judeus. Estes são os que, na corte e nos reinos de Vossa Majestade, hão de estar, com o opróbrio, cativeiro e desprezo, obedecendo a essa lei e sendo espetáculo às gentes da culpa que cometeram na morte de Cristo.[130] Pois, se tivessem vivido no abatimento de que fala a lei, não teriam tornado necessária, com pecados tão enormes, a expulsão total que a paz de nossa sagrada religião pretende.
São Paulo (1 ad Thesalonicenses 2): Iudei autem, et Dominum Iesum occiderunt,et prophetas, et nos persecuti sunt, et Deo non placent, et hominibus adversantur, prohibentes nos gentibus loqui ut salvae fiant, ut impleant peccata sua semper: praevenit autem ira Dei super illos usque in finem (“Os judeus deram morte a Nosso Senhor Jesus Cristo e aos profetas, e a nós nos perseguiram, e não agradam a Deus e contradizem os homens, proibindo-nos falar às gentes para que não se salvem, para encher seus pecados sempre. Veio a ira de Deus sobre eles até o fim”).[131] Tudo o disse o apóstolo, Senhor: aqueles que não agradam a Deus não nos agradam a nós. Acompanhemos com a ira de Deus a nossa.
Nolite iugum ducere cun infidelibus (“Não leveis jugo com os infiéis”).[132] Sagrado preceito é. Pois como permitirão vossa esclarecida piedade, vossa grandeza católica, vossa justiça diligente e reta, os grandes dotes de vossa alma real, vosso entendimento superior, vossa vontade toda enamorada do lícito e do justo, que não apenas levem jugo com os infiéis vossos católicos vassalos, mas que, com a autoridade e o mando, os próprios judeus infiéis lhes sejam jugo que os oprima? Em Roma, Livorno e Veneza, os judeus que o são publicamente estão com sinal distintivo, e os conversos, pela suspeita que deles se tem, com desprezo, sob o turco, padecem escravidão mais abatida que a que tiveram sob o poder do Faraó. Pois que temeridade haverá tão descarada perante Deus que sustente, com algum pretexto[133] que a vergonha cristã admita, que os vilíssimos judeus só em vossos reinos triunfem das afrontas e ignomínias que, em vingança da morte de Jesus Cristo, lhes infligem os hereges e os turcos? Não ignoro que hão de ser admitidos à Igreja pela conversão e atraídos a ela. Mas não esqueço as palavras do bispo Dom Pablo, acima citadas, em que aconselhou Dom Henrique III a não admitir em seu serviço, nem em seu conselho, nem nas coisas de seu patrimônio, judeu converso algum;[134] e me recordo do conselho dos príncipes da sinagoga de Constantinopla aos judeus da Espanha, no qual o primeiro e principal é que, para satisfazer ao rei Dom Fernando e poderem vingar-se dele, se convertam apenas com a boca, guardando firmemente seu erro no coração. E, para conhecer que nenhum se converte de coração, basta ver que, na Turquia e na Holanda e em toda parte, admitem por judeu, sem suspeita, aquele que entre nós viveu como cristão; e que, para os judeus os receberem em suas sinagogas por verdadeiros judeus, é antes mérito e prerrogativa ter-se convertido e batizado que impedimento.
Não pode ser saída desses inconvenientes dizer que não há outros com quem celebrar contratos, estando de pé o cabedal da república de Gênova, república cristianíssima e opulenta, e a pontualidade e a probidade dos nobres genoveses no mesmo grau em que as temos experimentado sempre, com letras verdadeiras, seguras e efetivas, pois com elas têm assistido até agora às grandes ocorrências[135] do invicto imperador Carlos V, vosso bisavô, e às de vosso avô Dom Felipe II, e às tão afligentes[136] que teve vosso santo e glorioso pai, o senhor rei Dom Felipe III. E é de considerar que todos esses contratos se faziam por um ou dois agentes[137] em Madrid, com uma ou duas casas de Gênova; e agora, Senhor, como os judeus são ricos pelos meios que tenho dito e seu cabedal é mecânico,[138] para cada contrato se reúne uma multidão de canalha vil e baixa,[139] em cuja multiplicação se seguem todos os danos referidos;[140] e, como os mais foram penitenciados em Portugal e merecem e esperam e temem sê-lo em Castela, pedem condições e exceções contra os castigos do Santo Ofício.[141] Que tudo isso seja, cristã e politicamente, de má consequência, os acontecimentos o dizem e os próprios contratos não o calam.
Nem é boa conveniência escolher, por juros menores nos ajustes, os judeus conversos, porque, no trato, não é menos custoso aquele que pede menos e fica com tudo que aqueles que, no contrato, pedem mais e em nada faltam. Ninguém regateia menos naquilo que negocia que o embusteiro, que sabe que não há de cumprir o que oferece. Quem pede aquilo de que forçosamente precisa para cumprir pede para dar. Todo o tesouro que Gênova adquiriu nos socorros da Espanha mudou de lugar, eu o confesso, mas não mudou de senhor. Vossa Majestade o tem, em possessões, rendas e estados; em Nápoles, em Milão, na Sicília, em Málaga, em Granada, Sevilha e Lisboa e outras cidades; e, de cidadãos de uma república livre, Vossa Majestade fez de quase toda a sua nobreza vassalos. Porém, o que sugarem as infames sanguessugas judias desaparece, foge e se recolhe ao poder de todos os vossos inimigos;[142] e o que é detestável: inimigos de nossa santa fé. Porque os judeus fazem conosco o que Satanás fez com Cristo, que, vendo-o no deserto fatigado e em jejum, lhe ofereceu seu socorro, que são pedras. Não é outra a moeda desse povo endurecido: cunham o mesmo metal que Satanás. Mas por isso, Senhor, Deus deu a Vossa Majestade dois anjos seus para que, como diz o salmo 90: Quoniam angelis suis mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis, in manibus portabunt te, ne forte ofendas ad lapidem pedem tuum (“Porque mandou a seus anjos que te guardassem em todos os teus caminhos, levar-te-ão em suas mãos, para que acaso não tropece na pedra teu pé”).[143] E, com isso, Senhor, suas pedras nos contratos terão a mesma resposta que tiveram na tentação, e não tropeçará o pé de Vossa Majestade, encaminhado sempre para todo bem. Pois, com isso, super aspidem et basiliscum ambulabis et conculcabis leonem et draconem (“andareis sobre a áspide e o basilisco e escoiceareis o leão e o dragão”).[144] Estes são os nomes próprios das línguas dos judeus, de sua vista, de suas unhas e de suas asas. Serpentes no regaço os chamou o santo Pontífice no cânon citado.
Eu espero da soberana grandeza, clemência e justiça de Vossa Majestade que, apagando essa má geração de vossos reinos e assolando-os, livrareis vossos vassalos a sagita volante in die, a negotio perambulante in tenebris, ab incursu et demonio meridiano (“da seta que voa de dia, do negócio que caminha nas trevas, do ímpeto e demônio meridiano”).[145] Pois essas três coisas são as que mais se devem temer, e os judeus são essas três coisas. Seta que voa de dia, que é quando há luz para acertar em ofender. São negócio que caminha nas trevas, para esconder os passos e ocultar as rasteiras e os laços. Seu cabedal é demônio meridiano, tesouro de duende que, vulgarmente se diz, vira carvão. E assim, repartido cada judeu nessas três calamidades, padecemo-las sempre: de manhã, seta que voa; ao meio-dia, demônio meridiano; e, à noite, negócio que caminha nas trevas.
Creio, Senhor, que meu discurso sofrerá não apenas censuras, mas desprezos. Sou vassalo de Vossa Majestade, animosamente leal e criado vosso. Sou, pela misericórdia de Deus, cristão redimido com o sangue de Jesus Cristo, a quem, em minha intenção, para vosso serviço me declaro,[146] no céu e na terra. Tão longe de temer aqueles que me caluniarem, terei deles pena, vendo-os incorrer na rigorosa sentença do Espírito Santo, capítulo 29 dos Provérbios, versículo 1: Viro qui corripientem dura cervice contemnit, repentinus ei superveniet interitus, et eum sanitas non sequetur (“Ao varão que com dura cerviz desprezar aquele que o repreende sobrevirá morte repentina, e não terá mais saúde”).[147] Porém, quando todos me caluniarem, o peito soberano e real de Vossa Majestade amparará meu zelo e o defenderá em sua grandeza.
Previna, Senhor, todas as contradições que me possam opor a história do profeta Balaão (livro 22 dos Números),[148] em que a sagrada leitura refere que Balac, filho de Sefor, que naquele tempo era rei em Moabe, enviou seus embaixadores a chamar Balaão, filho de Beor, adivinho, para que amaldiçoasse o povo de Deus. Comunicou-o Balaão com Deus, e Deus lhe ordenou muitas vezes que não amaldiçoasse o povo que estava bendito por sua mão. Obedeceu Balaão a Deus, porém por fim,[149] sobre uma jumenta, começou a caminhar. Irou-se Deus, e o anjo do Senhor se opôs a Balaão e a dois criados que o seguiam. Vendo a jumenta o anjo que estava no caminho com espada desembainhada, apartou-se do caminho pelos campos, e como Balaão a espancasse para fazê-la voltar à senda, o anjo se atravessou no meio de uma passagem estreita formada pelas cercas de umas vinhas; e vendo-o, a jumenta se encostou a um muro e contra ele apertou o pé de quem levava em cima. Este, voltando a castigá-la, não conseguiu vencer sua resistência, porque o anjo do Senhor se atravessou na parte mais estreita, onde a jumenta não podia voltar-se para um lado nem para o outro; e, vendo o anjo, deixou-se cair sobre os pés de Balaão, o qual, enfurecido, começou novamente a castigá-la e afligi-la com uma vara. Então Deus abriu a boca da jumenta, e ela, falando, disse: “Que te fiz eu? Por que me maltratas pela terceira vez?”. Disse Balaão: “Porque o mereceste e zombaste de mim. Oxalá tivesse espada para ferir-te!”. Disse a jumenta: “Não sou eu teu animal, no qual sempre andaste pelo caminho até hoje? Porventura me viste outra vez fazer isto?”. Respondeu Balaão: “Nunca”. E no mesmo instante Deus abriu os olhos a Balaão, e ele viu o anjo que estava no caminho com a espada desembainhada, e, prostrado em terra, adorou-o. E o anjo lhe disse: “Por que pela terceira vez tratas mal tua jumenta? Eu vim opor-me a teu caminho porque é perverso e contra mim; e, se a jumenta não o tivesse abandonado e te tivesse obedecido, eu te teria matado, e ela viveria”.
Poderosíssimo Senhor, em todas as virtudes reais não apenas grande, antes acima de comparação com qualquer outro monarca de quantos são e foram: esse texto histórico que referi a Vossa Majestade, no qual intervêm interlocutores tão desiguais como são um adivinho, um anjo e um jumento, entesoura em sua consideração literal a advertência política e divina. Considerai, Senhor, que, sendo Balaão ministro imediato de Deus, com quem despachava de viva voz, confiou Deus antes a obediência ao mau animal que ao mau ministro, pois, quando, para lhe atalhar os passos, mandou que o anjo se fizesse visível, mandou que se fizesse visível primeiro à jumenta que ao profeta. E considere Vossa Majestade que Deus abriu antes a boca à jumenta que os olhos a seu ministro, e que às vezes — não se pode negar — convém que um bruto fale para que um adivinho veja, e que aquele que está em cima de outro, quando este recusa o caminho que lhe manda fazer, deve, em vez de afligi-lo, temer que veja espada desembainhada do céu que o ameaça, e que, se não abre os olhos e muda de intento, a espada do anjo deixará vivo o jumento, que a respeita, e dará morte a Balaão, que a despreza. Aqui minha ignorância não pode representar outra pessoa que a do jumento: procuro desculpar ter eu falado em coisa tão grave.[150]
Não me admira que Balaão, que não via o anjo, espancasse a jumenta, que o via. Porém, enche-me de estupor que, ouvindo falar uma besta (a mais bruta e de respiração menos apta a formar voz e palavras), não apenas não se espantasse, mas antes, respondendo-lhe, sentisse falta de espada para feri-la. Grande é a insensibilidade dos obstinados em prosseguir o mau caminho que começam, pois nem o querem deixar, nem deixar de afligir quem os admoesta. Nem reconhecem o portento, nem o milagre. Não abriu Deus os olhos a Balaão até que a jumenta o convenceu com razões. Castigo foi que uma jumenta convencesse um profeta. Desgraçado daquele que não se deixar convencer nem pelos homens nem pelos animais. Este nem quer abrir os olhos nem que lhos abram, nem vê o anjo nem o pode ver. Não reconhece, para sua ruína, que a desobediência de um jumento livra da morte um profeta.
Se eu tiver acertado em interpretar as lições[151] deste capítulo, não terei perdido o tempo nem a esperança de autorizar, em minha brutalidade, estas palavras, encaminhadas unicamente ao serviço de Vossa Majestade e à glória de Jesus Cristo, na total expulsão e desolação dos judeus, sempre maus e a cada dia piores, ingratos a seu Deus e traidores de seu rei. Prometendo-me e crendo que, em tudo, será o justo e mais acertado aquilo que Vossa Majestade determinar como monarca católico, cheio de admiráveis e esclarecidas virtudes.
Leva manus tuas in superbias eorum in finem. Quanta malignatus est inimicus in sancto! Et gloriati sunt qui oderunt te in medio sollemnitatis tuae; posuerunt signa sua, signa.[152]
Tudo escrevo sob a correção da santa Igreja romana; e, se algo há de dissonante da sua sacra doutrina, desde já o retiro.
Em Villanueva de los Infantes, 20 de julho de 1633.
Beija os reais pés e mão de Vossa Majestade
Dom Francisco de Quevedo Villegas.
BIBLIOGRAFIA
— Alarcos García, Emilio. “El dinero en las obras de Quevedo”. Homenaje al profesor Alarcos Carda, 1, Valladolid, 1965, pp. 375–442.
— Alcalá-Zamora y Queipo de Llano, José. España, Flandes y el Mar del Norte 1618–1639. Planeta, Barcelona, 1975.
— Álvarez Vázquez, José Antonio. “Teoría y práctica política de Quevedo”. Cuadernos Hispanoamericanos, 336 (1978), pp. 427–451.
— Amador de los Ríos, José. Historia social, política y religiosa de los judíos de España y Portugal, 3 vols. Madrid, 1875–1876; utilizamos a edição fac-símile, Turner, Madrid, 1975.
— Angenot, Marc. La parole pamphlétaire. Payot, Paris, 1982.
— “Año 1632 y 1633”. Biblioteca Nacional de Madrid, ms. 9406.
— Arellano, Ignacio. Poesía satírico burlesca de Quevedo. EUNSA, Pamplona, 1984.
— Asensio, Eugenio. La España imaginada de Américo Castro. El Albir, Barcelona, 1976.
— Astrana Marín, Luis. Obras completas de don Francisco de Quevedo Villegas, 2 vols. Aguilar, Madrid, 1932.
— Astrana Marín, Luis. La vida turbulenta de Quevedo. Gran Capitán, Madrid, 1945.
— Azaustre Galiana, Antonio. El paralelismo prosístico en Quevedo. Servicio de Publicacións e Intercambio Científico, Universidad de Santiago de Compostela, 1993; edição em microficha.
— Barbe, Louis. Don Pedro Téllez Cirón, duc d’Osuna, vice-roi de Sicile, 1610–1616: contribution à l’étude du regne de Philippe III. Ellug, Grenoble, 1992.
— Benito Ruano, Eloy. Los orígenes del problema converso. El Albir, Barcelona, 1976.
— Blázquez Miguel, Juan. Inquisición y criptojudaísmo. Kaydeda, Madrid, 1988.
— Boxer, C.R. The Dutch in Brazil,1624–1654. Oxford, 1957.
— Boyajian, James C. Portuguese Bankers and the Court of Spain,1626–1650. Rutgers University Press, New Brunswick (Nueva Jersey), 1983.
— Broens, Nicolás. Monarquía y capital mercantil: Felipe IV y las redes comerciales portuguesas (1627–1635). Universidad Autónoma de Madrid, Madrid, 1989.
— Brown, Jonathan; Elliott, John H. Un palacio para el rey: El Buen Retiro y la corte de Felipe IV. Revista de Occidente, Alianza, Madrid, 1981.
— Cabo Aseguinolaza, Fernando; Fernández Mosquera, Santiago. “Una obra perdida de Quevedo: Execración contra los judíos (1633)”. Insula, 545 (1992), p. 3.
— Cabral de Mello, Evaldo. Olinda restaurada: Guerra e açúcar no Nordeste, 1630–1654. São Paulo, 1975.
— Caro Baroja, Julio. Los judíos en la España moderna y contemporánea. Istmo, Madrid, 1978, 3 vols.
— Castillo de Bovadilla, Jerónimo. Politica para corregidores y señores de vassallos, en tiempo de paz y de guerra: y para Perla dos en lo Espiritual, y Temporal entre Legos, Iuezes de Comission, Regidores, Abogados, y otros Oficiales publicos: y de las Iurisdiciones, Preeminencias, Residencias, y salarios dellos: y de lo tocante a las de Ordenes, y Caualleros dellas. Luis Sánchez, Madrid, 1597, 2 vols.
— Castro y Rossi, Adolfo. Historia de los judíos en España. Cádiz, 1847.
— Colmenares, Aurelio (Conde de Polentinos). “Incendios ocurridos en la Plaza Mayor de Madrid”. Boletín de la Sociedad Española de Excursiones, XXVII (1919), pp. 36–54.
— Crosby, James O. “Quevedo’s alleged participation in the Conspiracy of Venice”. Hispanic Review, XIII (1955), pp. 259–273.
— Crosby, James O. “Quevedo and the Court of Phillip III: neglected satirical letters and new bibliographical data”. Publications of the Modern Language Association of America, 71 (1956), pp. 229–261.
— Crosby, James O. En torno a la poesía de Quevedo. Castalia, Madrid, 1967.
— Crosby, James O.; Jauralde, Pablo. Quevedo y su familia en setecientos documentos notariales (1567–1724). Universidad Autónoma de Madrid, 1992.
— Chaunu, Pierre. Séville et l’Atlantique, 1504–1650. Paris, 1955-1959, 8 vols.
— Deleito y Piñuela, José. Sólo Madrid es Corte. Espasa-Calpe, Madrid, 1942.
— Deleito y Piñuela, José. También se divierte el pueblo. Alianza, Madrid, 1988.
— “Diferentes sucesos y noticias desde el año 1629 hasta el año de 1636”, Biblioteca Nacional de Madrid, ms. 9404.
— Domínguez Ortiz, Antonio. “Una obra desconocida de Adam de la Parra”. Revista Bibliográfica y Documental, V (1951), pp. 97–104.
— Domínguez Ortiz, Antonio. “El proceso inquisitorial de Juan Núñez Saravia, banquero de Felipe IV”. Hispania, 61 (1955), pp. 559–581.
— Domínguez Ortiz, Antonio. Política y hacienda de Felipe IV. Editorial de Derecho Financiero, Madrid, 1960.
— Domínguez Ortiz, Antonio. La clase social de los conversos en Castilla en la Edad Moderna. CSIC, Madrid, 1955. Utilizamos a edição fac-símile realizada pela Universidad de Granada, com preliminares de Francisco Márquez Villanueva e Luis Javier Coronas Vida, em 1991.
— Domínguez Ortiz, Antonio. Los judeoconversos en la España moderna. Mapfre, Madrid, 1992.
— Domínguez Ortiz, Antonio; Vincent, Bernard. Historia de los moriscos: Vida y tragedia de una minoría. Revista de Occidente, Madrid, 1979; citamos pela edição de Alianza, Madrid, 1984.
— Dunn, Peter N. “El individuo y la sociedad en La vida del Buscón”. Bulletin Hispanique, 52 (1950), pp. 375–396.
— Elliott, John H. “Nueva luz sobre la prisión de Quevedo y Adam de la Parra”. Boletín de la Real Academia de la Historia, 169 (1972), pp. 171–182.
— Elliott, John H. Richelieu y Olivares. Crítica, Barcelona, 1984.
— Elliott, John H. El conde-duque de Olivares. Crítica, Barcelona, 1990.
— Elliott, John H. España y su mundo, 1500–1700. Alianza, Madrid, 1990.
— Elliott, John H; F. de la Peña, José. Memoriales y Cartas del conde de Olivares. Política interior: 1628 a 1645. Alfaguara, Madrid, 1981.
— Entrambasaguas, Joaquín de. Estudios y ensayos de investigación y crítica. De la leyenda de Rosamunda a Jovellanos. CSIC, Madrid, 1973.
— Etreros, Mercedes. La sátira política en el siglo XVII. Fundación Universitaria Española, Madrid, 1983.
— Ettinghausen, Henry. “Quevedo ¿un caso de doble personalidad?”. Homenaje a Quevedo. Academia Literaria Renacentista II, edição de Víctor García de la Concha. Universidad de Salamanca, 1982, pp. 27–44.
— Ettinghausen, Henry. “Quevedo y las actualidades de su tiempo”. Edad de Oro, XIII (1994), pp. 31–45.
— Fernández Duro, Cesáreo. Armada española, desde la unión de los Reinos de Castilla y Aragón. Madrid, 1895–1903, 9 vols.
— Fernández Mosquera, Santiago. “Reescritura, intertextualidad y desviación temática en Quevedo”. Edad de Oro, XIII (1994), pp. 47–63.
— Fernández Mosquera, Santiago. “Situación y contexto de la Execración contra los judíos de Quevedo”, em Actas del III Congreso de la Asociación Internacional “Siglo de Oro” (no prelo).
— Fernández Mosquera, Santiago; Azaustre Galiana, Antonio. Índices de la poesía de Quevedo. Universidad de Santiago-PPU, Barcelona, 1993.
— Francisco a Ripa. Ioannis Franciscus a Ripa papiensis, Comentaria ad Ius Canonicum item Tractatus de Peste, & Responsa. Lugduni, 1585.
— Frei Diego Gavilán Vela. Discurso contra los judios. Antonio Ramírez Acosta, Salamanca, 1631.
— Gregório IX. Decretales Gregorii noni Pontificiis. Apud Hugonen a Porta & Antonium Vicentinum, Lugduni, 1553.
— Halsall, Albert W. L’Art de convaincre. Le récit pragmatique: Rhétorique, idéologie, propagande. Paratexte, Toronto, 1988.
— Herrero García, Miguel. Ideas de los españoles del siglo XVII. Gredos, Madrid, 1966.
— Hugo de São Caro. Domini Hugonis Cardinalis Postilla super Epistolas Pauli…, item super Actus apostolorum, Super epistolas Canonicas, item super Apocalypsim. Impenssi honestorum virorum Ioannis Parui, Ponceli le Preux, Ambrosi Girault ac Ioannis Mace, Parisiis, 1538.
— Israel, Jonathan I. La judería europea en la era del mercantilismo, 1550–1750. Cátedra, Madrid, 1992.
— Jauralde, Pablo. “La prosa de Quevedo; El Chitón de las Tarabillas”. Edad de Oro, III (1984), pp. 97–122.
— León Pinelo, Antonio. Anales de Madrid, edição de Pedro Fernández Martín. Instituto de Estudios Madrileños, Madrid, 1971.
— Kent, Conrad. “Politics in La hora de todos”. Journal of Hispanic Philology, I (1977), pp. 99–109.
— Levisi, Margarita. “La expresión de la interioridad en la poesía de Quevedo”. Modern Language Notes, LXXXVIII (1973), pp. 355–365.
— Loeb, Isidoro. “La correspondance des juifs d’Espagne avec ceux de Constantinople”. Revue des Études juives, 15 (1887), pp. 262–276.
— López Poza, Sagrario. Francisco de Quevedo y la literatura patrística. Universidade da Coruña, La Coruña, 1992.
— Marañón, Gregorio. El conde-duque de Olivares: La pasión de mandar. Espasa Calpe, Madrid, 1925.
— Maravall, José Antonio. La cultura del barroco: Análisis de una estructura histórica. Ariel, Barcelona, 1983.
— Maravall, José Antonio. “Sobre el pensamiento social y político de Quevedo (una revisión)”. Homenaje a Quevedo. Academia Literaria Renacentista, II, edição de Víctor García de la Concha. Universidad de Salamanca, 1982, pp. 68–131.
— Méchoulan, Henry (ed.). Los judíos de España: Historia de una diáspora (1492–1992). Trotta, Sociedad Quinto Centenario, Fundación Amigos de Sefarad, Valladolid, 1993.
— Méndez Bejarano, Mario. Histoire de la juiverie de Seville. Iberoamericana, Madrid, 1922.
— Mérimée, Ernest. Essai sur la vie et les œuvres de Francisco de Quevedo (1580–1645). Alphonse Picard, Paris, 1886.
— Montero de Espinosa, J.M. Relación histórica de la judería de Sevilla. Imprenta el Porvenir, Sevilla, 1849.
— Novoa, Matías de. Memorias. Segunda parte, publicadas pelo Marquês de la Fuensanta del Valle e por D. José Sancho Rayón, 4 vols. Imprenta de Miguel Ginesta, Madrid, 1878–1886.
— Pablo Antonio de Tarsia. Vida de Don Francisco de Queuedo y Villegas, caballero del Orden de Santiago, secretario de su Magestad, y Señor de la Villa de la Torre de Juan Abad. Pablo de Val, Madrid, 1663; utilizamos a edição fac-símile, Ara-Iovis, Aranjuez, 1988.
— Pedro Comestor. Historia Scholastica: Magistri Petri Comestoris Historia Scholastica magnam sacre scripture partem, Lugduni, 1526.
— Pérez Carnero, Celso. Moral y política en Quevedo. Orense, 1971.
— Pérez Cuenca, Isabel. Catálogo de manuscritos de Francisco de Quevedo en la Biblioteca Nacional de Madrid, tese de doutorado. Universidad Autónoma de Madrid, 1992.
— Porreño, Baltasar. Defensa del Estatuto de limpieza que fundó en la Santa Iglesia de Toledo el cardenal y arzobispo don Juan Martínez Silíceo, 1608. Biblioteca Nacional de Madrid, ms. 13043.
— Querillacq, René. “Ensayo de una lectura socioeconómica de la obra de Quevedo”. Criticón, 17 (1982), pp. 13–66.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. Epistolario completo de Francisco de Quevedo Villegas, edição de Luis Astrana Marín. Instituto Editorial Reus, Madrid, 1946.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. La hora de todos y la fortuna con seso, edição de Jean Bourg, Pierre Dupont e Pierre Geneste. Cátedra, Madrid, 1987. Originalmente: L’heure de tous et la fortune raisonnable. La hora de todos y la fortuna con seso, edição de Jean Bourg, Pierre Dupont e Pierre Geneste. Aubier, Paris, 1980.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. La vida del Buscón, edição de Fernando Cabo Aseguinolaza, com um estudo preliminar de Fernando Lázaro Carreter. Crítica, Barcelona, 1993.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. Los sueños, edição de Ignacio Arellano. Cátedra, Madrid, 1991.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. Obra poética, edição de José Manuel Blecua. Castalia, Madrid, 1969–1981, 4 vols.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. Obras, edição de Aureliano Fernández Guerra. Biblioteca de Autores Españoles, Rivadeneyra, Madrid, 1852–1856, 2 vols.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. Obras de don Francisco de Quevedo Villegas: Poesías, edição de Florencio Janer. Biblioteca de Autores Españoles, vol. LXIX, Rivadeneyra, Madrid, 1877.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. Poesía selecta, edição de Lía Schwartz e Arellano Ignacio. PPU, Barcelona, 1989.
— Quevedo y Villegas, Francisco de. Virtud militante:contra las quatro pestes del mundo, inuidia, ingratitud, soberbia, avarizia, edição de Alfonso Rey Álvarez. Universidad de Santiago de Compostela, 1985.
— Rey Álvarez, Alfonso. “Los memoriales de Quevedo a Felipe IV”. Edad de Oro, XII (1993), pp. 257–265.
— Rey Álvarez, Alfonso. “Un texto inédito de Quevedo: Execración por la fee católica contra la blasfema obstinación de los judíos que hablan portugués y en Madrid fijaron los carteles sacrílegos y heréticos”. Boletín de la Biblioteca Menéndez Pelayo, LXIX (1993), pp. 105–141.
— Riandiere La Roche, Josette. “Du discours d’exclusion des juifs: antijudaïsme ou antisémitisme?”, em A. Redondo (ed.), Les problemes de l’exclusion en Espagne (XVI–XVII). Publications de La Sorbonne, Paris, 1982, pp. 51–75.
— Riandiere La Roche, Josette. “Quevedo et l’Autre religieux”, em A. Redondo, (ed.), Les représentations de l’Autre dans l’espace ibérique et ibéro-américain. Presses de La Sorbonne Nouvelle, Paris, 1991, pp. 139–155.
— Rodríguez Villa, Antonio. “Los judíos españoles y portugueses en el siglo XVII”. Boletín de la Real Academia de la Historia, XLIX (1906), pp. 87–103.
— Roncero-López, Victoriano. Historia y política en la obra de Quevedo. Pliegos, Madrid, 1991.
— São Jerônimo. Cartas de San Jerónimo, introdução, versão e notas por Daniel Ruiz Bueno. Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), Madrid, 1962, 2 vols.
— Senabre, Ricardo. “Hipótesis sobre la cronología de algunos poemas quevedescos”. Homenaje a José Manuel Blecua, Gredos, Madrid, 1983, pp. 605–616.
— Serrano Mangas, Fernando. Naufragios y rescates en el tráfico indiano en el siglo XVII. Siruela, Madrid, 1991.
— Sicroff, Albert A. Los estatutos de limpieza de sangre: Controversias entre los siglos XV y XVI. Taurus, Madrid, 1985.
— Simón Díaz, José. “Los escritores-criados en la época de los Austrias”. Revista de la Universidad Complutense (1981), pp. 169–178.
— Simón Díaz, José. Relaciones de actos públicos celebrados en Madrid (1541–1650). Instituto de Estudios Madrileños, Madrid, 1982.
— Stradling, R. A. Felipe IV y el gobierno de España, 1621–1665. Cátedra, Madrid, 1989.
— Tomás y Valiente, Francisco. “Castillo de Bobadilla: Semblanza personal y profesional de un juez del Antiguo Régimen”. Anuario de Historia del Derecho Español, XLV (1975), pp. 159ss.
— Tomás y Valiente, Francisco e outros. La España de Felipe IV, Historia de España, XXV, direção de José María Jover Zamora. Espasa-Calpe, Madrid, 1982.
— Verdín-Díaz, Guillermo. Alonso de Cartagena y el ‘Defensorium Unitatis Christianae’ (Introducción histórica, traducción y notas). Universidad de Oviedo, Oviedo, 1992.
— Vigouroux, Fulcran. Dictionnaire de la Bible. Letouzey et Ané Éditeurs, Paris, 1922.
— Vilar, Jean. “Formes et tendances de l’opposition sous Olivares: Lisón y Viedma, Defensor de la patria”. Mélanges de la Casa de Velázquez, VII (1971), pp. 263–294.
— Villar Maldonado, Ignacio. Sylva responsorum iuris, in duos libros divisa. Luis Sánchez, Madrid, 1614.
— Yerushalmi, Yosef Hayin. Dela corte española al gueto italiano: Marranismo y judaísmo en la España del XVII: El caso Isaac Cardoso. Turner, Madrid, 1989.
[1] Salmos 71,2: “Concede, ó Deus, ao rei teu juízo, e tua justiça ao filho do rei”. Tanto esta referência ao salmo quanto a última do memorial figuram à margem no manuscrito original.
[2] No original, religión: espírito religioso.
[3] Cf. Jó 10,1.
[4] Compare-se com a seguinte passagem de Marco Bruto: “Quem começa a perder o respeito aos reis acaba por fazê-lo perder a todos os demais que o seguem. É réu do que faz e do que leva outros a fazer” (Obras, I, 153a).
[5] No original, acera: fileira de casas que há de cada lado da rua ou praça.
[6] Esse mesmo acontecimento — um dentre os muitos decorrentes das celebrações públicas — inspira provavelmente o episódio do soneto “Cuando la Providencia es artillero” (Obra poética, 101). A ele pertencem estes versos: “O teatro, lisonjeiro às festas, / onde o ócio alojava sua alegria, / caiu, apagando com a fumaça o dia, / e o remédio foi companheiro do fogo. / O vento que o ardente julho negava / à respiração, deu-o à brasa, / de tal modo que em dezembro pôde ser vigoroso” (vv. 5–11). Esse incêndio começou na madrugada de 7 de julho de 1631, segundo registram pontualmente diversas relações (J. Simón Díaz 1982:397–399 e 406–408). Ao contrário do que diz Quevedo, houve, sim, várias vítimas, embora muito poucas em relação à magnitude do sinistro. Numa das relações (J. Simón Díaz 1982:397–398), conta-se como ardeu “toda a fileira de casas dos açougues”, e sobretudo insiste-se na salvação milagrosa de muitos dos atingidos. Mais informações em Anales de Madrid, 284, Aurelio Colmenares [1919:39–41], J. Deleito y Piñuela [1942:40–43] e S. Fernández Mosquera [1994].
[7] Também esse acontecimento encontra eco no soneto “Verdugo fue el temor, en cuyas manos” (Obra poética, 129), que serve a uma lição semelhante: “Quem duvida serem avisos soberanos, / embora o vulgo os tenha por fantasias, / com que o céu o rigor de suas iras / severamente ostenta entre temores vãos?” (vv. 5–8). Igualmente, Quevedo insiste aqui na disparidade paradoxal entre a insignificância da causa e a catástrofe ocasionada: “e o nada veio a ser a morte de tantos” (v. 14). Na relação mencionada na nota anterior, narra-se o episódio, datando-o de 25 de agosto de 1631. Ao que parece, um falso rumor provocou tamanha confusão que, no atropelo da fuga, mais de uma centena de pessoas encontrou a morte. Mais informações, nem sempre coincidentes, em Anales de Madrid, 285–286, A. Colmenares [1919:41–42], J. Deleito y Piñuela [1942:43 e 1988:112–113], J. O. Crosby [1967:144], Y. H. Yerushalmi [1989:63] e S. Fernández Mosquera [1994]. Vejam-se, além disso, os comentários de I. Arellano [1984 e 1989] ao soneto “Mientras que fui tabiques y desvanes” (Obra poética, 514).
[8] Dos numerosos naufrágios ocorridos na baía de Cádiz, Quevedo faz referência, sem dúvida, ao sucedido em 6 de maio de 1633, que atingiu a frota de Tierra Firme. Em 12 de maio, a notícia havia chegado à corte, e assim a narra uma relação contemporânea: “Levantara-se uma tempestade tão grande na baía que estiveram muito perto de perder-se as frotas e os galeões que estavam para partir, porque surpreendeu algumas naus mercantes presas a uma só âncora, e uma delas se perdeu e foi a pique, e outras quatro correram grande risco. Salvaram-se a gente e muita mercadoria, e com sessenta e duas velas fez-se ao mar o Marquês de Cadereta. (…) A perda foi de mais de dois milhões em embarcações e mercadorias” (Diferentes sucesos, fól. 73r). O mesmo relato em Año 1632 y 1633, fóls. 27r–28r. Veja-se F. Serrano Mangas [1991:46]. Serem as âncoras a causa imediata do afundamento explica o paradoxo do texto: as âncoras, em lugar dos furacões, provocam o naufrágio, e as águas do porto fazem perder as mercadorias. Uma imagem semelhante, que identifica os portos com corsários, encontra-se no soneto “Si son nuestros cosarios nuestros puertos” (Obra poética, 59), sem dúvida em consequência desse mesmo acontecimento de Cádiz, ocorrido na primavera de 1633. Nele coincide também a interpretação moral do fato como castigo de faltas cometidas. Veja-se S. Fernández Mosquera [1994]. Sobre as informações pontuais que Quevedo recebia, onde quer que estivesse, acerca dos acontecimentos da atualidade — e seu conhecimento do aparecimento dos cartazes, estando ele em Villanueva, ilustra-o bem —, veja-se agora H. Ettinghausen [1994].
[9] “Entre agosto de 1629 e junho de 1633, a Espanha vê desmoronar o sistema de praças-fortes que bloqueavam as comunicações fluviais da Holanda: por capitulação ou abandono, cedem-se Wesel, Bois-le-Duc e Duisburg (1629); Juliers, Orsoy, Oppenheim e Magúncia (1631); Venlo, Roermond, Maastricht, Limburgo e Frankenthal (1632); e Rheinberg (1633)” (O. Alcalá-Zamora 1975:254, nota; mais dados nas pp. 293–296). Pode-se consultar também J. H. Elliott [1990a:439].
[10] Em 8 de setembro de 1628, na baía de Matanzas, o holandês Piet Heyn capturou a Frota das Índias, a qual, para maior humilhação, se entregou sem luta, amedrontada pela superioridade holandesa. Esse desastre, gravíssimo revés para a situação política e econômica de Olivares, significou não apenas a perda do tesouro, mas que este passasse a engrossar os cofres do pior inimigo da Espanha. Vejam-se C. Fernández Duro [1895–1903, IV:95–106], P. Chaunu [1955–1959, VIII:1645–1646], J. H. Elliott [1990a:365]. Dir-se-á a esse respeito em Hora, 254: “[Os holandeses] vão buscar ouro e prata em nossas frotas como nossas frotas vão buscá-los nas Índias. Consideram economia e atalho tomá-los de quem os traz, em vez de extraí-los de onde se produzem. O descuido de um general ou o desvio causado por uma borrasca lhes proporciona os milhões mais baratos que as minas”. Consultem-se as notas de Bourg, Dupont e Geneste (editores de Hora) a essa passagem.
[11] “Em março de 1630, os holandeses obtiveram um novo êxito importante ao capturarem Olinda e Recife, na capitania de Pernambuco, no nordeste do Brasil” (J. H. Elliott 1990a:401). Mais informações sobre os pormenores do acontecimento, em que se destacou a escassa resistência oferecida, e sobre a reação espanhola e portuguesa em F. Tomás y Valiente e outros [1982:451], C. R. Boxer [1957] e Evaldo Cabral de Mello [1975]. Por outro lado, causou grande inquietação na corte a notícia, chegada em fevereiro de 1632, da ocupação pelos holandeses da estratégica ilha antilhana de São Martinho. Veja-se Hora, 103–104 e 283, nota. Para recuperá-la, enviou-se uma frota sob o comando do marquês de Cadereyta, que partiu em 12 de maio de 1633. A ela parece aludir a relação citada na nota 8. Por outro lado, tenha-se em conta que os judeus portugueses foram frequentemente acusados de favorecer esses reveses e deles se beneficiar (Hora, 337–338 e Y. H. Yerushalmi 1989:35).
[12] Quevedo refere-se aos progressos franceses, em detrimento do domínio espanhol, no norte da Itália, que tiveram por cenário a chamada Guerra de Mântua. Pelo Tratado de Susa (1629), a França obtém o direito de passagem de suas tropas pelo Monferrato; e, pela Paz de Cherasco (1631), que pôs fim à guerra, conserva a fortaleza de Pinerolo, seu primeiro baluarte permanente em solo italiano. Sobre a profunda impressão que essas notícias causaram no rei e em Olivares, veja-se J. H. Elliott [1990a:370]. E, a propósito da preocupação de nosso autor com a situação italiana, da qual tinha experiência direta, vejam-se seu Lince de Italia (1628), em que se refere ao estado de coisas imediatamente anterior ao aqui mencionado, e Hora, 279 e 287–288.
[13] Durante os anos de 1631 e 1632, os suecos se apoderaram de numerosas praças na Alemanha, entre elas Magúncia, Oppenheim e Frankfurt, provocando novo desastre na política externa de Olivares. Como resultado, Flandres ficaria cercada pelos inimigos da Espanha. Além disso, as forças de Gustavo Adolfo da Suécia passaram a ser as principais beneficiárias dos financistas judeus locais, frequentemente mediante exações forçadas. Veja-se J. I. Israel [1992:120].
[14] Trata-se de uma variação da idéia tópica veterotestamentária que entendia as calamidades e catástrofes como castigo da maldade individual ou coletiva. Aqui, ela serve a Quevedo como ponto de partida de seu memorial e como primeira premissa encaminhada ao que serão suas conclusões. Veja-se, por exemplo, P. N. Dunn [1950:391], em que se fornecem exemplos de Afonso X, Céspedes y Meneses (Soldado Píndaro, I, cap. 6, e Historia de Felipe IV) e do Padre Nieremberg (Causa y remedio de los males públicos); e também do próprio Quevedo (Lágrimas de Hieremías castellanas). De fato, nosso autor empregará com muita frequência essa pauta interpretativa para julgar os acontecimentos contemporâneos; tal é o caso de Chitón ou da comédia Cómo ha de ser el privado. O lugar-comum providencialista era de uso corrente nas reflexões políticas da época. O próprio Felipe IV, num escrito enviado ao Conselho Real em setembro de 1629 (AHN, Est., liv. 857, fóls. 180–183v), comentava, buscando uma explicação para o acúmulo de desastres daqueles meses: “Julgo que Deus Nosso Senhor está desgostoso e irado contra mim e contra meus reinos” (veja-se J. H. Elliott 1990:388). Além disso, por essas mesmas datas — 22 de março de 1632 —, e precisamente a propósito da presença de judeus portugueses na corte, o Conselho de Castela havia recorrido à mesma idéia. Veja-se a introdução.
[15] Alusão ao famosíssimo episódio do chamado Cristo da Paciência. Em 1630, um grupo de judaizantes de origem portuguesa foi acusado de reunir-se numa casa da rua das Infantas, em Madrid, para flagelar e submeter a diversas sevícias uma imagem de Cristo. Em consequência, seriam processados pela Inquisição e, em 1632, queimados após um aparatoso auto de fé ao qual compareceu o próprio Felipe IV. Veja-se a introdução.
[16] Além dos cartazes afixados nas ruas de Madrid, anteriormente, em 27 de novembro de 1625, aparecera em Sevilha, na igreja de San Isidoro, um papel com a seguinte inscrição: “Viva Moisés e sua lei, pois o resto é loucura”. Na noite seguinte, após afixar outro pasquim, foi preso o mulato Domingo Vicente, que seria condenado a quatro anos de galés e prisão perpétua num auto de fé celebrado no convento de San Pablo el Real no último dia de fevereiro de 1627. Registram a notícia J. M. Montero de Espinosa [1849:91–92], M. Méndez Bejarano [1922:185] e J. Blázquez Miguel [1988:206–207].
[17] A citação, embora um pouco modificada, provém, na realidade, de Próspero de Aquitânia (Sententiae ex Agustino delibatae, I, LXX): “Qui laudat Deum in miraculis beneficiorum, laudet etiam in terroribus ultionum. Nam et blanditur et minatur. Si non blandiretur, nulla esset exhortatio: si non minaretur, nulla esset correctia” (Corpus Christianorum, XL, p. 2093). Como já fizera notar J. O. Crosby (Política, 533), o mesmo ocorria na segunda parte de Política, 210 e 296. Repete-se em Virtud militante, 118; vejam-se os comentários de A. Rey Álvarez (Virtud militante, 214 e 225). Acrescentem-se El chitón de las tarabillas (Obras, I, 255b) e Epistolario, 208. Assim dizia a passagem original de Santo Agostinho (Enarratio in Psalmum, CXLIV): “Iste enim amabilis est et terribilis. Non enim blanditur et non minatur. Si non blandiretur, nulla esset exhortatio; si non minaretur, nulla esset correctia” (Corpus Christianorum, XL, p. 2093).
[18] Naum 3, 2–4. A citação do livro de Naum, assim como a tradução, omite a passagem “et quadrigae ferventis”, que, no texto da Vulgata, vem depois de “et equi frementis”. Por outro lado, utiliza-se a forma presente vendit, que se mantém na tradução, em lugar do pretérito vendidit da Vulgata.
[19] Isaías 1,21.
[20] Compare-se: “Afixam-nos para reconhecer, pelo modo como falam deles, os recônditos dos corações acerca das pessoas de quem falam” (Obras, Marco Bruto, I, 142b); “Nos claustros da alma a ferida / jaz calada” (Obra poética, 485, vv. 1–2). Veja-se M. Levisi [1973].
[21] No original, língua precita: “réproba, maldita”.
[22] “Chama-se Cristo filho de Davi; [a Davi] chamam todos o Real Profeta, o santo Rei” (Política, 49).
[23] Salmos 51,3.
[24] O texto contrapõe a indiferença diante dos cartazes favoráveis aos judeus aos efeitos da morte de Cristo, tais como os descreve Mateus 27,45–56. Compare-se, entre outras passagens, com Virtud militante, 95–96, ou com o poema “Deja la procesión, súbete al paso” (Obra poética, 147, vv. 49–54). Quevedo insiste reiteradamente nesses motivos, especialmente no da reação das pedras, em sua poesia religiosa (Obra poética, 151, 153, 154 e, sobretudo, 179, vv. 1–8) e em Las cuatro fantasmas (Obras, II, 144b). A capacidade das pedras de denunciar a iniquidade ou louvar o nome de Deus é um motivo bíblico comum (Habacuc 2,11; Lucas 19,40).
[25] No original, nota: “infâmia, desonra”. Compare-se: “Que qualidade tão imensa e que honra encontra no que come e no que lhe sobra, e que infâmia no que pede e lhe falta” (Sueños, 501).
[26] Ressoa nessas palavras a encarniçada polêmica ocorrida alguns anos antes em torno do pretendido copatronato da Espanha para Santa Teresa. Os carmelitas descalços haviam suscitado a iniciativa, e, em 1620, Felipe III determinara que, em 5 de outubro, se celebrasse a santa, então apenas beata, como padroeira. Ela seria canonizada em 12 de março de 1622, com o que se renovou a polêmica, até que Urbano VIII, num breve de 8 de janeiro de 1630, decidiu em favor do patronato exclusivo de Santiago. Como se sabe, Quevedo, cavaleiro de Santiago desde 1617, participara ativamente da disputa com um memorial dirigido ao rei em 1627, publicado no ano seguinte, assim como com o opúsculo Su espada por Santiago, dedicado ao Conde-Duque em maio de 1628. Ao que parece, isso teve muito que ver com seu desterro da corte entre junho e dezembro de 1628. Tenha-se em conta que o Conde-Duque militava, por vínculos familiares, entre os defensores da santa de Ávila. Vejam-se Obras, I, 221–222 e II, 423–425; J. H. Elliott [1990a:327–328; 1990b:234].
[27] Quevedo desenvolve a mesma visão providencialista da história da Espanha no memorial em favor do patronato do Apóstolo, embora ali se atribuísse a Santiago o engrandecimento da monarquia espanhola: “Vós, Senhor, lhe deveis as coroas que já cingis multiplicadas” (Obras, I, 225b). Por outro lado, também Adam de la Parra, em Pro cautione christiana, atribui o progresso de Castela ao fato de ter expulsado os judeus, e seu declínio ao de tê-los admitido novamente; assim como explica a decadência portuguesa por se ter misturado com eles (J. de Entrambasaguas 1973:234). Veja-se a nota 41.
[28] A imagem de Felipe IV como “rei planeta” estava extraordinariamente difundida nesses anos (I. Brown e J. H. Elliott 1981:42; 1990a:190). Compare-se também nossa passagem com estes versos destinados a celebrar a inauguração do Buen Retiro, em dezembro de 1633: “Aquela fronte augusta que coroa / quanto o mar cerca, quanto o sol abriga / — pois o que não governa, Deus o castiga / não o sujeitando à sua pessoa” (Obra poética, 229, vv. 1–4).
[29] Quevedo refere-se aos numerosos e militantes escritos em favor da implantação dos estatutos de limpieza de sangre (pureza de sangue), destinados a regular a admissão em diversas instituições: colégios maiores, cabidos, etc. O ponto de partida, segundo Sicroff, parece estar na chamada Sentença-Estatuto de Toledo (1449) — mas veja-se E. Asensio [1976:169] —, promovida por Pedro Sarmiento no contexto de um famoso tumulto antijudaico (veja-se a nota 69), e que seria desautorizada pelo Papa Nicolau V. A polêmica alcançaria especial virulência por ocasião do estatuto da Catedral de Toledo, promovido um século mais tarde pelo arcebispo Martínez Silíceo. Vejam-se A. Domínguez Ortiz [1955:53–79; 1992:137ss.], A. Sicroff [1985] e a nota 69.
[30] Refere-se à obra desse jurista e advogado em Alcaraz intitulada Silva responsorum iuris, in duos libros divisa, quorum quilibet indicem continet, ubi multae questiones ad Regni legum explanationem utilissimae ponatur (Luis Sánchez, Madrid, 1614). Trata-se de uma compilação de pareceres forenses; e, a propósito de um deles — o duodécimo do primeiro livro, fóls. 120r–135r —, acerca de se o fisco deve alimentar os conversos (“hipocriter conversis”) e os filhos de hereges, reuniu, excepcionalmente em castelhano, diversas notícias fantasiosas sobre a índole sediciosa e audaz dos judeus, em sua maior parte muito divulgadas. Entre elas, as que Quevedo recolhe aqui a seguir. Veja-se J. Caro Baroja [1978, II:432–433 e III:331–332]. O fragmento citado imediatamente corresponde a uma suposta carta do arquissinagogo de Constantinopla, cuja notícia Villar Maldonado faz remontar a Dom Juan Martínez Silíceo, arcebispo de Toledo. Essa correspondência circulou manuscrita na época e passou a ser lugar-comum nos escritos antijudaicos daqueles anos. Sobre ela: A. de Castro y Rossi [1847:137–142], I. Loeb [1887], A. Sicroff [1985:148]. Talvez mereça destaque o relevo que alcança no Discurso de Gavilán Vela; consulte-se J. Riandière La Roche [1982:60, nota].
[31] A anedota da correspondência com Constantinopla, de fato, resistia mal à análise. Como registra J. Caro Baroja [1978, II:431], já Diego de Simancas, em sua Defensio statuti Toletani (Antuérpia, 1575), concedia: “si forte fabula ficta sit…” (fól. 19). A. de Castro [1847:137] e A. Sicroff [1985:148] consideram o próprio arcebispo Silíceo o inventor da patranha.
[32] M. Méndez Bejarano [1922:149–150] dá notícia imprecisa de um manuscrito da Biblioteca Colombina em que se refere a anedota. O Rei Católico tinha a seu serviço um médico judeu que costumava usar um colar do qual pendia uma esfera de ouro. O príncipe Dom João tomou-se de capricho por ela, fez com que lha dessem de presente, abriu-a e viu que continha um retrato do médico — e aqui se afasta da versão de Quevedo — abraçando indecentemente um crucifixo. Ao saber disso, o rei mandou queimar o médico e, pouco depois, decidiu a expulsão de todos os judeus de seus reinos. Veja-se também J. Blázquez Miguel [1988:143, nota]. A base da anedota é o costume difundido entre os judeus de levar ao pescoço, à maneira de escapulário, um escrito com alguma oração ou texto religioso.
[33] Como as anteriores, trata-se de um relato muito difundido a partir da controvérsia em torno do Estatuto de Toledo, de meados do século XVI. Veja-se A. Sicroff [1985:147]. Recolhe-o Ignacio Villar Maldonado, fól. 133r, de onde Quevedo o toma. Também aparece, com mais pormenores, em Frei Diego Gavilán Vela (Discurso, 73).
[34] Para além do lugar-comum e da tradição histórica nesse sentido, é patente a elevada presença de judeus, muitos deles portugueses, na profissão médica das primeiras décadas do século XVII. Vejam-se J. Blázquez Miguel [1988:142ss.] e Y. H. Yerushalmi [1989:50 e notas].
[35] As mulas, além de serem o animal empregado para transportar aqueles que seriam penitenciados no auto de fé, eram a montaria tradicionalmente atribuída aos médicos e um lugar-comum na tradição satírica. Veja-se, sem mais, Sueños, 175–176, nota.
[36] João 15,20.
[37] Assim: “Advirto eu aos avinhonenses que, na enfermidade, confiam a si mesmos e a seus filhos aos pérfidos judeus e aos inimigos dos cristãos, pois, se perseguiram Cristo, deve-se crer que também nos perseguirão; se pensais o contrário, sereis para aqueles semelhantes aos que chamam Cristo de mentiroso e profeta. Eu, ao contrário, sou cristão e reconheço a verdade de Cristo ao dizer: ‘Se me perseguiram a mim, também a vós perseguirão’. Além disso, pede a morte aquele que busca a cura nos judeus, porque considera que pode sarar sem a ajuda de Cristo” (Ioannis Franciscus a Ripa [†1534], Tractatus de Peste, fóls. 97v–98r).
[38] Exclusividade no comércio e na venda de determinados produtos.
[39] Sobre a polêmica em torno dos estatutos, reavivada após a entrada indiscriminada dos judeus portugueses e de especial virulência nesses anos, veja-se a introdução e pense-se em textos que denunciavam seu abrandamento, como o Pro cautione (1630), de Adam de la Parra, próximo de Quevedo por mais de um aspecto.
[40] Isto é, a passagem do tempo. Compare-se: “Aqui almas divinas sepultadas (…) estão, embora ociosas, ocupadas em aguardar do tempo a demora” (Obra poética, 192, vv. 329–332).
[41] Adam de la Parra defendia a mesma relação entre a expulsão dos judeus e o descobrimento das Américas em seu Pro cautione (1630). Veja-se A. Domínguez Ortiz [1951:109].
[42] Em Pro cautione, Adam de la Parra denunciava também que alguns comerciantes conversos gozavam de certos privilégios para fretar navios à América sem se ater às formalidades geralmente exigidas (A. Domínguez Ortiz 1951:109). Pense-se, por exemplo, na facilidade com que obtinham a “naturalidade das Índias”. Acerca dessa questão, pode-se consultar N. Broens [1989:29] e J. C. Boyajian [1983:17].
[43] Veja-se a nota 16.
[44] No original, ocurrencia: “situação de falta de liquidez, falência”.
[45] Salmos 44,8. A citação difere em dois pontos relevantes do texto da Vulgata — “Dilexisti iustitiam, et odisti iniquitatem; propterea unxit te Deus, Deus tuus, oleo laetitiae, prae consortibus tuis” —, mas coincide nesses mesmos lugares com a versão incluída no manuscrito A, Heredia Spínola, da primeira parte de Política, 350. Note-se que a primeira das discrepâncias afeta precisamente o quia sobre o qual se insistirá logo a seguir na interpretação literal.
[46] No original, precipitada: “iníqua, rasteira”. Compare-se: “Isto, Senhor, e a experiência vos asseguram quão precipitada cobiça têm os venezianos” (Obras, Lince, I, 236a). Compare-se com Salmos 51,6.
[47] No original, abatida: “toma-se também por vil e de pensamentos vis e baixos” (Diccionario de Autoridades). Compare-se: “Casam-se os carrascos abatidos / com mulheres, por serem do mesmo ofício” (Obra poética, 639, vv. 67–68).
[48] Decretales, 975. Como se indica com precisão no texto, tanto essa passagem quanto as citadas nos parágrafos seguintes pertencem ao título sexto do quinto livro: De Judaeis, sarracenis & eorum servis.
[49] Decretales, 977.
[50] Compare-se com estas passagens do próprio Quevedo: “Esta víbora ardente que, enlaçada, / perigos atou de nossa vida, / morte escorregadia em círculos torcida, / arco que se disparou como flecha animada”; “A víbora, que nos círculos de seu corpo se dispara como arco e seta homicida” (Obra poética, 464, vv. 1–4; Obras, Providencia, II, 198a).
[51] Decretales, 977.
[52] No original, príncipe, no sentido de “príncipe herdeiro”, daí a forma singular.
[53] Também Frei Diego Gavilán Vela, em Discurso, 149, recorda essa disposição da Casa Real.
[54] Na realidade, Jó 40,10.
[55] Jó 40,13.
[56] Jó 40,18. Compare-se com o soneto em que Beemote é equiparado ao diabo: “Não vês Beemote, cujas costelas / são lâminas finíssimas de aço, / cuja boca presume secar o Jordão inteiro / com um só sorvo, fundo e margens? / Não lhe vês, por dentes, brandir lâminas, / morder faminto e despedaçar guerreiro; / que tem por garganta e goela / do inferno as portas amarelas? (…) Suas forças sobre todos são venenos: / ele é o rei que contra Deus peleja, / rei dos filhos cheios de soberba” (Obra poética, 159). Em Jó, Beemote pode ser entendido como “hipopótamo”. Contudo, na tradição exegética, logo passou a ser assimilado à noção geral de “Besta” e, mais concretamente, de Satanás, e como tal foi entendido pelos Padres — São Jerônimo, Santo Agostinho, São Gregório —; e assim também por Quevedo no soneto. Vejam-se as notas ao poema mencionado de L. Schwartz e I. Arellano [1989:137–138], e também F. Vigouroux [1912:verbete correspondente]. Deve-se notar que também algumas nações, por sua arrogância, são vistas por vezes como encarnação alegórica da Besta (Daniel 7,2–8).
[57] O título correto da obra é Historia Scholastica. Mantemos a leitura errônea, que talvez se deva ao próprio Quevedo.
[58] Quevedo traduz literalmente a passagem de Pedro Comestor (†1178), Historia Scholastica, fól. CCXLIX, a propósito de Atos 18,1 e seguintes.
[59] Salmos 77,1.
[60] Salmos 77,35–36.
[61] Salmos 105,40.
[62] Mateus 27,25.
[63] Salmos 94,10. Passagem já citada por Marcos de Mazarambroz em seu Memorial (E. Benito Ruano 1976:104 e 117); veja-se a nota 69.
[64] Deuteronômio 32,5–6. O emprego de geração para referir-se aos judeus como raça, frequente no memorial, já era utilizado por Gavilán Vela. J. Riandière La Roche [1982:62] denuncia a manipulação que isso significa em relação ao sentido bíblico do termo.
[65] Salmos 13,1 e 52,1. A tese do ateísmo pertinaz do povo judeu é muito do gosto de Quevedo. Compare-se com esta passagem de Hora, 336, em que se apóia também no Salmo 13 e alcança formulação muito semelhante à de nosso texto: “Comumente nos têm pelos obstinados da esperança sem fim, sendo, no juízo da verdade, a gente mais desesperançada da vida. (…) A razão que dão para sermos obstinados em esperança duradoura é que aguardamos o Messias há tantos séculos; porém, nós nem o recebemos em Cristo nem o aguardamos em outro. Dizer sempre que há de vir não é porque o desejemos nem creiamos nele; é para dissimular com essas delongas que somos aquele ignorante que começa o salmo 13 dizendo em seu coração: ‘Não há Deus’. O mesmo diz quem nega aquele que já veio e aguarda aquele que há de vir”. Emprega novamente essa citação em Providencia e em Job (Obras, II, 192b e 236b).
[66] Salmos 13,1.
[67] Isaías 1,3. Quevedo cita também essa passagem em Política, 232.
[68] Salmos 34,12.
[69] Alude-se ao levante dos cristãos-velhos de Toledo em 1449, incitados por um imposto com que Álvaro de Luna pretendia custear a campanha contra Aragão. As principais vítimas da situação foram os judeus toledanos, considerados promotores e principais beneficiários do imposto. Pedro Sarmiento, assistente da cidade, tornou-se o mais destacado chefe da revolta, apoiado pelo bacharel Marcos García de Mora, natural de Mazarambroz. Fernán Díaz de Toledo, maliciosamente chamado Mosén Hamom pelo bacharel, foi o relator da causa contra essas personagens, e com ele Marcos de Mazarambroz atreveu-se a polemizar num famoso Memorial, ao qual Quevedo se refere, acusando Luna — como nosso escritor a Olivares — de aliado dos judeus, e estes de arruinar os cristãos. Vejam-se A. Sicroff [1985:51ss.] e, muito especialmente, J. Caro Baroja [1978, I:135ss.] e E. Benito Ruano [1976]. E veja-se agora o estudo e a tradução castelhana do Defensorem Unitatis Christianae, de Alonso de Cartagena, realizados por G. Verdín-Díaz [1992]. Tenha-se em conta que esse episódio foi utilizado por Silíceo como argumento para instaurar o Estatuto da Catedral de Toledo e que ocupou lugar importante nas polêmicas subsequentes. Vejam-se B. Porreño [1608], A. Domínguez Ortiz [1955:25–52] e A. Sicroff [1985:125ss.].
[70] Apologeticum, XVI, 3: “Cornelius Tacitus sane ille mendaciorum loquacissimus”. Encontramos o mesmo confronto entre Tácito e Tertuliano em La primera y más disimulada persecución de los judíos contra Cristo (1619): “E no que escreve do povo hebreu, com tantos erros que, por eles e por outros relativos aos cristãos, Tertuliano o chama no Apologético: ‘Aquele insigne charlatão mentiroso, Cornélio Tácito’” (Obras, II, 367b). Outras referências desfavoráveis a Tácito como historiador, em comparação com Juvenal e Tucídides, encontram-se em Job (Obras, II, 216b e 229b).
[71] No original, historial: “histórico, pertencente à história”.
[72] Historiarum, V, 5–2.
[73] Historiarum, V, 5–1.
[74] Moralia in Job, XXXI, 24; a propósito de Jó 39,19.
[75] Serpente venenosa do gênero das víboras.
[76] Gênesis 49,17.
[77] Com efeito, Hugo Cardeal, ou Hugo de Santo Caro (†1263), identifica o mar do qual há de nascer o Anticristo — bestiam nascentem — com o povo judeu e, concretamente, com a tribo de Dã, apoiando-se, para isso, na mesma passagem do Gênesis acima indicada (Postilla, fól. 367v).
[78] Quevedo não localiza a citação de João Damasceno, assim como não o faz Ignacio Villar Maldonado, fól. 133v, de quem toma, quase ao pé da letra, todas essas referências doutrinais — São Gregório, Hugo Cardeal, Damasceno — sobre o Anticristo. Veja-se a nota 30.
[79] Vejam-se as notas 65 e 88.
[80] O texto segue literalmente a narração do episódio feita por Jerónimo Castillo de Bovadilla em Política para corregidores, I, 104, de ampla difusão na época. Sobre o autor e a obra: F. Tomás y Valiente [1975:159ss.] e o estudo preliminar de Benjamín González Alonso à edição fac-similar (Instituto de Estudios de Administración Local, Madrid, 1978). O episódio do médico de Henrique III é mais um dos utilizados na polêmica sobre o estatuto da Catedral de Toledo (A. Sicroff 1985:129).
[81] Em 22 de setembro de 1609, sendo rei Felipe III, torna-se público, para o reino de Valência, o primeiro édito de expulsão dos mouriscos, no qual se estipulava o direito destes de levar consigo todos os bens móveis que pudessem transportar. Quanto aos que não pudessem, assim como aos bens imóveis, o rei dispunha que, em vez de serem integrados ao patrimônio real, fossem destinados aos senhores dos expulsos a título de indenização. Por disposições sucessivas, até o ano de 1614, a expulsão foi ampliada aos mouriscos de outros lugares, ao mesmo tempo que se endureciam as condições em que se realizava e se modificava, por vezes substancialmente, o destino inicialmente previsto para os bens confiscados. Para mais detalhes, consulte-se A. Domínguez Ortiz e Bernard Vincent [1984:177ss.].
[82] No original, precitos: veja-se a nota 21.
[83] No original, presumida: “suposta, conjecturada”. A tese sobre a necessidade de uma nova e mais radical expulsão era sustentada, entre outros autores antissemitas, por Gavilán Vela em Discurso, 211.
[84] É uma paráfrase que remete a esta passagem: “Et haec nescivit, quia ego dedi ei frumentum, et vinum, et oleum, at argentum multiplicavi ei, et aurum, quae fecerunt Baal” (Oséias 2,8).
[85] Salmos 118,18.
[86] Epistulae, LII (Ad Nepotianum presbiterum), 10. Versão: “Tudo isso entendemos do modo como Nosso Senhor mesmo entendeu e explicou o sábado; ou repudiemos o ouro com todas as outras superstições judaicas, ou, se o ouro nos agrada, agradem-nos pelo mesmo motivo os judeus. Não temos outro remédio senão aceitá-los ou reprová-los juntamente com o ouro” (Cartas de San Jerónimo, I, 420).
[87] Êxodo 32,1.
[88] Veja-se a nota 65, e recordem-se as palavras de Rabi Saadias em Hora, 336: “Nem esperamos, nem há o que esperar de nós”. Semelhante jogo de palavras já foi utilizado outras vezes na Execración.
[89] Ganhos obtidos com usura e, em geral, os negócios que os visam.
[90] Êxodo 32,2.
[91] Êxodo 32,3.
[92] “Quas cum ille accepisset, formavit opere fusorio, et fecit ex eis vitulum conflatilem dixeruntque: Hi sunt dii tui Israel, qui te eduxerunt de terra Aegypti” (Êxodo 32,4).
[93] No original, de su nota: “para sua infâmia ou desonra”. Veja-se a nota 25.
[94] Isto é: “Não o querem por ser Deus, mas por ser de ouro”. Compare-se com a seguinte passagem de Hora, 334: “Comandados por Moisés, quando ele subiu ao monte para receber a Lei, demos demonstração de que a religião de nossas almas era o ouro e qualquer animal que dele se fabricasse: ali adoramos nossas jóias no bezerro, e nossa cobiça jurou, como por sua divindade, pela imagem da cria das vacadas. Não admitimos Deus em outra moeda, e nesta admitimos qualquer réptil por deus. Bem conhecia a enfermidade de nossa sede quem nos fez beber o ídolo em pó. Grande e ensanguentado castigo se seguiu a esse delito; porém, degolando muitos milhares, a poucos deu escarmento, pois, fazendo depois Deus conosco tudo quanto lhe pedimos, nada fez de que logo não nos enfadássemos”.
[95] Mais que uma citação literal, parece uma paráfrase de Êxodo 32,5–6.
[96] Êxodo 32,9.
[97] “Vidit vitulum, et chorus” (Êxodo 32,19).
[98] “Dixitque ad Aaron: Quid tibi fecit hic populus, ut induceres super eum peccatum maximum?” (Êxodo 32,21).
[99] Êxodo 32,22.
[100] Note-se a insistência: é uma reiteração de Êxodo 32,4, com o notório objetivo de ressaltar a responsabilidade e a mentira de Aarão.
[101] “Quibus ego dixi: Quis vestrum habet aurum? Tulerunt, et dederunt mihi: et proieci illud in ignem, egressusque est hic vitulus” (Êxodo 32,24).
[102] Assim é: “Cui ille respondit: Ne indignetur dominus meus” (Êxodo 32,22).
[103] “Uidit vitulum, et chorus: iratusque valde, proiecit de manu tabulas, et confregit eas ad radicem montis: arripiensque vitulum quem fecerant, combussit, et contavit usque ad pulverem, quem sparsit in aquam, et dedit ex eo potum filiis Israel” (Êxodo 32,19–20).
[104] Êxodo 32,26–28.
[105] Lamentações 3,37.
[106] Veja-se a nota 15.
[107] No original, religión: “dever, obrigação de consciência”.
[108] “Cuius cordis est ista simulatio? Sacerdotum conscientia capit quod templi arca non recipit. Refutatur illius sanguinis taxatio, cuius non timetur effusio” (Leo Magnus, Tractatus, LVII, 3). A citação, que coincide literalmente com a versão da Execración, repete-se, traduzida, em Las cuatro fantasmas (Obras, II, 145b).
[109] Mateus 27,6–8. Compare-se com a tradução da mesma passagem em Las cuatro fantasmas (Obras, II, 145a). Uma referência à mesma passagem em Política, 162. O nome, de origem aramaica, que esse campo recebe varia entre Haceldama e Aqueldemac, segundo as fontes. Sobre ele há uma ampla literatura: veja-se, por exemplo, Vigouroux [1912:verbete correspondente].
[110] “Era Judas Simão Iscariotes, que se interpreta Varão de Charioth”; “Judas, ingrato varão de Carioth” (Política, 182; Obra poética, 192, v. 562). No original,cepo: “caixa para as esmolas” e, mais amplamente, “fundo econômico do templo”. A propósito da identificação, inclusive etimológica, de Judas Iscariotes com os judeus, veja-se Discurso, 22, em que se lhe atribui a condição de chefe espiritual desse povo.
[111] A máxima, levemente alterada, também é recolhida em Política, em que é igualmente atribuída a Sêneca, e em Marco Bruto: “Nada se comete mais, disse Sêneca, do que aquilo que mais se castiga”; “Cometem-se mais aqueles pecados que mais vezes se castigam” (Política, 181; Obras, I, 135a). A mesma idéia já aparecia no Discurso de las privanzas, embora sem mencionar Sêneca: “E assim, é comum cometer-se muitas vezes aquilo que muitas vezes se castiga” (Astrana, Obras, 1224b).
[112] Benito Ferrer, catalão de sangue judeu, antigo frade convertido ao luteranismo, alcançou grande notoriedade ao disfarçar-se de sacerdote, tomar uma hóstia consagrada e despedaçá-la diante dos fiéis numa igreja madrilena. Foi queimado vivo após um auto de fé celebrado na Plaza Mayor em 21 de janeiro de 1624, e, em 5 de julho desse mesmo ano, foi imitado em sua ação por um francês chamado Reinaldos de Peralta, na igreja de San Felipe. A profanação de Ferrer ocupou várias vezes a pena de Quevedo. Em carta de 9 de julho de 1624 ao Conde-Duque de Olivares, o escritor refere-se a esses episódios, desenvolvendo a mesma tese acerca do efeito contraproducente dos castigos, por darem lugar à imitação de “outros ambiciosos de nome e posteridade e rumor dos povos e nações” (Epistolario, 128). Quevedo voltará a trazer à discussão a figura de Benito Ferrer em La rebelión de Barcelona (Obras, I, 283b). Vejam-se, a esse propósito, Anales de Madrid, 260–262, e, sobre as notícias que Quevedo teve desses fatos, Ettinghausen [1994:37–38].
[113] Talvez a principal desonra que Quevedo atribui continuamente aos judeus seja sua ingratidão para com Deus, depois de terem sido o povo eleito. Compare-se com diferentes passagens de Primera persecución (Obras, II, 365a), Hora, 333–334, e, sobretudo, Virtud militante, 505.
[114] Mateus 17,27. A mesma passagem evangélica é comentada extensamente em Política, 183–185.
[115] Mateus 12,13.
[116] “Gitano. Quasi egitano, do Egito” (Covarrubias). Talvez se possa entrever nessa afirmação uma exacerbação da opinião de Gavilán Vela em seu Discurso, 143, que pretendia denegrir os judeus considerando-os “como ciganos”.
[117] “Consciência do proveito próprio sob a capa do bem público”. No original, aumentos: “chamam-se assim as vantagens, os progressos e os adiantamentos de alguma pessoa, quer em bens temporais, quer em empregos e cargos honoríficos” (Diccionario de Autoridades). Quevedo emprega repetidamente o termo em sua poesia moral (Obra poética, 73, v. 7; 76, v. 11; 80, v. 13). Compare-se também com esta passagem: “Crescer em domínio e senhorio é perigoso e chama-se aumento” (Epistolario, 423).
[118] Não deixa de ser significativo que Quevedo recorra aqui, no momento de complementar sua argumentação a partir da necessidade política, a Tibério — na verdade, ao retrato que Tácito traça do César nos primeiros livros dos Anales. Na época, Tibério foi tomado como exemplo de “governante político”, até certo ponto equivalente ao príncipe de Maquiavel na defesa do princípio da razão de Estado e do voluntarismo político. Tendo presente o antitacitismo de Quevedo, deve-se entender o que segue como um esforço seu para derrotar em seu próprio terreno aqueles que argumentavam em favor da presença dos marranos, fundamentando-se na conveniência política ou na razão de Estado.
[119] No original, consisten: “fundam-se”.
[120] A atual Dubrovnik. Enclave essencial no comércio da Europa Ocidental, Veneza, com Salônica e Constantinopla. Veja-se H. Méchoulan [1993:267–268].
[121] Juntamente com Constantinopla, uma das grandes comunidades judaicas do Império Otomano e lugar de acolhimento de numerosos sefarditas. Veja-se H. Méchoulan [1993:382–388].
[122] Rouen foi um dos principais destinos escolhidos pelos judeus exilados a partir dos anos noventa do século XVI. Recordem-se as investigações do inquisidor Villadiego a propósito das conexões dos marranos estabelecidos na Espanha com os homens de negócios judeus dessa cidade francesa. Veja-se a introdução. Sobre a grande importância da atividade comercial dos portugueses estabelecidos em Rouen e suas conexões, confira N. Broens [1989:45–66].
[123] Amsterdã era uma das capitais comerciais da Europa, especialmente no que se refere ao tráfego ultramarino. Havia ali uma importante comunidade judaica, na qual os procedentes de Portugal ocupavam lugar destacado; a maior parte do comércio judeu a partir dessa cidade se realizava com Portugal e seus territórios. Os homens de negócios portugueses estabelecidos na Espanha foram acusados de utilizar suas relações com aquela comunidade para enriquecer com o contrabando. Vejam-se J. Israel [1992:85, 117, 134–135] e H. Méchoulan [1993:201–216].
[124] A partir da concessão, pelo imperador Maximiliano, da licença de permanência indefinida aos judeus, Praga tornou-se uma das comunidades judaicas mais importantes da Europa Central e, nas primeiras décadas do século XVII, chegou a ser, depois de Roma, a maior comunidade judaica da cristandade. Desempenhou papel fundamental no financiamento das campanhas da Guerra dos Trinta Anos. Veja-se J. Israel [1992:59 e 115].
[125] Nos anos trinta, Veneza, que era um centro judaico essencial na costa adriática, entrou em decadência, e seu lugar seria ocupado por Livorno. Sobre o estabelecimento e a atividade hebraica nessas cidades, veja-se H. Méchoulan [1993:279–290 e 301–310].
[126] Compare-se com as palavras de Rabi Saadias em Hora, 339: “Em Rouen, somos a bolsa da França contra a Espanha, e, juntamente, da Espanha contra a França; e, na Espanha, com traje que serve de máscara à circuncisão, socorremos aquele monarca com o cabedal que temos em Amsterdã, em poder de seus próprios inimigos, aos quais importa mais ordenar que lhe adiemos as letras do que aos espanhóis cobrá-las”. Tenham-se também em conta essas palavras para o que segue, em que continuam a desenvolver-se as idéias expostas na passagem citada.
[127] Anos mais tarde, comenta Matías de Novoa [1878–1886, IV:362–363]: “Mas, como a estes [os judeus portugueses] vem de tão longe serem falsos, inconstantes e capciosos, reconheceram-se nos pagamentos muitos enganos e fraudes, e o não cumprimento pontual dos pagamentos das praças de armas, dando por desculpa não serem bons os valores destinados a efetuá-los (…) e assim agora se pode crer que haveria neles alguma má trama, e queira Deus que não fosse em Portugal, de reter os pagamentos para enfraquecer os progressos das armas fiéis e católicas”. Veja-se a nota anterior e as importantes referências a juízos semelhantes nesses anos em Hora, 111ss.; particularmente a denúncia de 1633, a propósito do processo de Núñez Saravia, dos negócios realizados em Rouen e Amsterdã, sob nomes supostos, por financistas marranos estabelecidos em Madrid. Adam de la Parra sublinhava o mesmo fato em Pro cautione; veja-se A. Domínguez Ortiz [1951:110]. Também N. Broens [1989:50ss.].
[128] No original, ejicial: é um cultismo, do latim exitialis.
[129] Veja-se a nota 47.
[130] Também em Pro cautione, Adam de la Parra desenvolve o argumento de que os judeus conversos são mais perigosos do que aqueles que se mantêm como judeus, e sustenta-se a idéia de que, por causa do pecado de seus pais, devem ser humilhados, relegando-os às ocupações mais vis. Veja-se A. Domínguez Ortiz [1951:103 e 108].
[131] Aos Tessalonicenses 2,15–16. O começo da citação é uma adaptação da Vulgata, em que se lê: “qui et Dominum occiderunt Iesum…”.
[132] Aos Coríntios 6,14.
[133] No original, con ninguna color: “vale também por pretexto, motivo e razão aparente para empreender e executar alguma coisa encoberta e dissimuladamente” (Diccionario de Autoridades).
[134] Veja-se a nota 80. A ênfase na maldade intrínseca da herança judaica, para além de aparentes conversões, é outro ponto comum dos escritos antijudaicos desses anos. Sirva de exemplo o Discurso, 173. Veja-se J. Riandière La Roche [1982:57 e passim].
[135] Veja-se a nota 44. Tradicionalmente a monarquia hispânica havia recorrido aos banqueiros genoveses para custear seus gastos, razão pela qual causava estranheza recorrer aos judeus, os quais concediam crédito em quantia muito menor e com uma taxa sobre o uso do dinheiro (usura) muito onerosa.
[136] No original, apretadas: “comprometidas, aflitivas”.
[137] No original, factor: “intermediário financeiro que tinha caráter oficial”. Com efeito, os negócios financeiros com os genoveses envolviam um número muito limitado de banqueiros. Duas ou três famílias quase monopolizavam os empréstimos. Por volta de 1633, Bartolomé Espínola ocupava o cargo de agente financeiro geral, e, em torno dele, atuavam outras importantes famílias de financistas genoveses que já haviam exercido tais funções sob Felipe III, especialmente os Centurión e os Imbrea. Veja-se A. Domínguez Ortiz [1960:100–101 e 109ss.].
[138] “Toma-se também por coisa baixa, grosseira e indecorosa” (Diccionario de Autoridades).
[139] A capacidade de crédito desses judeus portugueses, tomados individualmente, era muito inferior à de seus colegas de Gênova. Isso fazia com que a realização de um contrato de financiamento exigisse a associação de um número elevado de prestamistas. Como referência, pode-se assinalar que, enquanto um só banqueiro genovês — Octavio Centurión, em 1624 — chegou a emprestar, de uma única vez, 5.290.000 ducados, o habitual era que a capacidade creditícia de um financista português não ultrapassasse os 400.000 ducados por ano. Veja-se A. Domínguez Ortiz [1960:112 e 131] e, sobretudo, J. C. Boyajian [1983:17–41]. Veja-se a introdução.
[140] Sobre a possibilidade de os genoveses, que haviam perdido o monopólio em 1626, voltarem a se tornar os financistas exclusivos da Coroa espanhola, compare-se com o que se lê no quadro XXXIII de La hora de todos, sem dúvida não muito distante, no tempo, da Execración; veja-se ali a nota 442 sobre a atualidade da questão.
[141] Com efeito, as negociações entre os homens de negócios judeus e a Coroa, que já vinham de longa data, acentuaram-se desde o início do século XVII e seriam favorecidas pela política reformista do Conde-Duque. Entre outras medidas, destaca-se o perdão de 1627, que vinha sendo negociado desde que Felipe IV ocupara o trono. Vejam-se J. Caro Baroja [1978, I:362ss.], A. Domínguez Ortiz [1955:103–123; 1992:76ss.] e a introdução.
[142] Quevedo já utilizara o mesmo argumento — embora então contra ingleses e franceses — em favor dos negócios com Gênova em Lince de Italia (1628): “Mal consideram o estado dessa liga aqueles que têm por vil e pernicioso para a Espanha o trato com ela, pelo ouro e pela prata que dela retiram. (…) Gênova é o cofre secreto em que salvamos o cabedal dos franceses e ingleses, pois o que estes levam desaparece, e, com seu comércio, nos deixam pobres, sujos e néscios. E, das Índias, só se salvam aquelas barras que Gênova recebe, porque, embora o ouro e a prata que elas vos dão sejam levados por eles, é com o bem regateado ganho de tutor que esconde as jóias que vê em perigo de serem furtadas. Levam o ouro e a prata a Gênova, é verdade; mas dali os passam a empregar em propriedades, títulos de renda, rendas, estados e títulos em vossos reinos da Espanha, Nápoles, Milão e Sicília. De sorte que a maior parte deles tem hipotecados a vosso serviço, com vassalagem, pessoa e bens; e em Gênova só vivem livres os votos do Senado, que, por essa razão, também são vossos” (Obras, I, 244a).
[143] Salmos 90,11–12. A propósito dos “dois anjos” em que se transforma o indefinido angelis do salmo, compare-se: “Se dois anjos Deus deu / ao rei, seu parecer / mais acertado há de ser / que o parecer do favorito” (Obra poética, Cómo ha de ser el privado, IV, 156).
[144] Salmos 90,13.
[145] Salmos 90,6. A mesma passagem em Política, 174.
[146] Compare-se: “E declaro que nada é meu, senão o que eu, pedindo licença para imprimir, trouxer à luz” (Obras, La cuna y la sepultura, II, 76).
[147] Provérbios 29,1.
[148] O que segue é uma paráfrase muito fiel de Números 22,5–23.
[149] No original, últimamente: “finalmente, em último lugar”.
[150] Balaão é considerado na Bíblia, com muita frequência, exemplo quase por antonomásia do profeta que ignora a palavra de Deus (Deuteronômio 23,4; Josué 13,22 e 24,9–10; Neemias 13,2; Miqueias 6,5; II Pedro 2,15, etc.). É muito pertinente a comparação com o uso que Quevedo faz da história de Balaão em Providencia (Obras, II, 187b) e, sobretudo, com o seguinte soneto, em que se desenvolve uma interpretação idêntica do episódio bíblico: “Para amaldiçoar o povo, num jumento, / parte o profeta Balaão, apressado. Deus, que vê o dano do povo, / rei desvelado em guardar seu povo, / clemente, opõe a seu caminho, armado / de sua milícia, esplêndido portento. / Obedece o jumento, não o profeta; / e, quando mereceu prêmio e agrado, / mais obstinado a caminhar o aperta. / Teme a jumentinha o anjo, sofre a vara: / e encontrou o céu obediência mais perfeita / em mau animal que em mau ministro” (Obra poética, 160). O episódio também é aduzido na Introducción a la vida devota (Obras, II, 305b), em que se segue literalmente Francisco de Sales. Veja-se S. Fernández Mosquera [1994].
[151] No original, retiramientos: “abstrações”; pode entender-se aqui como “lição alegórica”. Contraste-se com a nota 20.
[152] “Levanta tuas mãos até o fim contra suas soberbas. Quão malévolo é o inimigo no santuário! E se vangloriaram aqueles que te odiaram em meio às tuas solenidades. Puseram seus sinais, os sinais” (Salmos 73,3–4). Veja-se a nota 1.
